Diego 157, MC e beatmaker que é um dos arquitetos da cultura Hip-Hop no elemento Rap, completa hoje 42 anos, você conhece a história?

Diego 157 é um dos arquitetos da cultura Hip-Hop na Bahia, com mais de 20 anos de produções, o Hobbit da Massaranduba possui uma obra grandiosa e que se confunde com o próprio desenvolvimento do Rap baiano no século XXI. Conhecido inclusive nacionalmente, o trabalho do MC e beatmaker reúne produções diversas entre projetos coletivos e solo, que desde os primeiros passos sempre demonstrou uma imensa qualidade e relevância.
É próprio da indústria cultural capitalista e supremacista branca brasileira produzir, por um lado, o esvaziamento de culturas pretas e periféricas e por outro, ignorância e invisibilidade, mesmo dos maiores mestres do nosso povo. Por isso, mais do que elogios e tapinhas nas costas, é preciso sempre lembrar de não esquecer o que “as areias do tempo” pretende encobrir.

O primeiro registro fonográfico de Diego 157 a que tivemos acesso foi o projeto “H.U.N. – Hip-Hop Underground Nordestino”, em um EPzinho de apenas 4 músicas mas que é um documento histórico brutal. Dito & Feito foi gravado há quase 20 anos atrás, em 2006 e o grupo era formado pela tríade Diego 157, Lord, Coscarque e DJ Poeira, é mole? De acordo com Cosca: “O grupo possuía como agregados que se identificavam com o trabalho, nomes como Baga, Betinho, Victor Haggar, Spock MC, Sinho Representativo, MC Sardinha, Man-Doin e DJ Jarrão aka DJ Jarron”.
Com beats produzidos por Cosca e Diego 157, sob a atenta “Super Visão” de Spock MC, o disco é um dos primeiros – senão o primeiro – registros de um rap com estética underground, do nosso estado. Houve um tempo, onde artistas de bairros diferentes se frequentavam e colaboravam com cenários muito próprios, por exemplo, no caso do H.U.N duas escolas fundamentais para o rap de Salvador dialogavam e produziam o futuro. São Caetano e Cidade Baixa/Subúrbio Ferroviário. Não posso deixar de pensar como esse EPzinho serviu para mostrar possibilidades e formar também, outros tantos MC’s e beatmakers que anos depois iriam formar outros tantos projetos importantes para a nossa história.

Um ano depois, em 2007 Diego 157 colabora com outro projeto que não está sequer nas plataformas de streaming mas que é também um marco desconhecido de grande parte do público: O Coletivo 071. Imagine aí jovem incauto, Daganja, Dimak, Sereno, Fall Clássico, Spock, Aladdin, Diego 157 em um mesmo projeto? Pois é, é essa a “gang” poderosa reunida no EP Todo o “Dom que Deus nos Reservou”, por uma iniciativa do grande DJ Índio que tocou e produziu os beats.
Estes dois trabalhos guardam riquezas que deveriam ser de conhecimento público, porém estamos falando de uma época onde era muito difícil divulgar trabalhos, onde o acesso a tecnologia – hoje comum – era uma batalha. Mas, não faltava qualidade inventiva. Infelizmente, esses dois registros sumiram da internet com a queda do Myspace, porém se você ainda ouve MP3 como os antigos Incas, vou deixar um link para download aqui.
Apesar do rap acontecer desde os anos 90 em Salvador, em termos fonográficos, é nos anos 2000 que se começa a moldar um modo próprio de se fazer o rap em nossa cidade e estado. Trabalhos como os dos grupos Quilombo Vivo, Júri Racional, Testemunhaz e OQuadro (Ilhéus) e a expressão nacional alcançada pelo Afrogueto, através do Prêmio Hutuz, lançaram as bases para um Rap orgulhosamente baiano e nordestino.

Em 2009, Diego 157 se junta a Spock MC e ao Man-Duin lançam o disco “A Cria Rebelde” de um dos grupos mais fodas da nossa história: “157 Nervoso”. Composto por 12 músicas, com participações de Aladdin e Léo Souza, trazia uma lírica que mesclava a ginga underground com ideias muito fortes de revolução social e denúncia política. Um disco que bate muito bem até hoje, como tudo que Diego colocou a mão, não possui data de validade.
A passagem do tempo, e a atenção diante das mudanças históricas é sempre importante para não perdermos o bonde da história e muito menos nos tornarmos engessados. Escutar 157 Nervoso é voltar para um tempo onde o rap se constituía como uma verdadeira arma de luta político racial e de classe, onde se entendia que depois da raça, e que vivíamos em uma sociedade onde a burguesia nos esmaga através de diversas tecnologias de opressão.

