A Cacofonia começou há pouco tempo sua jornada pelo underground brasileiro, mas já mostra atitude, boas referências e ideias afiadas sobre suas vivências na cena.
As redes sociais às vezes nos permitem ter boas experiências. Por exemplo, conhecer novas bandas, novos e novas artistas. E foi numa dessas filtragens realizadas pelos algoritmos do Zuca que cheguei ao conhecimento da Cacofonia.
A banda punk de Joinville – SC iniciou recentemente sua caminhadas nas tortuosas trilhas do underground brasileiro, mas já tem planos para o futuro próximo, o lançamento de seu primeiro registro autoral, um EP composto por três faixas.
E já estão dando voos mais ousados, sendo escaladas para abrir um festival em Blumenau com grandes nomes do metal e do hardcore nacional. Leiam a entrevista e conheçam essa banda da pesada que oferece sua contribuição para os novos ares do underground brazuca.
Carlim: Antes de mais nada quero agradecê-las por terem aceitado conceder esta entrevista! Vocês são uma banda iniciando na árdua estrada da música independente. Qual a história da origem da banda, o que motivou vocês a formarem a banda, etc..

Sofia: Muito obrigada pelo convite! Então, a banda surgiu do meu sonho (Sofia, vocalista e baixista) de ter uma banda só de mulheres que falasse de feminismo e política. Eu entrei de cabeça no feminismo em 2023, quando conheci o punk e o hardcore, mas principalmente porque conheci as bandas Bikini Kill, de Washington, e Bulimia, de Brasília.
Até então eu nunca tinha ligado para feminismo e essas bandas abriram meus olhos, então comecei a me ligar de todas as injustiças que acometem às mulheres todos os dias por conta do sistema patriarcal em que vivemos. Apesar de que eu desde criança já questionava bastante os papéis de gênero e nunca curti seguir as normas femininas e patriarcais.
Tipo brincar de boneca, brincar de pia, vassourinha, é até engraçado falar, mas mesmo eu sendo nova (tenho 19 anos) esses brinquedos eram bem comuns para meninas quando eu era criança kkkk (tem que rir pra não chorar né?)
Carlim: Bom, podemos dizer que deste despertar para a existência desta realidade patriarcal surgiu a ideia de formar a Cacofonia …
Sofia: Então, até ano passado eu estava em outra banda aqui da cidade chamada Plano Real. A banda era com o meu namorado, e eu saí porque não estava mais sentindo que meu lugar era lá. Daí, cerca de dois meses depois, chamei uma amiga minha que tocava guitarra pra fazer a banda comigo. Mas a Marcela, inventou que queria na verdade tocar bateria na banda.
Dito e feito! Meu namorado, que também toca bateria, começou a ensiná-la e ela aprendeu muito rápido! Estamos muito contentes, ela evolui mais a cada dia. Decidimos que seria um trio e chamamos a Aninha, uma amiga da escola, também do meu namorado.
Carlim: Pensava que vocês três já fossem amigas de tempos! E bateu a química entre vocês três, né?
Sofia: Sim. E a Aninha foi a primeira menina que veio à nossa cabeça que tocava guitarra. Ainda bem que ela topou, hoje em dia nós três nos complementamos muito bem. Já chamamos ela dizendo que seria uma banda de hardcore punk, e estamos fluindo muito bem. A Anna é mais do emo, a Marcela mais do metal e eu, Sofia, do hardcore, e essa mistura gera uma sonoridade muito foda nas nossas músicas.
Carlim: Vocês são uma banda do interior de Santa Catarina, há uma cena independente, underground em Joinville que estimula a formação de bandas punk/ hardcore?
Sofia: Então, Joinville é a maior cidade do estado, por incrível que pareça, mas ela tem essa cara de interior mesmo (risos)
Carlim: Oia, (risos) que doidera!! Jurava que era Florianopólis por se a capital do estado! (risos).
Sofia: Pois é! (risos) Joinville é uma cidade totalmente industrial, muita gente vem pra cá pra trabalhar mesmo, tentar a vida, e realmente é uma ótima cidade em questões de segurança e empregabilidade. Mas como estamos em Santa Catarina, claro, também é uma cidade extremamente conservadora e neoliberal, (e diga-se de passagem também, fascista).
Carlim: Não à toa é o estado em que o bolsonarismo mais viceja no país!
Sofia: Exatamente! Então imagina só, numa cidade onde todo mundo só trabalha, não existe muita vida fora isso, não há muito lazer, então a cena engatinha bastante ainda, sabe?! Mas eu vejo um progresso acontecendo. Como a gente é nova, nós meio que não sabemos direito como era a cena antes da pandemia.
Carlim: Curiosa essa visão que vocês trazem, relacionada a pouca idade de vocês e como isso interferiu na visão de vocês sobre a cena local.
Sofia: Pois é, mas dizem que tinha bastante bandas, mais bares pra isso, alguns dos maiores inclusive fecharam durante a pandemia, o que é uma tristeza. Mas hoje em dia temos o Hangar 7, esse tem sido o antro do underground joinvilense, por assim dizer.
É um bar onde tem de tudo, mas principalmente punk, hardcore, metal, etc, são muito bem-vindos. Temos poucas bandas autorais, e de banda de punk/hardcore (cover e autoral) acho que tem umas 5, contando com a gente kkkk é foda, a cena do metal aqui é bem maior, mas o importante é que tenho visto cada vez mais rostos diferentes no Hangar 7, gente mais nova chegando, o que é incrível.
