Não se engane, aquele mundo não existe mais e não voltará a existir. Adapte-se à nova realidade, ela é trevosa, como o novo clipe da Crappy Jazz.
Acompanhando as atualizações dos números da pandemia do covid 19, as declarações dos órgãos oficiais de saúde e de especialistas somos levados a uma triste conclusão: esqueçam o que era o mundo pré pandemia, existe uma nova normalidade. Possuímos a capacidade de ultrapassar a realidade, vislumbrando outros cenários, movidos pela esperança somos tentados a esperar a superação dos momentos ruins e ao restabelecimento de uma realidade em acordo com as nossas expectativas.
Existem efeitos colaterais, há quem ultrapasse os fatos que configuram a realidade através da negação destes fatos, configurando a percepção da realidade a partir da sua convicção de como as coisas deveriam ser. Chegamos ao ponto em que pessoas negam a existência da pandemia simplesmente porque querem que ela não exista. Querem aquele mundo onde ela não existia. Preferem satisfazer seu ego criando uma fantasia e crendo cegamente nela.
Viveremos nos próximos anos num mundo de isolamento social, cada qual enclausurado em seus metros quadrados, tendo o mínimo de contato social, tendo esse contato regulado para controlar os surtos da doença. Teremos que nos adaptar a este mundo de isolamento. Somos seres gregários desde nossa origem nesse planeta, nosso DNA está programado pela evolução da espécie para viver entre outros da nossa espécie. A mudança radical dessa condição causa graves problemas, em sua maioria de caráter psicológico.
Em meio a essa atmosfera distṕopica, o rocker duo londrinense Crappy Jazz lança um clipe que expressa bem essa nova condição e seus efeitos sobre nossas mentes. Nossa percepção da realidade muda aos poucos, sendo moldada pelo isolamento, pela tomada de consciência de que não é possível ainda combater efetivamente o vírus, levando muitos a surtar e afundar no desespero. Pipocam mortos pelo mundo, mas também os casos de doenças psíquicas.
O clipe pode ser compreendido como a representação da condição na qual nos encontramos. A câmera está sempre parada, usando um plano fixo, num único enquadramento por onde a história se desenrola. Esse recurso já passa uma sensação claustrofóbica por limitar a ação dos personagens a um espaço muito pequeno. A presença desde o início do bode Satanzinho indica algo errado. Também as vestes pretas, que em nossas sociedade representam o luto, remete-nos à morte de algo. Certamente a morte do mundo livre do vírus, onde o espaço de relações sociais não podia ser delimitado por um enquadramento fixo.
Inicialmente vemos um garoto sentado no chão assistindo a tv, ao seu lado o Satanzinho. Chega um adolescente, senta-se no chão, agora o Satanzinho fica entre eles. Rapidamente o tédio se instaura, um jogo se apresenta como entretenimento para amenizar a bad. No transcorrer das cenas percebemos alterações nos personagens. Surgem expressões desenhadas nos rostos de ambos, depois máscaras, indicando que as expressões faciais já não surgem naturalmente nem expressam o que se passa na mente desses jovens.
Aos poucos o cenário fica conturbado, luzes piscam, alternam-se cores e intensidade de iluminação. Os personagens mudam de posição, apenas o Satanzinho permanece o mesmo, desde o início. Indicação que apenas a condição não muda. Temos aí uma perspectiva pessimista, baseada nos fatos e relatos de orgãos oficiais de saúde e virologistas, que apontam prum futuro em que teremos que conviver no limite da sanidade mental, em que haverá alternância entre estados de espírito serenos e conturbados.
O clipe de Turbulência, faixa presente no álbum Véspera (2018), é uma alegoria sobre a condição imposta pela pandemia ao mundo contemporâneo. Embora essa alegoria nos mostre uma realidade que não desejamos, ela mostra o que é a realidade agora, e que sera a realidade nos próximos anos: sombria e solitária.
Neste trabalho, filmado e produzido por Silva Leonel, Yuri Muller (responsável pela edição) e Renan Sanches, mostra ser possível fazer clipes de qualidade a partir de recursos limitados, lançando uso da criatividade e inspiração para realizar um trabalho expressivo e instigando a partir de um número restrito de elementos. Os caras tem anunciado possíveis lançamentos de faixas inéditas em 2020. Estaremos a espera desses novos sons para agitar esse mundo assombrado pelo vírus.
Crappy Jazz – iniciou as atividades em 2015. O grupo é formado por Silva Leonel (Baixo e Vocal) e Yuri Muller (Vocal e Bateria). A banda faz uma música com influências que vão desde o hardcore, o noise e também a música regional. Nomes como Sepultura e Nação Zumbi fazem parte das influências. A banda lançou 4 faixas ‘single’ entre 2016 e 2017, através de canais como o Youtube e tocou por dois anos no Festival Demosul. A banda lançou o primeiro álbum “Véspera” em 2018.
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Carlim
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