Após 4 anos de hiato a californiana Groundation renova a chama da sua sonoridade com seu novo álbum, “Candle Burning”.

A Groundation é daquelas bandas que você não pode ver a foto dos integrantes juntos antes de ouvir o som. Se você faz isso, provavelmente até desiste de botar o disco pra girar. Fica difícil — quase impossível — olhar uma foto dos integrantes da banda e não inferir imediatamente se tratar de uma reunião de um povo “good vibes”, “tilêlê da montanha”, “neo-hippie branco de classe média” que acredita estar lutando pelo “bem mundial” vivendo num mato gourmetizado, só com a mesada dos pais.
Passei anos ouvindo Groundation acreditando piamente se tratar de uma banda jamaicana cujos componentes eram todos negros. O acesso irrestrito à internet, ali pelo final da primeira década dos anos 2000, foi o que me chamou à realidade e jogou meu queixo no chão.
A Groundation, desde 2018, quando lançou o álbum The Next Generation, conta com uma formação mais diversificada. Embora seja uma nova geração da banda californiana, sua liderança ainda está nas mãos de Harrison Stafford — o guia da banda, aquele que é a cara da Groundation e mantém viva a marca visual do “goodvibration tilêlê montanheiro”.
Desde 2022, quando lançaram o álbum One Rock, a banda trabalhava monasticamente para o lançamento de Candle Burning, que veio ao mundo neste primeiro semestre de 2025. A banda renova a identidade que a consagrou, trazendo à tona, mais uma vez, a combinação de reggae, jazz e dub.
A fidelidade à sonoridade característica da banda vem associada à gravação analógica, para garantir um som mais vivo e tocante. Outro ponto marcante em Candle Burning é a liberdade musical dada aos músicos, que imprimem suas particularidades às faixas por meio da improvisação, conferindo ao álbum um caráter espontâneo e fluido.
O disco destaca-se por sua crítica social incisiva, como na faixa “Fossil Fuels”, uma denúncia à exploração desenfreada dos recursos naturais e à hipocrisia das políticas energéticas atuais. Musicalmente, Candle Burning apresenta arranjos complexos e harmonias vocais envolventes, sustentadas por uma seção rítmica sólida e uma seção de metais que remete, muitas vezes, ao jazz clássico.
Gravado no Prairie Sun Studio, na Califórnia, o álbum mantém a tradição do Groundation de utilizar equipamentos analógicos, conferindo uma sonoridade quente e orgânica às faixas. A produção cuidadosa e a performance energética dos músicos resultam em uma obra coesa, que honra as raízes do reggae enquanto explora novas possibilidades sonoras.
Candle Burning não apenas marca o retorno triunfante do Groundation, mas também reforça seu compromisso com a música como instrumento de consciência e transformação social. É um convite à escuta atenta e à reflexão sobre os desafios contemporâneos, embalado por uma trilha sonora rica e inspiradora.
Carlim
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