Caso nos demos ao trabalho de analisar a história do rock´n roll, não poderemos nos contentar em ter os anos 50 como marco de seu início e tão pouco considerar músicos como Bill Harley, Elvis Presley e Chuck Berry (apenas para citar alguns) como seus genitores. Será preciso regredir um pouco mais e chegar ao blues.
Quem nos dá essa dica não é ninguém menos que o bluesman Willie Dixon, responsável por compôr os mais famosos blues da história como Back Door Man, Little Red Rooster e I´m Hoccie Kochie Man, gravadas à exaustão por quase todos os bluesmen. A dica de Dixon é dada pela seguinte frase: “O blues é a raiz de toda música americana, os outros estilos musicais são apenas ramificações dessa raiz”. Desse modo, os outros estilos americanos, no caso, o jazz, o country, o folk, o soul, o rithym and blues, o rock e o rap não apenas as partes de uma árvore cuja raiz é o blues.
Contudo, algumas dessas partes da árvore tornaram-se raiz gerando novas ramificações. Assim, o jazz criou suas ramificações, temos o Jazz Tradicional de Nova Orleans, o ragtime, o swing, o bee bop, o cool, o free jazz, o fusion até se fundir com elementos mais modernos da música como o eletrônico e o rap. O blues, entretanto, está sempre presente nessas ramificações em menor ou maior grau. O fato de ser o jazz uma música de predominância negra mantém forte a ligação com o blues, expressão máxima da alma negra norte-americana. Basta procurarmos nas biografias dos grandes músicos do jazz, e claro em sua extensa lista musical, como Charlie Parker, Miles Davis, John Coltrane e Billie Holliday para constatarmos o quanto o blues é importante para sua música.
O rock também criou suas ramificações, gerou uma infinidade de variantes, muitas delas difíceis de traçar um perfil exato que as diferencie umas das outras. Deixemos essa questão de lado. O interesse aqui é mostrar que a música norte-americana é um emaranhado de ramificações, cujo ponto de origem é o blues. Do rock primitivo dos anos 50 até o punk rock dos últimos anos da década de setenta, tudo pode remeter por um processo genealógico ao blues.
Pegue, por exemplo, os Ramones.

É sem dúvida a banda mais importante do Punk Rock, pois acabaram por levar ao extremo aquilo que representaria a estética desse movimento. Os Ramones foram os mais simples, os mais rápidos, os mais bizarros, os mais agressivos, os mais desorientados e os menos “músicos” daquela geração batizada de punks. Apesar de toda essa caracterização bastante peculiar, o som dos Ramones estava carregado de influências de ramificações posteriores do rock, como a surf music, o rockbilly e em alguns momentos da onda iê iê iê.
MC5, The New York Dolls e The Stooges estão ainda mais ligados às origens do rock e consequentemente ao blues. Basta manter-se atento aos riffs de guitarra para que se perceba a presença marcante desse estilo em suas músicas. Essas três bandas em particular deram o pontapé inicial para aquilo que seria a música punk: letras agressivas, o som sujo e de ritmo rápido. Claro, é possível voltar na história do rock e encontrar bandas cujo estilo musical era caracterizado dessa mesma forma. Para não continuarmos sem citar algumas delas: The Sonic’s, The Troggs e The Who. Contudo, o momento pertencente a MC5, The New York Dolls e The Stooges era particular, e isso os diferenciava de outras bandas que tinham uma sonoridade que de algum modo lembrava às suas próprias.
O momento ao qual pertenciam as bandas citadas acima é o momento antecessor ao surgimento dos Ramones. Johnny, Joe, Dee Dee e Tommy ouviam muito The Stooges e The New York Dools e estavam totalmente cativados por aquele som, pra dizer diretamente: pagaram um pau fodido pros caras. A decisão de formar a banda levou àquilo que seria a contribuição definitiva para o punk rock, se constituiria como a motivação para outros garotos formarem suas bandas resultando “naquilo” que viria a ser o hardcore.
Refiro-me ao fato de nenhum dos quatro garotos saber tocar qualquer tipo de instrumento musical. Chega a ser engraçado o depoimento do Tommy Ramone no documentário definitivo sobre os Ramones, End of Century, em que comenta esse fato. Segundo o baterista foi no momento em que se preparavam para realizar o primeiro ensaio da banda que decidiram quem ficaria responsável por tocar este ou aquele instrumento. Essa é a chave para compreendermos o que foi o hardcore e a única via possível para vinculá-lo às demais vertentes do rock que o precederam.
Bom, todo o movimento feito até aqui foi para chegar ao depoimento que causou a minha inquietação e que me levou a escrever este texto. Esse depoimento foi dado por Ian Mackaye, ex-vocalista da banda de hardcore de Washington D.C. Minor Threat. Ian diz no excelente documentário sobre o hardcore intitulado American Hardcore: The Story of American Punk Rock que o hardcore é um estilo musical que em nada se assemelha, musicalmente falando, com seus antepassados musicais.
