O negócio atualmente é falar que você se separou e depois lançar um registro digno de pena e que faça os consumidores sentirem compaixão suficiente, para gastar uma quantia que, sinceramente, parece um caminhão de dinheiro quando o produto final se equipara ao musical da Peppa Pig.
Sempre vi a Björk como um ateliê ambulante, em várias épocas de minha vida fui atrás de seus discos só para saber o que estava acontecendo na música, que na cabeça dessa islândesa toca de maneira única. Primeiro que o termo ”música” é absolutamente amplo em sua mente, ela não divide nada e toca absolutamente de tudo, sempre misturando e fazendo com que as vertentes, por mais diversas que sejam, consigam cooperar de maneira exuberante.
É só dar uma rápida repassada em sua discografia, são dezenas de gêneros listados em cada disco, pois nenhum resenhista possui a cara de pau (graças a Jah), de restringir toda a arte que essa cinquentona produziu, produz e produzirá.
Ela passou pelo Folk, brincou com a onda Trip-Hop, fez Rock, foi alternativa, eletrônica, industrial, ambiente, psicodélica e com ”Vulnicura”, seu nono disco de estúdio lançado dia 20 de janeiro deste ano, a sinhá consegue retomar as experimentações com música clássica e continuar fazendo sons que serão novidade até os anos 3000.
Track List:
”Stonemilker”
”Lionsong”
”History Of Touches”
”Black Lake”
”Family”
”Notget”
”Atom Dance” – Anthony Hegarty
”Mouth Mantra”
”Quicksand”
Sem chorar, sem reclamar e apenas aceitando e olhando para o futuro, nossa heroína retratou o acontecido antes, durante e depois do processo, sendo que o tom sereno que permeia o disco mostra algo de positivo no fim, coisa que nunca vi em nada desta natureza.
Isso sem contar a finesse com que a solteirona avalia suas possibilidades e filosofa sem aumentar o tom, criando um de seus melhores trabalhos e, mais do que qualquer coisa, se reaproximando do público de maneira humana, coisa que a julgar por sua voz de anjo feito de gelo nunca pensei que fosse um fato biologicamente verídico.
Mas pra quem conhece esta senhora de outros invernos esse lado não é novidade, só que mais do que tudo o ponto primordial desse trabalho é manter a mística dessa genial artista, que em cada trabalho consegue criar uma atmofera única. Energia cósmica e sentimento místico que em ”Vulnicura” falam de algo doloroso e ainda assim começa e termina com uma positividade que lava a alma, sem deixar o ouvinte naquela tradicional fossa.
Abrindo os trabalhos com a elevação de ”Stonemilker” e os retratos de oito meses antes do fim, a leveza que beira o sublime em ”Lionsong” e continua se aproximando do zero com 4 meses para o ultimato, e ”History Of Touches” de apenas um mês antes de algo denso, o fim.
E é interessante notar que depois dessa faixa tudo fala sobre o que acontece depois, mas a música segue o mesmo padrão, logo, podemos inferir algo grandioso, por trás de tudo que se encerra existe um novo início, o que não significa necessariamente uma nova existência e sim novas possibilidades, por isso a mesma vibe, só que com novos olhares implícitos.
Os arranjos são fantásticos, o feeling chega a ser palpável e a tristeza apesar de existir não fica evidente, é um processo de cura que em nenhum momento machuca o ouvinte, é até grandioso notar como até mesmo a Björk (!) já teve que passar por isso. Só que meu único alerta é a densidade desse novo trabalho.
Não é um CD complexo, mas é necessário concentração. Em 9 temas vale ressaltar que em apenas duas oportunidades (”History Of Touches” e ”Quicksand”), a viagem não chega em seis, oito ou até mesmo dez minutos, mas a fluência das musicas é digna de deixar essa folha em branco tamanho o caráter abstrato das narrações e das deliciosas passagens, que é bom dizer, também primam por não exagerarem, contando com uma crew compacta de 15 músicos.
Mais do que se admirar com ”Black Lake”, ”Family” e ”Notget”, o lance com essa amostra sonora é aproveitar toda a audácia de um projeto que nasceu da forma mais orgânica possível e que foi dado para nós como um livro aberto.
Exalando sinceridade e passo a passo com ”Atom Dance”, ”Mouth Mantra” e ”Quicksand” até fim da cronologia do encerramento, que para essa genial senhora significará mais músicas, novas descobertas e uma tour que passe por nosso país, afinal de contas 2007 já passou faz tempo. Grande disco, sincero como sempre, muito bom e ainda assim transgressor como Björk, a versão psicodélica do Yanni.
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