
Surgido em 2009 o grupo Nova Era, oriundo do subúrbio ferroviário de Salvador, estreou em 2011 com a boa mixtape Nem Tente Contar Com a Sorte. Essa semana eles nos apresentam seu primeiro disco cheio, Brutality (2015). Em seis anos, o amadurecimento musical do grupo cavalga velozmente. A evolução é constatada imediatamente no decorrer das faixas e não podemos deixar de notar como suas músicas aparecem neste último álbum mais pesadas e com letras mais incisivas.
Como se isso fosse pouco, o disco ainda conta com participações de peso do rap baiano e brasileiro: Fall Clássico, Galf UG, Daganja, Kino, Cintia Savoli, Blequimobiu & Fael I, que abrilhantam algumas faixas e trazem contribuições muito significativas.
A apreensão da realidade pode se dar sobre diversas formas e o rap contemporâneo projeta uma diversidade de propostas. Acreditamos que existe espaço para tudo e que cabe ao ouvinte fazer a seleção – que no caso do hip-hop é o conhecimento. Esse quinto elemento da cultura deveria ser o porteiro para os ouvidos mais atentos, mas infelizmente nem sempre é esse o critério seguido. Melhor para Ravi Lobo, Moreno e Morango, que com seu trabalho nos bate forte e fura os coletes da alienação nos cérebros alheios, tornando-nos mais interessados na cultura original do hip-hop.
A pegada do disco é brutal mesmo, do inicio ao fim, narrando com propriedade a violência que enfrentamos no dia a dia de Salcity. Afinal, a brutalidade é a substância das ações que as comunidades negras e pobres de nossa cidade estão sujeitas cotidianamente. Realidade salgada nas periferias e os caras não douram a pílula com conversa fiada, pra não matar carambola. Sim, porque se você não notou a cidade tá escaldada, tá sujeira, tá barril, basta dar uma olhada nos índices de violência, ou simplesmente ao seu redor. Não adianta se esconder em condomínios de luxo, nem blindar o carro, porque a violência está a espreita, rendendo o porteiro, ou do lado do seu vidro no engarrafamento.
Ao longo do disco encontramos várias perspectivas diante do nosso cenário violento (menos a perspectiva do Estado) como que clamando para nos atentarmos ao cenário caótico onde vivemos. O estado só é citado naquilo que de melhor chega para nós, o braço armado e genocida. As perdas de vidas, a opressão da juventude dentro das quebradas de salvador, a violência policial, a manipulação midiática, a falta de oportunidades para o povo preto, são alguns dos temas encarados. Enfrentamento operado através da violência dos flows, das rimas lotadas da linguagem genuinamente soteropolitana, refrões pegajosos, beats pesados, samples simples e certeiros. Um disco que aparece pra marcar seu lugar na cena do rap da cidade, que só cresce a cada dia.
A postura é o equivalente artístico do nosso contexto social e politico, contra efetuando as violências que sofremos através da arte. Na contenção e sem receio de meter o dedo em todas as feridas que nos fazem sofrer e que não encontram, por parte dos que estão fora, remédio. Em tempos onde se dizer favela virou jargão, Nova Era nos obriga a repensar o conteúdo dessa fala. Quais os pressupostos que estão por trás da exaltação cega de uma realidade dura e cruel? Afirmar sim, sempre, porém é preciso um pouco mais de reflexão para não cair no canto das sereias ou dos flautistas de Hamelin, dos grandes negócios, aqueles que chamam o próprio povo para retorno. Ser bucha de canhão? Nunca! Acorde!
É difícil escolher qual música comentar porque apesar do disco não se pretender conceitual, todas as músicas se completam. Existe um devir-cinema na música do Nova Era, que nos obriga a pensar a unidade da obra como um filme e em termos cinematográficos para encararmos cada faixa como um quadro, uma fotografia, que juntos projeta-nos “visões” sobre Salvador. Mas que pode ser projetado em qualquer periferia do Brasil e encontrar seus equivalentes e equivalências. Essa captura imagética transmutada em palavras e ritmos, consegue cartografar a city e o tempo que vivemos. Nesse processo, produzem o mesmo acontecimento que deu origem ao nome do grupo, podemos sonhar realmente com uma Nova Era.
