A Funmilayo vai muito além do afrobeat, a postura adotada e manifestada através de sua música coloca a banda na linha de frente na luta contra o machismo e o racismo.
Funmilayo, nome da banda de afrobeat paulistana formada exclusivamente por mulheres negras, reverencia a figura combativa de Funmilayo Kuti. Professora e ativista dos direitos das mulheres, nascida em Abeokuta, Nigéria, participou ativamente da vida politica de seu país num período ditatorial sangrento, responsável por reprimir violentamente a população daquele país.
O nome Fnmilayo, portanto, está carregado de simbolismo ligado ao empoderamento, representando a luta das mulheres negras mundo afora contra a repressão a elas imposta através de práticas racistas e machistas. A criação das integrantes da Funmilayo de uma orquestra de afrobeat composta por mulheres negras é um ato político de empoderamento, demarcando sua posição em uma cena musical ocupada de modo esmagador por homens.
O sobrenome Kuti e a palavra afrobeat na mesma frase remetem de imediato a figura de Fela Kuti, criador desse gênero musical. Fela, também conhecido por seu posicionamento politico, atuando contra o colonialismo, contrário ao regime sangrento que corroeu a Nigéria ao longo dos anos 70, teve sua formação política graças à sua mãe, de quem falamos no parágrafo anterior, Funmilayo Kuti. Fela fez do afrobeat um instrumento de combate à repressão de governos autoritários contra os nigerianos. Sua mãe teve influência decisiva no direcionamento político que Fela deu a sua música.
Muitos de vocês, assim como eu, devem estar surpresos ao saber que a mãe de Fela Kuti tem tamanha importância para a luta pelos direitos das mulheres negras na Nigéria e por todo mundo. Essa informação chegou a mim ao pesquisar sobre o nome da banda.
Isso revela a pouca importância que se dá a história do feminismo, em particular ao feminismo negro, graças a força estrutural do machismo e do racismo ainda latente atualmente. Porém, o fortalecimento da luta contra esses dispositivos hegemônicos do machismo e do racismo, além de revelar a existência destes, mostra haver movimentos contrários, responsáveis por gerar zonas e instrumentos de resistência que promovem uma resistência mais forte, podemos até dizer consolidada.
Nesse sentido a reunião de onze mulheres negras para formar uma orquestra de afrobeat representa esse movimento de resistência do feminismo negro, que leva à conscientização através da divulgação da luta de Funmilayo Kuti, que deve ser lembrada pela sua luta, pelo seu pensamento e ações que ajudaram a gerar movimentos ao redor do mundo de empoderamento da mulher negra. Ser mãe de Fela Kuti é apenas um dado dentro da sua biografia. Porém, na biografia do filho, ela é determinante, pois teve participação decisiva na formação da personalidade de Fela.
Devemos reconhecer a participação de Funmilayo Kuti na criação do afrobeat, uma vez que seu filho concebe o gênero musical para além da música, tendo o fundamentado na práxis política, herdada da vivência com sua mãe. A inspiração da Funmilayo Afrobeat Orquestra vem do encontro entre o pensamento político de Funmilayo Kuti e a música de Fela Kuti. As componentes da Funmilayo tem histórias de vidas diversas, contudo há em comum o reconhecimento de pertencimento a um campo político, social e cultural comum, bem urdido conceitualmente através da ativista que tem seu nome reverenciado pela banda.
Esse gesto não é gratuito, ele desloca o foco de Fela para Funmilayo. Nesse sentido o fundamento da banda não está exclusivamente no afrobeat, mas no engajamento político de caráter feminista e anti racista. A música se apresenta como suporte através do qual as ações políticas se manifestam. Sua música se torna um instrumento de conscientização e propagação de ideias cuja finalidade consiste em desconstruir tanto o machismo quanto o racismo presente nas raízes culturais, sociais e políticas constituintes da realidade brasileira.
Não por acaso o primeiro single da banda, Negração, lançado em 2019, no Dia da Consciência Negra, evoca a figura de Marielle Franco para reforçar o tom empoderador da banda. Trata-se de um rito de luta, entoado a fim de aquecer o sangue para a guerra. A letra inflama os espíritos de guerreiras invocando a presença de Marielle, escudo e espada na luta contra o flagelo imposto aos oprimidos e oprimidas, cujo viver lhes é retirado, sendo oferecido apenas o sobreviver.
“a cada grito de ódio que mente, vai ecoar Marielle presente”
Os versos que se seguem revelam o empoderamento alcançado através do conhecimento, que permitiu a descolonização das mentes, a insubmissão a uma moral religiosa que através da imagem da cruz, impõem sobre a mulher o jugo da subserviência ao homem e a negação dos seus desejos. Alcançada a consciência de que o corpo de cada mulher é um território cujas fronteiras são estabelecidas por cada uma dela. Essa lucidez permite realizar ações que alteram a realidade e forçam o recuo das fileiras inimigas. São movimentos rápidos e certeiros, que atingem o alvo através de ritmos, melodias; sons hipnotizantes que acionam sentimentos e emoções. Isso é Funmilayo!
“tirem seus rosários dos nossos ovários / nosso corpo é território livre / nossa mente descolonizou / mirei no seu peito e você nem viu / mais ligeira que bala de fuzil / é a semente que brota do amor / é Funmilayo!”
As onze integrantes da Funmilayo Afrobeat Orquestra são Stela Nesrine (saxofone alto e vocais), Larissa Oliveira (trompete), Sthe Araújo (percussão), AfroJu Rodrigues (percussão), Ana Goes (saxofone tenor e vocais), Suka Figueiredo (saxofone barítono), Bruna Duarte (baixo), Priscila Hilário (bateria), Jasper (guitarra e vocais), Tamiris Silveira (teclado) e Rosa Couto (vocais).
Abaixo, de forma mais detalhada, os perfis das integrantes da Funmilayo. Basta clicar nas imagens para conhecer melhor cada uma delas. Retiramos as imagens e demais informações do perfil da banda no facebook.
Carlim
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