Georgia Anne Muldrow ou por que o Groove não sai de moda, um show impressionante, onde a cantora norte americana segue na resistência soul !
A Georgia Anne Muldrow é uma artista rara. Dona de uma voz que consegue colocar o Hip-Hop e o Jazz pra conversar no mesmo contexto, a cantora ainda cria seus próprios beats, chefia a produção, toca, escreve… A norte americana é dona de uma musicalidade exuberante e que compreende quase 15 anos de carreira, sempre transcendendo referências estéticas em busca do groove.
Com um reconhecimento – tanto nacional quanto internacional – ainda aquém de seu talento, Georgia é considerada uma das artistas mais inventivas de sua geração. Sempre promovendo misturas sonoras que englobam desde o universo do Funk até a música experimental, a multi instrumentista natural da Califórnia segue levando sua arte interdisciplinar aos palcos do mundo todo.
E apesar da “demora”, ela finalmente passou pelo Brasil, como uma das atrações do Nublu Jazz Festival, que chegou a sua nona edição em 2019, sempre tremendo as estruturas do icônico palco do SESC Pompéia.
Line Up:
Georgia Anne Muldrow (vocal)
Justin Brown (bateria)
Jaime Woods (vocal)
Josh Hari (baixo)
Chad Selph (sintetizadores)
Maya Kronfield (teclados)
Dudley Perkins (vocal)
Com uma bandaça de 7 peças, Georgia veio com um instrumental primoroso. Em sua primeira passagem pelo país, ela mostrou o motivo pelo qual é uma das mulheres mais admiradas na cena. É de fato um grande prazer observar como além de uma grande artista, Georgia é também uma figura importante no protagonismo feminino, principalmente no que diz respeito em se libertar dos moldes retrógrados da indústria.
Admirada por nomes como Erykah Badu, Madlib e Mos Deaf, em 2008 ela fundou a gravadora SomeOthaShip com seu marido – o também cantor Dudley Perkins (Declaime) – que inclusive fez uma participação durante o showzaço de quase duas horas que foi realizado na comedoria do SESC.
Com um repertório que cumpriu a difícil tarefa de sintetizar toda sua contribuição para o mundo do som, Georgia promoveu um sinuoso passeio por sua discografia e desconstruiu os próprios mitos que ela mesma criou.
A Ms. One, também conhecida como Pattie Blingh & The Akebulan 5, Jyoti e dezenas de outros heterônimos, também relembrou seu disco mais recente – o elogiado “Overload”, lançado em 2018 – liberado via Brainfeeder, o selo do seu amigo e colaborador Flying Lotus.
Mas a maior surpresa do show, além de seu rico repertório, que teve desde baladas como “These Are The Things I Really Love About You”, até grooves de rachar o assoalho, como “Sermonette”, foi a performance do baterista Justin Brown.
Não teve pra ninguém… A dupla de backing vocals de Georgia bem que tentou. O duo de teclas protagonizado pela Wurlitzer envenenado de Maya Kronfield e as chapantes texturas de sintetizador de Chad Selph, também, mas não teve jeito, quem roubou a cena foi o Justin Brown.
Baterista dos mais requisitados na cena de Jazz, Soul e R&B, o também americano já é conhecido do público brasileiro. Quem curte Thundercat já viu o cidadão malhando os kits por duas oportunidades, isso sem contar o fantástico trabalho que ele fez na banda do excelente trompetista Ambrose Akinmusire, além de ter trabalhado com a Esperanza Spalding, Flying Lotus e tantos outros.
É notável como seu compacto kit era o termômetro do som. Ele regia a banda, conversando e rachando o bico com os músicos entre as faixas – ou durante também – sempre demonstrando um controle absoluto de seu instrumento, tanto em termos técnicos, quanto em termos de dinâmica, sempre prezando pela sutileza, mesmo com seu estilo agressivo.
Foi interessante reparar como seu modo de tocar mudou, se comparado à abordagem utilizada na banda de Thundercat. Com a Georgia, Justin se manteve focado em manter o balanço do Funk pulsando, sempre com muita propriedade, variando o peso com uma facilidade absurda e trampando com um jogo de pratos repleto de timbres muito interessantes.
Foi um show excelente e conforme o espetáculo se encaminhava para o final, a Georgia abriu espaço até para o Justin mandar uns sons do seu projeto em carreira solo. Intitulado “Nyeusi”, o disco e o projeto representam um dos melhores trabalhos Jazzísticos que saíram não só ano passado, mas sim num longo tempo e o público brasuca conseguiu ter uma ideia das visões que Justin arquitetou quando a banda tocou “Fyfo”, uma das composições do excelente disco que saiu em junho de 2018.
Mais do que trazer uma das maiores expoentes da cultura negra contemporânea, o maior serviço que Nublu Jazz Festival presta ao público não é apenas o festival em si – com seu estonteante show de luzes ou a excelente curadoria – mas sim o ato de tentar mostrar, mesmo num país como o nosso – onde a cultura vale tanto quanto um saco de amendoim torrado – como a arte liberta, seja por meio do Jazz, do Funk ou do Groove da Georgia.
Isso sim é resistência. Em 2020 o rolê vai comemorar 10 anos na batalha.
Set List:
“Optimus Prime”
“Jina Langa Ni Afrika (My Name Is Afrika)”
“Boom”
“Sermonette”
“Roses”
“Run This Down”
“Flowers”
“These Are The Things I Really Love About You”
“Language Of The Flame”
“IG Flame”
“Fyfo”
“Patience”
“In Love Again”
“CIAO”
Todas as fotos que ilustram essa matéria são de autoria de Guilherme Espir.
Sobre o Autor:
Guilherme Espir segue imerso no groove – o tempo todo – a missão é sempre extrair visões derretidas do som, com o objetivo de apresentar cozinhas diferentes para ouvidos em busca de novas experiências sinestésicas.
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