Os caras lançaram o disco nesta última semana pela internet, e do dia do lançamento até esse momento não sai dos fones e ficará por mais um tempo. É viciante, militante e toma os loucos pelos ouvidos. Se duvida baixe o disco clicando aqui ou ouça abaixo pelo soundcloud e aprenda mais um pouco sobre qual a realidade que nos cerca nas periferias.
Danilo
Matérias Relacionadas
Assine a nossa Newsletter
*Conteúdo exclusivo direto no seu e-mail
No ar!
Oddish “Castro” & Degraus Beats: “A arte de não ser suicidado pela sociedade” = “Deus me Louvre”
Oddish Castro lançou o seu 3º disco com feats de Max BO, ManoWill, Ravi Lobo, ALFÃO, Lezin e mais em seu melhor trabalho até aqui! Vivemos uma era de filtros, onde “personas” são vendidas como manequins portadoras de verdades humanas, com narrativas sendo engolidas como…
O lançamento de “Ajucity for Life” solidifica a relevância de BW para o trap sergipano
Uma análise sobre os elementos singulares que construiram a relevância do artista sergipano BW dentro do cenário de seu estado O festival Tambor cimentou uma das minhas já convictas certezas: BW é um dos maiores nomes do rap sergipano. Ao lado de Preto JB, Dayo,…
Oddish “Castro” solta single e EP como um prólogo para o “ÉPICO da SUJEIRA”
Um dos grandes nomes do Rap baiano, Oddish “Castro” lançou o single “Gargantilha” e o EP “Pernambués” com produção do El Piva. O mês de abril tem marcado o retorno do MC Oddish “Castro” ao cenário do Rap baiano, com lançamentos que preparam o seu…
Pós-Salvando “Fazendo o Melhor Que Eu Posso”, resposta ao seu áudio Mattenie!
Saiu hoje o segundo disco da dupla Matéria Prima & Goribeatzz: “Fazendo o Melhor Que Eu Posso”, contando com 13 tracks pelo boombap e o house! Disco novo da dupla Matéria Prima & Goribeatzz, com baixos estratégicos do Cizco, DJ Novset riscando, Cravinhos em guitarras…
Zadorica e a sua “Sina”: “o Rap ninguém me apresentou, ele aconteceu” – Entrevista
Entrevistamos a Zadorica, MC e produtora que acaba de lançar o seu disco de estreia: “Sina”, para você saber melhor sua caminhada e ideias! A agência entre formação pessoal e desenvolvimento artístico não opera por causalidades, a todo um trabalho de “reflexão” – flexionar para…
Tigran Hamasyan: folclore, erudição e improviso – o escape para encontrar a liberdade musical
Tigran Hamasyan é um pianista armênio, que conseguiu atenção mundial quando sua interessantíssima visão sobre música folclórica, clássica e improvisação começou a receber atenção do público e das grandes gravadoras. Sempre registrando projetos por selos proeminentes, principalmente do mercado europeu e norte-americano (como Nonesuch Records…
A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim”
Com dois discos lançados em 2025, o rondoniense kami lauan chega com “tTrazedor de Notícia Ruim”, um disco fora da curva! kami lauan e o seu disco “tTrazedor de Notícia Ruim” é um acontecimento para o rap nacional em 2025. Se você acompanha de fato…
“Tertúlia” de Galf AC & DJ EB, lírico e rítmico, a música e a poesia Rap – Entrevista!
Com muitas participações, Tertúlia de Galf AC & DJ EB é um disco raiz do rap nacional com uma roupagem atual e consistente! Um dos grandes discos do ano até aqui, “Tertúlia” contém 11 músicas e diversas participações de nomes como Rodrigo Ogi, Ravi Lobo,…