Em “A Cria Rebelde” o discurso é revolucionário e muito bem embasado, o trio de MC’s Diego 157, Spock e Man-Duin estavam longes de serem meros panfletários. O tempero singular baiano se deu pelas produções presentes no disco de nomes como Armeng, DJ Índio, de DJ Leandro e do próprio Diego. Muito próximos de outros grupos nordestinos como Clâ Nordestino e Gíria Vermelha, pregando morte a burguesia e o levante do povo preto, mas com identidade lírica e sonora próprias. “Enfia no cu a sua lei que nos garante liberdade, seu american way of life e a burocracia das universidades”, dá bem a visão política que permeia todo o disco.
Apesar de todo o disco possuir uma coesão estética e não existir ao longo do play momentos de baixa, a música “Ancestrais” (prod. DJ Leandro) me parece um clássico do rap nordestino. Utilizando um sample de forró, a construção desse beat é aulas demais, e obviamente é acompanhado na excelência pelo trio de MC’s. Enfim, um clássico que para a sua sorte está presente nas plataformas de streaming.
Não bastasse em pouco tempo de carreira fonográfica, Diego 157, já ter marcado seu nome no cenário que hoje é história, ele também passa, a partir de 2009 a se tornar um dos melhores beatmakers do país. Finalista de concursos de beat com nomes hoje nacionalmente conhecidos como Coyote Beats e Efieli, ganhou concurso na cidade e participou da Liga dos Beats em São Paulo em 2010.
Em 2009, o artista lançou uma mixtape: “Originais & Remixadas Vol.1” que trazia remixes de nomes do rap feito aqui no nordeste, com o clássico Inquilinus de Pernambuco, do sul com o paranaense Cabes, e de nomes como Emicida e Rodrigo Ogi. Nas palavras do Felipe Schmidt à época:
“O projeto serve até como uma ferramenta para “educar” novos fãs do rap. É que Diego, antes de apresentar sua versão, solta a original. Outro ponto legal e digno de nota é a quantidade de artistas nacionais remixados, algo que não é muito comum por aqui. Das 12 faixas do trabalho, oito são made in Brazil. Mas, em meio a percussões brasileiras e samples tranquilos, é a voz infantil apresentando a mixtape do pai logo no início a parte mais emblemática da parada. E foi só o início, o prelúdio para a criatividade que transbordaria até o último segundo da audição. Enfim, fiquem com os remixes de Diego 157.”
Após a dissolução do 157 Nervoso, Diego 157 segue com Man-Duin com o projeto Niggaz com quem lançou uma outra pedrada em 2011, mais uma das gemas que só quem é de fato conhece. Os teleguiados pelo hype, os amantes de famosos, não conhecem. “Single’s” é exatamente isso, um agrupamento de singles com participações de peso como Daganja, Eleitos, Galf AC, Victor Duarte e Spok. Vou deixar o player marotamente aqui:
Este ano, outro trabalho essencial do Diego 157, que hoje se tornou um documento histórico, é o EP “Antes da Mixtape”, que completa 10 anos agora em 2025. Certamente, é um dos discos do rap nacional que mais ouvi na vida, no ano em que foi lançado lembro de sair de Macaúbas para o Planeta dos Macacos em São Cristovão ouvindo no repeat. E ao longo dos anos não perdi esse hábito.
Porém, nunca resenhei mais profundamente esse trabalho, algo que farei daqui para o fim do ano, mas não posso deixar de apontar para o fato de que um dream team da rima participa desse disquinho. Nomes como Ravi Lobo, Galf AC, Baga, Xarope MC, Seth aka Jhomp (NPN), Brown Santana, José Macedo aka Zé Atumbi , Man-Duim e Oddish. Um EP pesado seja pelas participações, pelo próprio Diego 157 suas rimas e beats, dúvida? Dê o play:
A partir de 2015, o Oganpazan passou a registrar os trabalhos lançados por Diego 157, sejam os seus outros EP’s ou o excelente disco do coletivo Fraternidade Maus Elementos, outros tantos trabalhos que marcaram época do Rap baiano e nacional. Hoje, Diego completa 42 anos e segue como um dos pilares da nossa cultura. Esse pequeno perfil é um exercício de admiração, e um informativo para quem está de touca dentro e fora do Hip-Hop baiano, de que sim, temos um mestre vivo, produzindo, e devemos – que tem compromisso com essa cultura – louvarmos seu trabalho enquanto aqui ele está.
Vida longa Diego, um brinde a sua vida e a sua obra, o rap e a cultura Hip-Hop baiana agradece.
-Diego 157 Day! Porque devemos louvar esse mestre da nossa cultura!
Por Danilo Cruz
Danilo
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