Carlim: Como vocês veem a formação de bandas integradas apenas por mulheres na cena independente? underground?
Sofia: É algo beemm difícil de ver! Mas a gente tá bem feliz que com a repercussão que estamos tendo no instagram e tiktok várias meninas do país todo chegaram pra gente e falaram que a gente motivou elas a formarem bandas, e isso é maravilhoso, é exatamente o que a gente quer que aconteça.
Carlim: Olha, a caminhada de vocês começou recentemente, mas já estão influência e referência para outras bandas! E são só vocês de banda com componentes mulheres de Joinville?
Sofia: Não, tem uma outra banda só de meninas que surgiu recentemente aqui na cidade, a Bubônica, pelo menos agora somos duas bandas de mulheres na cidade kkkk é realmente MUITO difícil de ver mulher em banda por aqui.
A gente tem contato com algumas bandas de mulheres do país, eu busco sempre ir atrás pq é muito importante a gente se unir sabe? Porque é realmente complicado, a gente sofre uma tonelada de misoginia escancarada nas redes sociais.
Carlim: Quais temáticas vocês exploram na música de vocês? Aliás, vocês têm composições próprias?
Sofia: Temos composições próprias sim! Estamos bastante focadas nisso. A gente fala sobre o sistema patriarcal, capitalista, a opressão das minorias…
A gente faz música para que outras pessoas abram os olhos e vejam que elas também podem lutar, que nem aconteceu comigo lá em 2023. A gente curte tanto protestar nas letras quanto motivar outros jovens a levantarem suas cabeças também.
Carlim: Uma coisa que é muito comum na cena underground, ainda é o machismo. Já sofreram algum tratamento machista por parte de integrantes homens de outras bandas ou mesmo dos organizadores de eventos em que vocês participaram ou mesmo do público? Caso a resposta seja sim, poderiam dizer como lidaram com a situação?
Sofia: Então, a gente ainda não tocou em show, nosso primeiro vai ser mês que vem! Estamos bem animadas. Mas sem contar todos os comentários machistas e nojentos que já recebemos de caras aleatórios nas redes sociais, teve uma banda de metal de uma cidade vizinha, Jaraguá, que comentou rindo de nós em um de nossos vídeos, os caras tocam direto aqui em Joinville e no Hangar 7 inclusive e querem arranjar intriga com a gente? Cara, se a gente vê eles num evento por aqui, quero só ver se vão nos ignorar KKKKK a gente não curte briga sabe, mas se algo for necessário a gente não vai ficar calada tá ligado?
Carlim: Vocês pretendem lançar material autoral ainda esse ano?
Sofia: Simm! A gente vai lançar um EPzinho de 3 músicas mês que vem, dia 26 de agosto, na mesma semana do nosso primeiro show. Estamos correndo bastante contra o tempo pra gravar tudo, essa semana mesmo vamos ter que correr MUITO kkkk mas tudo pelo rolê, a gente quer entregar essas músicas o quanto antes pra galera porque já tão pedindo bastante.
Carlim: Quais as principais dificuldades que vocês têm enfrentado enquanto banda independente?
Sofia: É coisa demais pra fazer, esse é o mais foda, fazer música, gravar, fazer arte, flyers, merchs, e principalmente planejamento e produção de conteúdo, que é MUITO importante pra nós, na verdade é importante pra qualquer banda, hoje em dia não dá pra crescer sem fazer conteúdo pras redes, é essa a realidade.
Então uma vez por mês temos q tirar um ensaio todo só pra gravar vídeo, temos que editar e tudo mais, e nem sempre o vídeo dá certo, então temos que analisar como melhorar e o que fazer de melhor da próxima vez.
Carlim: Teve algum show que fizeram que marcou vocês? Podem relatar como foi?
Sofia: Como eu disse ali em cima, nosso primeiro show é mês que vem, acabou que a gente conseguiu repercussão muito depressa, antes mesmo de tocarmos pra um público kkkkk mas estamos muito contentes e ansiosas, já temos 4 shows marcados esse ano e um ano que vem.
Muito obrigada pela oportunidade de contar a nossa história e vamos manter contato!
Carlim: BREAKING NEWS!! Tinha que rolar a música do “Plantão” lá da Globo! (risos) Aqui também gostamos de fofoca, alô Léo Dias meu broder, aquele abraço! Fiquei sabendo pelas vielas da internet que vocês vão fazer o primeiro show da banda e que o vai ser grandão. O que levou a mudanças nos planos de vocês. Inclusive na data de lançamento do EP. Contem-nos tudo, não escondam nada!

Sofia: Simm! Nosso primeiro show que era pra ser dia 29 de agosto aqui em Joinville, agora vai ser dia 02 de agosto em Blumenau. Vamos abrir pra ninguém mais ninguém menos que Eskröta, Black Pantera e Surra!!!
Ficamos muito chocadas e felizes com esse convite, um pouco nervosas também! (risos) Bom, porque é uma puta responsa né? (risos) Então agora vamos ter que treinar bastante em função desse eventaço que vai rolar.
Tivemos que postergar o lançamento do nosso EP, que tínhamos planejado pra sair na semana do nosso primeiro show em Joinville. A gente já estava com bastante pressa antes, imagina agora!
Então estamos planejando soltar esse EP em setembro, não sabemos que dia ainda, mas logo vamos divulgar nas redes sociais. A gente ficou muito feliz da nossa repercussão e esforço nas redes sociais já estar gerando frutos, como essa oportunidade incrível.
Carlim
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