Ian Lecter apresenta a Cor Da Alma (2020) Retinta! O jovem rapper manauara lançou o seu excelente disco de estreia e você necessita conhecer!
Fazer arte e estar dentro da cultura hip hop sendo negro retinto é um desafio dos maiores em nosso país. É paradoxal né? Certamente, mas é isso que espera homens e mulheres retintos em nosso país. Esse é o espectro mais atacado, maltratado e invisibilizado dentro da palheta de cores que compõem o nosso racismo estrutural No entanto, as dificuldades não cessam aí, por conta de um eixo artificial centralizador por conta da importância econômica, é raro alguém consumir a arte feita no norte da nação. E acrescente-se aí toda a dificuldade financeira que artistas independentes e pobres possuem para produzir, para entregar sua arte da melhor forma.
Por outro lado. é da negritude brasileira que emana a força de nossa cultura, o hip hop é fruto dos pretos, enfim, não precisamos aqui reafirmar o óbvio. A distância dos grandes centros em geral gera uma outra vivência e com certeza outras percepções da realidade. É dentro desse caldo, negociando entre a opressão e a inventividade que Ian Lecter produziu seu primeiro trabalho. Jorge Ben certa vez cantou que o negro é a origem de todas as cores, e em Cor da Alma (2020) o artista amazonense nos apresenta todo o alcance que a luz que emana de seu espírito possui.
E é vergonhoso que a cena nacional deixe tamanho trabalho passar batido, que a mesma trate uma produção como essa com tamanho desdém, enquanto endeusam traps para adolescentes como genialidade. Mas enfim, disso já sabemos. Aqui o papo é de gente grande, o disco de estréia é uma obra de coesão estética surpreendente, quanto mais escutamos, entre boombaps e traps, a força da poesia de Ian e de seus convidados é daquelas que fixam na pele, como tatuagem.
Sendo honesto, não desconfiávamos dessa atmosfera que Ian Lecter constrói com tanto talento e substância em sua parceria com os beatmakers DK, OLX, Ethos, Makintrax e do DaLuz, o bonde responsável pela sonoridade das músicas. Por essa sonoridade não existia até então, é reflexo genuíno da alma retinta que reluz. Reluzindo através da relação entre uma lírica afiada variando sobre temas em beats que variam por sua vez sonoridades e que encontram um flow que sopra sempre o barco para frente através de caminhos inauditos. É nessa trajetória que Cor da Alma (2020) ganha a sua potência e nos oferece mais um artista do hip hop manauara, com muita originalidade.
Primeiros discos são sempre um desafio e muitas vezes vemos jovens mc’s com algum hype no eixo, lançarem primeiros discos decepcionantes. Pois é difícil, colocar sua marca numa obra coesa, com originalidade, segurança, essência e coesão. Ian Lecter tira isso de letra em letra, com uma fluidez muito plena de si mesma. Abordando diversos temas, variando o flow e nunca perdendo de vista a qualidade de sua proposta, a técnica está sempre a favor da arte, artesania que parece ser comum na cena de Manaus.
O fato historicamente comprovado é que bons ou excelentes artistas se destacam por conseguir imprimir diferenças em temas batidos, o racismo é constantemente “batido” em nossa cultura, o que não significa que seja algo que se esgotou, longe disso. E como homem negro retinto, Ian Lecter traz tons e perspectivas incomuns para essa luta, arrancando do fundo de sua alma e com a profundidade de sua pele as chagas fruto do racismo estrutural. Ao longo das faixas o movimento é de expulsar da alma toda feiúra e sofrimento produzindo no final do processo força e beleza, indo do amor à ancestralidade e passando por exempo pela apropriação cultural.
Com essa operação encontramos o êxito que essa obra conquista ao re-pintar, re-tingindo o hip hop com cores fortes, assumindo sua herança com propriedade. Num jogo entre luz e sombra a poética do artista manauara nos coloca questões próprias de um excelente início de caminhada e de uma vivência que é comum, negra e periférica. Com muita luta para ser livre, para se desprender de falsas ideologias, de entender-se plenamente como homem negro. São 9 faixas e 33 minutos desse exercício do qual somos apaixonados, critica, poesia, pensamento e música!
Estrelopata é um termo que Ian nos traz e é bonito vê-lo fazer o contrário ao longo das faixas. Diagnosticando essa enfermidade e seguindo imune a essa doença que domina muitos e muitas, e mesmo aqueles que afirmam publicamente não estarem em busca do estrelato gigantesco, o MC nos apresenta a força da certeza de que faz uma arte iluminada. Brilhando com sua pele queimada, uma potência solar. A Cor da Alma (2020) de Ian Lecter é a da liberdade, justiça e igualdade, tingindo pela sua qualidade própria de homem negro, por isso retinto. Pois traz entre outras coisas essas qualidades rebatidas nas nossas lutas raciais e novas aqui em sua arte. Conteúdo trabalhado dentro de sua poética e que nos é entregue com uma música à altura de um rap/hip-hop do século XXI.
Tipo Madruga foi e é um excelente cartão de visitas do que esse disco traz. Um alvorecer lento que tem no rap manauara uma das suas grandes potências… O clipe produzido por Gralz Filmes apresenta um duplo audiovisual muito interessante da arte de Ian Lecter, que nessa faixa conta com a participação de Karen Francis. Os tons predominantemente pasteis e escuros da fotografia junto aos cenários escolhidos ditam um dos ritmos pictóricos do disco de estréia do rapper de Manaus.
Outras participações de peso estão no disco, como do DaLuz e do grande Victor Xamã na faixa título Cor da Alma, uma das faixas mais impactantes do disco. Já os manos Ghost e Mayer fecham com Ian na pesada Luxx. Não acreditem em quem só ouve os amigos, em quem só mira no hype e já já começa a babação de ovo de melhor, de revelação etc…
Ian Lecter e a Cor da Alma (2020) atestam que é necessário abrir um pouco mais a audição, ampliar os horizontes, se se quiser realmente falar em rap nacional. Tá aqui um grande disco de estréia, escute com atenção…
-Ian Lecter apresenta a Cor Da Alma (2020) Retinta!
Por Danilo Cruz
Danilo
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