A Dendê Dub estreia com um álbum que é manifesto: tambores, graves e ancestralidade temperam a música baiana urbana com resistência e poesia.

O dendê, matéria prima do azeite que dá vida ao alimento dos orixás, dá sabor à comida baiana, servida imprescindivelmente às sextas feiras, representa de forma pulsante a cultura baiana.
Quem aí não se lembra do rótulo pejorativo e xenofóbico do cantor Lobão, “Máfia do Dendê”! Segundo o cantor e ex – discípulo do defunto Olavo de Carvalho, haveria um monopólio da música brasileira gerido por figuras consagradas da nossa música, em especial, os baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Ele recorreu ao dendê para representar a presença dos dois consagrados compositores baianos nessa “organização mafiosa”, existente apenas em seus delírios movidos por puro ressentimento. Porém, foi no dendê que encontrou a melhor maneira de representar a cultura baiana. Nisso ele teve a precisão de um relógio parado, que mesmo sem funcionar acerta o horário duas vezes por dia.
O importante aqui é destacar o uso do “dendê” como elemento de representação da cultura baiana. A banda Dendê Dub, por sua vez, usa o dendê para dar relevo à sua música. O óleo sacro do candomblé se corporifica na música da banda.
Nesse sentido, o dendê é muito mais do que mero signo cultural, musical no caso da Dendê Dub. Ele é a própria música feita pelos seus criadores. O dendê, enquanto alimento, alimenta, fortifica, energisa, garante a saúde do corpo físico e cultural do povo baiano.
A formação atual do Dende Dub conta com Dom Lito Candombass, DumDum Afolabi e Dj Berlota. A banda existe desde 2009, porém, foi recentemente que lançaram seu primeiro álbum intitulado “Tambores, Graves, Urbanos”. Cada faixa carrega a identidade do grupo: o tambor que ecoa ancestralidade, o grave que vibra nas ruas urbanas e o groove que une periferia e centro.

O trabalho tem produções sonoras de RDD (Rafa Dias), Rone DumDum, Mangaio e Berlota, e letras escritas por Rone DumDum e DomLito e identidade visual de Dj Badoog.
O álbum é um convite para dançar, refletir e sentir a Bahia em suas múltiplas camadas sonoras. “Tambores, Graves, Urbanos” não é só música – é resistência, festa e a prova de que dendê têmpera até o futuro.
Não exageramos ao afirmar que a Dendê Dub lança mais do que um álbum. Trata-se de um verdadeiro manifesto sonoro que pulsa no compasso dos batuques afro-baianos, reverberando camadas densas do dub, do reggae, do rap e da música eletrônica.
Composto por 8 faixas que fazem uma trama na qual se entrelaçam tradição e modernidade, o álbum se concretiza para além do mero lançamento musical, afirmando-se como afirmação de identidade e resistência cultural.
Podemos perceber ao longo das faixas do álbum a tradução da experiência urbana negra, soteropolitana numa linguagem musical contemporânea. Contudo, traz consigo os alicerces percussivos herdados dos terreiros, das rodas de capoeira e dos blocos afro.
Esses elementos musicais se materializam em cada faixa através dos seus arranjos que aliam a ancestralidade dos tambores aos beats eletrônicos, explorando os graves com sensibilidade estética e potência simbólica.
Logo de saída, a primeira faixa nos leva a uma escuta corporal, sensível, mas também politizada. Podemos considerar que os tambores são mais que responsáveis por criar a base rítmica das faixas. Funcionam como narradores de uma história coletiva.
Sua mistura com o dub, não esvazia essa raiz percussiva necessária, mas a amplia, gerando paisagens sonoras carregadas de ambiência e densidade.
Para muitos, o fato da banda ter esperado mais de uma década para lançar seu primeiro álbum, sejam lá quais forem os motivos, causa estranheza. Isso porque atualmente percebemos a temporalidade a partir do imediatismo. Algo só tem valor e só é visto positivamente a partir de um viés utilitarista.
Ouvindo o álbum, percebemos que a “demora” para sua criação, permitiu à banda adquirir maturidade. Adquirir domínio sobre os gêneros musicais usados nas suas composições, para combinar seus elementos de forma sensível e precisa.

Outro destaque são as linhas de baixo construídas. Profundas e envolventes, dialogam com vozes que por vezes recitam ou cantam, numa tessitura que remete à tradição griô. As vozes emergentes nas faixas, conduzem temas como desigualdade social, espiritualidade, violência e racismo estruturais e orgulho ancestral.
Destacam-se faixas como “Amapiano da Laje”, com um groove hipnótico e letra crítica afiada, única faixa lançada previamente no formato single. “Guenta Sanfonada”, penúltima faixa, se mostra como uma verdadeira celebração à Salvador percussiva e insurgente, onde os beats digitais e os atabaques caminham juntos como corpos na rua. Em “Number One”, a poética da música se torna quase manifesto em honra às religiões de matriz africana.
O título do álbum, Tambores Graves Urbanos, resume perfeitamente sua proposta: há um chamado à escuta subterrânea, àquilo que pulsa sob o concreto da cidade. Ao mesmo tempo, o álbum é urbano não por negar o ancestral, mas por afirmar que a cidade também é terreiro, que o presente carrega ecos do passado e que o futuro se constrói com ritmo, poesia e crítica.
Carlim
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