“Estado de Espírito” resulta do encontro de três culturas musicais representadas na guitarra do paraense Manoel Cordeiro, na guitarra baiana de Roberto Barreto e na produção inspirada do pernambucano Pupillo.

Um álbum de música brasileira
“Estado de Espírito” passa a integrar a lista de álbuns instrumentais fruto do encontro de dois grande nomes da nossa música.
Entre os quais podemos citar “Dois Irmãos” de Paulo Moura e Raphael Rabello, lançado em 1992. E “Yamandu + Dominguinhos” lançado pelo violonista gaúcho e o sanfoneiro pernambucano em 2007. Isso pra ficar apenas entre estes dois exemplos.
“Estado de Espírito” nos entrega uma sonoridade limpa, brilhante e suave. Com pontos precisos de tensão, porém, não intensa o suficiente para quebrar a brisa tranquila. Em meio à trama sonora formada de beats vibrantes e linhas de baixo pulsantes, a guitarra baiana de Roberto Barreto e a guitarra de Manoel Cordeiro promovem um diálogo profundo entre si.
Diálogo este carregado dos sotaques musicais da nossa música popular. As guitarras de Roberto Barreto e Manoel Cordeiro foram gravadas separadamente. Pupillo, produtor do álbum, ficou responsável por acrescentar os beats. Profundo conhecedor dos ritmos, Pupillo tempera os diálogos entre as guitarras com beats, programações e elementos musicais, que reforçam suas peculiaridades sonoras.
Sobre sua inspiração para produzir “Estado de Espírito”, Pupillo diz o seguinte:
“Quando nos reunimos para gravar, eu tive a sensação imediata de que algo novo estava acontecendo e isso se concretizou quando Seo Manoel falou sobre fazer algo híbrido. Isso pra mim deixou a certeza de que não poderíamos fazer um disco onde cada faixa fosse uma representação do lugar onde temos nossas raízes, muito menos uma disputa de territórios…. a sensação que eu tenho é que esse disco ganhou uma perspectiva que vai além de uma representação dos estilos de cada estado…O virtuosismo aqui é o diálogo e o prazer de ouvir temas que atravessam os oceanos sem a alcunha de exóticos ou regionais”.

Interessante essa compreensão trazida por Pupillo na sua fala acima. Qual seja, a percepção de haver a possibilidade de criar um álbum construído a partir das propriedades culturais trazidas por Barreto, Cordeiro e ele mesmo.
Contudo, impedindo o lugar comum dos fáceis rótulos regionalistas usados para nomear sonoridades de pouco conhecimento do público em geral.
Nesse sentido Roberto Barreto reforça a percepção do produtor Pupillo:
“Tentar enumerar referências para falar de algo que junta elementos de diferentes estados, aqui se referindo a condição política da palavra, como Bahia, Pará e Pernambuco, é muito limitador por se tratar de lugares que são banhados de ancestralidade, espiritualidade, cultura popular, e traduzem, cada um com seu sotaque, a aventura do povo brasileiro e sua contribuição para a humanidade“.
Essa concepção estética do álbum leva-o a ser um álbum genuinamente de música instrumental brasileira. Tendo ao mesmo tempo um ar de tradição musical, nas melodias criadas e ritmos utilizados, mas apontando para o contemporâneo, para a busca do novo através dos arranjos, beats e programações utilizados.
Ouçam e viagem nas mares tranquilas de “Estado de Espírito”.
Beijo nôceis e até a próxima matéria!
Dados técnicos do álbum
Participam do álbum Alberto Continentino (cinco faixas), e mais Kassin e SekoBass nos baixos. Também tem a presença de Nilton Amorim no sax tenor, e Dougbone, que toca trombone e fez os arranjos para “Tudo Pode Acontecer”, uma das faixas mais quentes do disco.
A mixagem foi outro ponto fundamental para se chegar no sentimento necessário para traduzir esse encontro. Mario Caldato Jr., brasileiro residente nos EUA há mais de quatro décadas e que já colaborou com nomes como Beastie Boys, Jack Johnson, Marisa Monte e Nação Zumbi, trouxe sua concepção sonora e sua sensibilidade para trabalhar com espaços e camadas e dar uma assinatura única para esse disco.
“Estado de Espírito” sai pelo selo Máquina de Louco, que além dos discos do BaianaSystem já lançou também álbuns de Russo Passapusso, da Orquestra Afrosinfônica e do seu maestro Ubiratan Marques. A direção de arte e concepção visual ficou a cargo de Filipe Cartaxo, que assina também a capa.
Carlim
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