O EP Subversivo traz feats internacionais, Galf AC reafirmando a parceira e Gil Daltro & Giallo Point inclementes com os colaboradores!
A preparação de um artista é construída entre o domínio técnico dos meios nos quais ele atua e uma vivência que constrói o recheio do trabalho que este apresenta. Não é exagero algum dizer que quando se trata de rap/cultura hip hop, o oganpazan vem acompanhando a trajetória de Gil Daltro desde quando ele fazia parte da Fraternidade Maus Elementos. Mas aí é que tá. O MC baiano que acaba de lançar o EP “Subversivo” com produção do inglês Giallo Point possui uma caminhada que muito ultrapassa o que o nosso site pode até então visibilizar e analisar.
Seja por sua formação “esquerdopata” em Ciências Sociais pela UFBA, seja por sua atuação junto ao sindicalismo nos Correios do Brasil, ou ainda por todo o seu rolê no hardcore baiano nós só podemos intuir como esse subversivo vem se formando. Mas alguns fatos são inegaveis. O primeiro deles é que esse seu novo EP nos apresenta um trabalho muito bem executado em todos os níveis. O segundo é que Gil vem a cada novo trampo nos apresentando trabalhos, flow, versos, melhor e mais bem elaborados.
Se pensarmos por exemplo em Narrando a Era da Psicose (2018), seu primeiro trabalho cheio, aqui Dudu ganha pontos, mas o Gil perde. Exatamente porque lançou um trampo extremamente pesado e necessário sem a devida preparação. É algo comum no underground: vou soltar e foda-se. Porém, muitas vezes esquecem que trabalhos precisam de preparação para alcançar o público, a mídia e consequentemente construirem um território de “audiência”. É a onda da semeadura….
De lá pra cá, e esperamos realmente que vocês escutem esse trampo, Gil Daltro seguiu no rap com trabalhos muito sólidos junto ao seu parceiro Galf AC. O projeto Vapor presumo eu, serviu como território de experimentação musical e aprofundamento de vínculos com a cultura, e segue. Essa parceria, serviu-lhe também para aprofundar nas técnicas de gravação e nas produção de beat, sim Gil Daltro também é beatmaker. São quase 4 anos que separam seus trampos solos e o resultado desse espaço e esses breves relatos de movimentações na música, nos mostram que junto a outras vivências e conhecimentos adquiridos, o resultado não poderia ser outro: “Subversão”!
Em cima de cinco beats nervosos do produtor inglês Giallo Point, o que recebemos é um trabalho pleno da mais pura substância daquilo que lhe nomeia. É interessante notar que primeiro Galf e agora Gil Daltro conseguem cada qual ao seu modo modular essas produções em um intercâmbio revolucionário inclusive pra lascar o eixo em banda, indo diretamente ao exterior. Enrabar o sistema – esse mesmo que é machista, heteronormativo, patriarcal e racista – é algo constante nessas produções feitas pelo lado de cá, e como são incapazes de sentir prazer por outras vias eles apenas fecham os olhos e rangem os dentes.
Se o filho dessa relação ainda é desconhecido, por outro lado os personagens que seguem mantendo esse sistema escroto de extermínio, já possuem o seu destino na abertura do EP. Jacobinamente, “Guilhotina” é o destino não apenas simbólico ao qual Gil Daltro pretende mandar os neo-nacionalistas, nazipardos, milicianos, bolsominions e burgueses de todas as esferas que assolam o nosso país nos últimos anos. se você não se encontra nese espectro e não é namastê que termina sendo alemão do emsmo jeito, assisti o audiovisual dessa faixa que saiu ainda no finzinho do ano passado é uma lufada de ar diante de tanto discurso integracionista!
O clipe que teve a produção da Pitaguary Filmes nos apresenta uma forma bacana de fabular o nosso rolê pelas ruas caçando fascista. Nesta “Era da Psicose” é fundamental não perder a lucidez e buscar entender que vivemos já numa distopia, segunda faixa do EP e que traz o supracitado parceiro do MC e produtor, Galf AC, a música navega entre a verdade das linhas e uma contraposição foda com o sample que Giallo colocou de sacanagem no meio…
A terceira faixa apresenta Gil Daltro nos colocando dentro de sua subjetividade numa egotrip preenchida de desejos pessoais pras nos mostrar que comunista de iphone por exemplo é apenas um termo estúpido de quem não sabe o que fala. “Dona Flor” é esse momento mais introspectivo mas que não deixa de nos ser – ouvintes – uma faixa que dialoga com questões coletivas. Sobretudo por se tratar de no fundo no fundo, abordar a “vida” de um MC que também é um trabalhor.
O intercâmbio com artistas internacionais é fenomenal não apenas pela qualidade agregada, mas porque coloca certas questões em perspectiva, como por exemplo a percepção estúpuda de muitos quanto a relevância artistas do boombap atualmente. O monstrão Napoleon da Legend é o feat gringo em Pandora Papers e o francês loko, um dos mais produtivos MC’s do mundo bagaça, com Gil pau a pau na troca de flows, ideias e sentimentos.
A rua se conhece em qualquer lugar!
Menos no Brasil onde um trampo desse vulto passa batido por 90% do público que diga-se de passagem também não é rua, assim como das mídias que se comportam como público e não pesquisam. E neste sentido a última faixa exemplifica bem o que esse trampo traz: “Registro Raro” que tem Galf AC, Che Uno e Lord Juco nos feats. A união de MC’s das américas do norte e do sul apresentando uma faixa que de modo muito orgânico propoem revolução, através da união do underground de várias paragens, Brasil, Canadá e Argentina!
O EP Subversivo é talvez o ponto de virada na arte de Gil Daltro que com Giallo Point entregam um potente trabalho em todos os termos. Conceito, audiovisual, participações, mix e master, produção, tudo está em um lugar muito único e sobretudo numa postura altiva que dispensa babação de ovo e hype, ou seja, consciente de si, de sua arte e do que quer e pode alcançar. Gil Daltro nos entrega assim um manual “Subversivo” para o século XXI.
Ouça o podcast do Bocada forte com Gil Daltro: clicando aqui
-Gil Daltro & Giallo Point lançam o manual do “Subversivo” no século XXI
Por Danilo Cruz
https://open.spotify.com/album/0BqqMMHKCU5ilFdvFO3guo?si=GchpKLWFSPWWivJV4TVOAA
Danilo
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