Galf AC x Relvi x Traumatopia e a Guerra Que os Heróis Não Sabem: Underground!

Nas trincheiras do underground, munidos de rimas e batidas, Galf AC, Relvi e Traumatopia lançam projeto com disco e clipes. 

Galf AC

Lançado pela tríade formada pelos MCs Galf AC e Relvi junto ao produtor e DJ Traumatopia, o EP A Guerra Que os Heróis não Sabem (2023) estabelece-se dentro do game como um dos projetos mais interessantes do ano. Fruto do start de altíssimo nível que foi o projeto Anti-Lock, onde este trio esteve fortemente presente, este novo trabalho vem consolidando uma forma de trabalhar e um método de produção que infelizmente ainda passa fora do radar de muitas pessoas. 

O ano de 2023 segue rumo ao fim, já tendo se passado da sua metade e no entanto grandes projetos não param de pipocar por todo o país. Sejam por nomes já conhecidos nacionalmente ou por todos os outros que lutam cotidianamente por espaço e seguem aos poucos firmando alianças e abrindo espaços. Por entre as teias da indústria e de um público subjetivamente escravo dos algoritmos.

A ponte estabelecida entre Salvador e Curitiba com as movimentações de Galf AC junto a Traumatopia e Relvi é uma das fortes amostragens do que é possível dentro do underground nacional, que tem construído a estética do drumless, do boombap sujo contemporâneo aos ouvidos e mentes mais inquietos. Para todos e todas que não compram a ideia de heróis e vilões, de estrelas e de fracassados, trabalhos como este A Guerra que os Heróis Não Sabem (2023) lançado em 15 de junho deste ano, é um bálsamo.  

“As rimas e batidas que escorrem das almas ensanguentadas de vivências”

Um dos produtores que mais nos tem instigado nos últimos tempos, Traumatopia selecionou um sample para a primeira faixa do EP, que é uma composição do Vital Farias na linda voz da grande Amelinha. A música que versa sobre o amor e a necessidade de controle das paixões, não poderia ser melhor para abrir esse trabalho. O produtor, beatmaker e DJ é a espinha dorsal deste novo play seja pela forte identidade das batidas, loops e samples, seja pelos riscos insanos e atemporais que o artista promove ao longo das faixas. 

Galf AC A dupla matadora formada por Galf AC e Relvi, abrem os trabalhos nessa pegada, transbordando os versos de modo elaborado a partir de suas almas ensanguentadas de vivências que contornam de modo subversivo o star system. Relvi que prolonga aqui o seu trabalho lançado neste primeiro semestre: Cinza com Azul Mesclado (2023) em parceria com Traumatopia e com participação de Galf AC, estabelece suas punchlines entre braggadocios e preciosas imagens poéticas arrancadas da sujeira e elevadas à condição de obras de arte.

O baiano Galf AC que este ano já tinha soltado World Pack Money (2023) junto a Sumani Beats, tem produzido como pouquíssimas pessoas do cenário atual quando se trata do binômio “qualidade e quantidade”. O MC da Belamita é daqueles poeta das ruas que como um verdadeiro urbanista do verso, consegue variar as formas mantendo a força da substância de suas rimas intactas, as lutas para se manter de pé no cenário underground, o contexto caótico e as belezas das nossas quebradas (como na Cidade Baixa, sua quebrada), a elegia ao trabalho honesto e a harmonia espiritual, são pesadas em sua balança e ofertada ao ouvinte não como versos justos, mas justamente como versos!

O EP que conta com 7 faixas, trabalha dentro de uma perspectiva onde as barras são tematizadas dentro do escopo proposto pelo título. A segunda faixa Mestres da Sobrevivência, com um beat hipnoticamente soturno do Traumatopia, apresenta liricamente a luta para se manter em meio a um mundo onde a ignorância anda lado a lado com a hipocrisia. Galf e Relvi jogam no modo hard abrindo a caixa de ferramenta contra esse estado de coisas. 

“Rap como terapia senso clínico nas letras”

Os delírios artísticos, sonoros e líricos, as imagens poéticas, as ambiências e rítmicas, os flows se unem neste triangulação artística de modo a fazer emergir do underground do rap nacional outras perspectivas onde a cultura hip-hop é honrada como deve ser. A capa do trabalho, que é fruto da arte de Mattenie – um dos Anti-Lock, apresenta imagens em montagem de circunstâncias históricas reais, de gangueragem, do contexto das favelas e do crime. 

