Dona Nadir Da Mussuca é uma das muitas rainhas guardiãs da nossa herança cultural negra e que recebe de Alexandra Dumas um registro bonito!!
Uma das grandes funções do cinema é criar uma memória coletiva capaz de sobrepor a produção do esquecimento e as políticas de invisibilidade. A cineasta Alexandra Dumas com seu filme Nadir da Mussuca (2015), traz a luz brilhantemente uma figura ímpar da cultura brasileira. Um senhora que traz em si a resistência ancestral dos nossos antepassados negros. Filha do quilombo da Mussuca, Dona Maria Nadir é a resistência artística encarnada, num corpo que emite música e movimento.
Nome de proa do Samba de Pareia e da Dança de São Gonçalo, Dona Nadir, nos conta um pouco de sua formação e da sua luta cotidiana pra manter essas duas belas tradições ativas. A câmera nos guia pelas localidades da Mussuca, um território Quilombola, localizado nos arredores da cidade de Laranjeiras – SE. E é ali onde a cineasta Alexandra Dumas colhe depoimentos importantes para compreendermos a gênese destas manifestações culturais. Bem como também encontramos outras tantas falas sobre a formação dos personagens e das novas gerações da cultura local.
Fruto de ampla pesquisa, com uma direção segura e um bom roteiro, Alexandra Dumas nos presenteia com um filme que cumpre uma dupla função. Nos dar a conhecer Dona Nadir e ao mesmo tempo recolher depoimentos interessantíssimos sobre a formação do Quilombo, suas fontes de subsistência, a origem do seu batismo e suas manifestações religiosas. Em pouco mais de 25 minutos, o curta metragem cartografa manifestações subjetivas, expressões artísticas e registros históricos, nos presenteando com a riqueza dos detalhes.
Uma expressão cultural que remonta – ao que parece – do século 19 e que até então não possuía registro digno em audiovisual, com acesso livre. Antes apenas o “A dança de São Gonçalo“, da década de 1970, feito pela grande pesquisadora Beatriz Góis Dantas, de difícil acesso ao grande público. Esse descaso é uma pequena amostra do quanto somos irresponsáveis como sociedade com a força da nossa cultura. Nos é impossível ao assistir o filme, não pensar em quanto já perdemos, nesse imenso país de dimensões continentais, uma perda que nos empobrece sem que nos demos conta.
A jovem diretora baiana Alexandra Dumas, a 7 anos radicada em Sergipe, consegue captar e construir gradativamente, numa edição eficiente, dando a palavra a entrevistada e objeto de seu filme, um retrato muito forte da força dessa mulher que é Nadir da Mussuca. Alguém que percutindo a terra, o mangue, o calçamento de pedra com seus pés, assenta e espalha a beleza dos nossos ancestrais. Uma rainha da cultura popular brasileira, muito mais do que uma artista. Alguém que tornou a sua própria vida, cultura, e os seus movimentos e expressões: Arte.
Assistam abaixo esse filme incrível sobre uma mulher extraordinária e aprenda, como nós aprendemos, o quanto a nossa riqueza enquanto povo está ali ao lado e muitas vezes não conseguimos enxergar!
Pesquisa, roteiro e direção: Alexandra G. Dumas
Montagem e direção de fotografia: Fabricio Jabar
Finalização e legenda: Íris Oliveira
Som: Pauly de Castro/ Som Direto
Produção executiva: Baixa Resolução Ltda
Produção: Ana Dumas, Edeise Gomes e Audevan Caiçara
Assistente de pesquisa: Edeise Gomes
Projeto gráfico do encarte: Gil Maciel
Danilo
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