Como disse, o único vínculo existente é a atitude dos Ramones de fazer música tendo somente a vontade como instrumento e motivação para querer tocar mesmo sem ter o mínimo de conhecimento musical para tanto. Quando num ensaio da banda pedem ao Dee Dee Ramone para dar um E (mi) o “baixista” solta um sorriso amarelo do tipo “que bicho é esse?”. Foi essa atitude que levou os adolescentes, muitos com idade entre 15 e 16 anos, a formarem suas bandas e produzirem um som totalmente novo. Sua ancestralidade só pode ser conhecida através de um exame de DNA.
Parecia impossível, mas acabou por tornar-se possível. O nível de velocidade Ramone no tocar foi quebrado e consequentemente levou a uma diminuição do tempo de duração das músicas. Aumentou também a agressividade dos vocais (de forma absurda) a ponto de criar uma unidade quase indissociável com a base instrumental. Os adolescentes da Califórnia criaram uma anomalia quebrando com a firme ramificação que ligava toda a música americana à sua raiz, o blues. Ouvir uma música como Gimme, Gimme, Gimme do Black Flag é uma experiência desconcertante para quem se depara pela primeira vez com a sonoridade do hardcore.
https://www.youtube.com/watch?v=NbpXwapjjRQ
Para um estudioso da música (ou da história da música) esse desconcerto é ainda maior. Provavelmente a sensação dessa pessoa é estar diante de um extraterrestre. Parece-me, como conhecedor superficial de teoria musical, impossível realizar uma análise teórica dessa música. Ela não se compõe de elementos musicais que formam a base harmônica da música compreendida em sua forma tradicional. Parece-me que, sem saber, esses meninos fizeram algo que os músicos clássicos da vanguarda erudita do século XX realizaram ao criarem com o dodecafonismo, uma escrita musical que comportasse aqueles novos sons a que haviam chegado.
Para que houvesse algum registro escrito de tais composições foi preciso criar uma notação musical baseada em doze notas, que comportavam, além do tom e semi tom, o micro tom, resultado da divisão de um semi-tom. O hardcore opera algo semelhante ao combinar de modo anacrônico os diferentes instrumentos. Não há um padrão harmônico como no blues, no jazz e no rock de modo geral que permite ao músico improvisar criando variantes melódicas do tema principal. O efeito sonoro nesse caso é bastante agradável e transmite ao ouvinte uma viagem introspectiva. O hardcore não possui base harmônica, somente a junção instintiva dos sons próprios a cada instrumento utilizado. Não há percepção de detalhes na musica, simplesmente porque não existem detalhes.
As músicas são torrentes de violência, o som uma pancada direta e aguda no cérebro. Todas essas características corroboram o depoimento de Ian Mackaye e o hardcore acaba sendo a trilha sonora de um rito tribal primitivo que nasce no auge da civilização high-tec. A expressão anômala de uma tradição musical enraizada no blues, na cultura negra norte-americana.
Para maiores detalhes sobre a história do Punk Rock e do Hardcore:
Ler: Mate-me Por Favor de Legs Macneil e Gillian Mccain. Coração Envenenado: a autobiografia de Dee Dee Ramone. COMMANDO: a autobiografia de Johny Ramone. Dead Kennedys – Fresh Fruit For Rotting Vegetables [Os Primeiros Anos] – Alex Ogg. A Arrasadora Trajetória do Furacão The New York Dolls: do Glitter ao Caos – Nina Antonia. Hey Ho Let’s Go: a História dos Ramones. A Estrada com os Ramones – Monte A. Melnick e Frank Meyer. Crescendo com os Sex Pistols: Precisa-se de Sangue Novo – Alan G. Parker e Mick O’Shea. THE BEST OF PUNK MAGAZINE
Assistir: The Story of The Ramones: End of Century. Ramones: RAW. American Hardcore: The Story of America Punk Rock. Punk Rock not Die. Botinada: A Origem do Punk no Brasil. Guidable: A Verdadeira História do Ratos de Porão.
Ouvir: Ramones, Circle Jerks, Black Flag, Minor Threat, Dead Kenneds, Bad Brains, Buzzcoks, Dead Boys, The Stooges, Iggy Pop, MC5, The New York Dools, The Sex Pistols, The Dammed, The Toy Dolls, The Clash, Husker Du, Guitar Wolf, Tiger Army, The Jinx, MinutMen, New Race, Patti Smith, 7 Seconds, Misfists, Danzing, Agent Orange, Força Macabra, Inkisição, Pé de Cabra, Mata Ratos, Garotos Podres, Ratos de Porão, Agrotóxico, Cólera, Mercenárias, Olho Seco, Replicantes, Inocentes, etc.
Carlim
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