O violonista e compositor mineiro Felipe Bedetti lançou no início de 2022 o seu segundo álbum, Afluentes, mostrando que sua música está em constante transformação.
Felipe Bedetti, um compositor nômade

Em 2018 Felipe Bedetti lançou seu álbum de estreia, Solo Mineiro. Nome apropriado para o que o jovem compositor entrega no conjunto de músicas que o compõem. Ouvindo cada uma delas somos transportados para as vivências próprias do interior de Minas, donde vem Bedetti, natural da pequena cidade de Abre Campo.
Na cidade natal, ainda na adolescência, compôs suas primeiras canções e são elas a matéria prima de Solo Mineiro. Então, um álbum que retrata a fase inicial do trabalho de Bedetti, que podemos ver em Afluentes, trata-se de um compositor em constante transformação.
Embora seja ligado à sua terra ao ponto desta ligação se expressar organicamente em suas músicas, Bedetti em seu processo de criação e absorção de novas referências musicais não tem nada de sedentário. Pelo contrário, Bedetti é um nômade.
Não espera as coisas acontecerem, ou seja, não se pauta no mito do artista genial perdido nos grotões e nas quebradas, que por obra do acaso é visto por um “padrinho” visionário que percebe seu talento e o “descobre”, para então revelá-lo ao mundo.
Bedetti não sofre da incurável síndrome do artista genial incompreendido, cujo fracasso é causado pelo fato de ser tão genial para seu tempo, e para sua localidade, que é incapaz de ter sua genialidade compreendida pelo reles mortais desprovidos da sensibilidade e inteligências necessárias para reconhecê-la.
Desde a adolescência Bedetti sai pelas cidades do interior de Minas com seu equipamento, apenas o necessário para tocar nos estabelecimentos dispostos a ceder-lhe espaço para se apresentar. Viajando em busões e se hospedando em pequenos hotéis, construiu sua vivência artística indo atrás dos lugares onde pudesse se apresentar e das pessoas interessadas em ouvir a sua música.
Essa postura nômade do Bedetti, permitiu que ele construísse um público orgânico. Saiu dos lugar comum, os barzinhos. Locais dominados por um espécime nocivo aos músicos, mas que tem nos “barzinhos top” da cidade seu refúgio. Estou me referindo aos “janteiros”, esse típico classe média de cidade do interior que frequenta barzinhos para se empanturrar de pizza e coca cola, cuja música é um elemento secundário, que deve ser o pano de fundo do seu rolê familiar. Certamente, Felipe Bedetti não queria fazer o mesmo que uma jukebox faz.
Sua disposição nômade diante do mundo o levou a conhecer pessoas, que o influenciaram, que o ajudaram e reconheceram nele a potência criadora de um verdadeiro compositor. Um expoente de uma música que para o grande público parecia datada, destinada a desaparecer devido ao desinteresse das novas gerações em revigorá-la.
As andanças do nômade Bedetti gerou conexões entre diferentes regiões de Minas Gerais, mas também de São Paulo e outros estados do Brasil. Nesse sentido, a música de Bedetti é uma música agregadora, porque a disposição do compositor com o mundo que o cerca é de agregar.
Os “afluentes” musicais de Afluentes

Isso vemos no seu novo álbum, devidamente batizado de Afluentes. O título do álbum aviva a imagem dos rios menores, dos córregos e outros feixes de água correndo em direção ao rio maior, formando sua densidade e pujança.
Este álbum é o rio para o qual correm as referências musicais encontradas por Bedetti em suas “expedições”, são as pessoas que colaboraram neste álbum, porque como um bom nômade, Bedetti está sempre viajando com uma caravana. Sua música é uma construção coletiva, não uma concentração absoluta em torno de um ego que se acredita auto suficiente.
Não à toa a lista de participantes de Afluentes é extensa e pesada. Entre os nomes que fizeram parte deste trabalho de Bedetti estão Dani Lasalvia, Bárbara Barcelo, Tadeu Franco e o lendário guitarrista Toninho Horta. Aliás, Toninho Horta e Tadeu Franco influenciaram diretamente Bedetti na construção da sonoridade deste álbum.
Ainda no fortalecimento da concepção coletiva de construção da identidade sonora da música bedettiana, devemos lembrar da banda formada para a gravação do álbum: Beto Lopes na guitarra e trompete, Fernando Sodré na viola caipira, Alexandre Andrés na flauta e Pedro Volta no piano.
Esse movimento constante de Bedetti e a constância da participação coletiva na construção de suas música, faz com que haja transformação nas suas produções. Podemos ver isso claramente caso façamos a experiência de ouvir um álbum após o outro.
Entre 2018 e 2022 sua música mudou e incorporou novos elementos, novas ideias, resultado das novas vivências e agenciamentos feitos entre diferentes parcerias estabelecidas. Os encontros das diferentes afluentes ao longo destes 4 anos entre o lançamento de um e outro álbum.
Uma música em constante transformação

A sonoridade mineira está presente, contudo se expressa por arranjos que privilegiam uma linguagem jazzística moderna, porém, sem se afastar demais do referencial sonoro popular interiorano. O exemplo mais característico a meu ver, está na faixa 3, Luzeiro, lançada previamente no formato single, dando ao público um gostinho do que encontraria no álbum cheio.
Temos aí a presença de uma levada bossanovística em progressões dissonantes que dão a sensação da atmosfera própria da noite urbana. Contudo, tendo na melodia vocal de Bedetti a presença incipiente da dicção interiorana, da roça, criando um contraste que gera a sensação de se estar diante de algo original.
No lançamento do single Bedetti deixou claro o que Afluentes ofereceria ao público um álbum que revelaria um ponto de vista de um compositor amadurecido. Outro ponto a se destacar nas faixas está na atenção direcionada à voz, sempre volumosa, limpa e centralizada no arranjo, fazendo com que todos os outros elementos funcionem a partir dela.
Lembrou-me bastante o estilo de Dorival Caymmi, guardadas as devidas proporções. Felipe Bedetti aparece em contornos de trovador interiorano. Isso aparece expressivamente em Gavião de Penacho. Esta música tem arranjos que lhe dão uma aura resultante do encontro com o erudito e o popular. Enquanto Contos da Mata rende homenagem à natureza e a vida que transcorre por ela, ressaltada pelas características comportamentais dos pássaros que dela fazem parte.
A concepção artística de Afluentes se mostra de forma clara. Fica evidente a sensibilidade de Bedetti e das pessoas envolvidas no processo de composição dos arranjos. Este trabalho rendeu a cada música sua identidade própria, permitindo ao ouvinte uma experiência plural no decorrer da audição.
Carlim
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