Baseando-se em fatos e vivências reais, o álbum vai caminhando violentamente ao denunciar as violências e ideias subversivas do trio. Na faixa homônima, terceira música do trabalho, um dos pontos altos do trabalho, Traumatopia dá uma aula de Djing, riscando na ponte entre os MCs e soltando samples clássicos do rap nacional, se portando como guerreiros diante de um estado e um sistema econômico opressor, a tríade passa o “Maçarico” nos raps de plástico descolados da realidade.

Lançado como primeiro single antes do disco ganhar as ruas, a faixa “Seguindo a Saga” ganhou um videoclipe com uma estética muito própria, sujona e bastante adequada ao trabalho como um todo. Contando com a direção do Rafão VM, os três artistas são focalizados no vídeo, em planos frontais e fechados, contra uma parede onde rimam. Semioticamente, nos mostra o quanto essa forma de arte segue emparedada, com as sombras ao redor, e no entanto seguem gingando e buscando causar as fissuras necessárias para destruir os muros. 

Segue a saga daqueles que fazem a sua arte para lavar a alma e injetar nas mentes a prudência e um pensamento revolucionário o suficiente para que se saiba a hora de agir, e o golpe certo a ser desferido. Sem traço de ressentimentos, histórias tristes apelando a falácias de apelo à piedade, o trio segue sem “Lamúrias”, um drumless pesado onde a dupla de MCs cospem rimas como a saliva de dragões de Komodo, em um nível capaz de derreter as malhas mentais que restringem a expansão de consciência necessária para entendermos a conjuntura nacional e mundial. 

O disco se encerra com a faixa “Sedan” que acaba de ganhar mais um audiovisual, mais um da lavra do Rafão VM e que dessa vez vai em outra direção estética. Em um tempo onde a velocidade tende cada vez mais a ser um elemento de controle e a diminuição e aridez do próprio mundo, o diretor do clipe apresenta as imagens dos três artistas capturados pelas ruas de Curitiba em slowmotion.

Uma música com um beat swingado, que Traumatopia cozinhou com esmero, traz Galf AC abrindo os trabalhos nos versos enquanto Relvi se encaminha em sua direção. E aqui vale um apontamento muito interessante tanto para a música quanto para a trajetória do artista baiano. Há 8 anos, o poeta rimava: “Piso mermo nego, os pneu faz eco, direto e reto, capoto mas não breco”, em na faixa “Blitz”, uma das mais insanas da mixtape Rádio UGangue Vol. 2

Em Sedan, Galf AC dentro de um ética da relação com a velocidade do mundo e com a sua própria arte e companheiros, segue entendendo a importância da ultrapassagem porém, acrescenta aqui a prudência como medida valorativa em relação a si e ao outro. que será a substância de todo o seu verso na canção. “Velocidade, ultrapassagem na corrida louca, só não se esquece da estratégia de frear na curva”. Talvez esse cotejamento entre duas faixas e dois momentos aparentemente distantes, não faça sentido para os mais desatentos, mas aqui podemos ver a poesia fruto real da vivência de um artista que sangra suas vivências em forma de arte!

Tendo pego a carona com Relvi, o MC curitibano desfia a força e a artesania com que constrói seus versos, se afastando dos MCs fast-food e nos entregando uma refeição completa, muito bem temperada e preparada com o carinho dos bons cozinheiros. Dosando a acidez dos versos e enquadrando como um bom diretor de cinema as imagens poéticas em uma narrativa muito própria. Até o encontro com Traumatopia, que tranquilamente espera a dupla. 

O clipe se encerra com o trio observando o jogo sujo que estava ao longo de toda a música de rolê no porta malas do sedan. A citação de Relvi do Tarantino é transposta para a tela pelo Rafão VM como na clássica cena onde a dupla composta por John Travolta e Samuel L. Jackson abrem a maleta no filme Pulp Fiction. Porém, desta vez não há o brilho dourado e sim o olhar sério e a indiferença diante do que é falso, fake, de plástico, opressor ou rendido, no cenário atual do rap game ou da vida de modo geral. 

-Galf AC x Relvi x Traumatopia e a Guerra Que os Heróis Não Sabem: Underground!

Por Danilo Cruz

 

Articles You Might Like

Share This Article