Felipe Bedetti já lançou seu terceiro álbum, mas aqui vamos falar do single “Samba Gerais”, uma música que indica novas aspirações do jovem compositor mineiro.

A essa altura do campeonato, o novo álbum do cantor e compositor mineiro Felipe Bedetti já está batendo em tudo quanto é plataforma de streaming. Contudo, ainda não vamos analisá-lo; vamos inicialmente nos debruçar sobre o single que o precedeu. Faz pouco tempo que a faixa foi lançada. Afinal, 18 de dezembro foi ontem.
Intitulada “Samba Gerais”, a música surpreende o ouvinte que acompanha a carreira de Bedetti desde os seus primórdios abre-campenses. Isso porque a trajetória do rapaz até aqui esteve pautada pela verve cancioneira. Bedetti se aprofundou no universo da cantoria, a ponto de, no álbum “Afluentes”, lançado em 2022 (e com resenha aqui no Oganpazan), revelar um domínio magistral do gênero.
A tal surpresa ocorre porque, ao apertar o play, nos deparamos com arranjos de metais intensos, conduzidos por ritmos cheios de swing. É o samba mineiro, com pitada de gafieira, que Bedetti vem mostrar. E nos deparamos com um jeito peculiar do compositor de cantar o samba.
Fica presente, na entonação do canto, aquela peculiaridade marcante da cantoria: expandindo a nota ao final de cada verso. O resultado é um canto quase falado, mas só quase, porque, certamente, o swing do samba se impõe.
O samba apresentado por Bedetti não é um samba genérico, sem identidade própria, construído artificialmente com o intuito de representar comercialmente algo que possa ser rotulado como “samba mineiro”.
Até porque isso não existe fora do mercado fonográfico; o que há é o samba e o modo como ele é feito pelo artista A, B ou C. É devido a isso que a “mineirice” do samba apresentado por Bedetti é própria desse compositor. Ele não procura mimetizar estilos de sambistas consagrados; se orienta a partir de sua experiência única do que consiste em ser mineiro.
Encontramos nesse “Samba Geraes” a originalidade de quem não se pauta por modismos nem orienta sua vibe criativa pelo desejo de terceiros. Sabe como é, né? Está cheio de “compositor” fazendo música para arrebanhar cada vez mais gente para o seu público consumidor.
Agora, voltando nossa atenção para o arranjo dessa música: vocês não sentiram uma pitada, uma pitadinha daqueles arranjos que tão marcantemente definiram a sonoridade do show “Obrigado, Gente”, do João Bosco, lançado há vinte anos, em 2006?
Bom, estou apenas levantando uma impressão bastante peculiar. Afinal, sei bem o quanto os arranjos desse show de João Bosco chamaram a atenção de músicos de tudo quanto é geração. Não seria nada estranho buscar inspiração naquela sonoridade.
O que também não é nada estranho é afirmar que Minas Gerais não é conhecida musicalmente por conta do samba. O formato canção se consolidou no imaginário popular nacional, definindo, ao menos do ponto de vista do estigma regionalista, a música “típica” mineira.
Porém, Bedetti nos lembra, não apenas na cadência da música, mas também na letra (que relembra grandes nomes da música de Minas que contribuíram de modo cabal para o samba), que João Bosco, Clara Nunes, Ary Barroso e Ataulfo Alves têm seus nomes diluídos na melodia da canção e surgem de maneira “natural” na letra, sem soar de modo caricato, como geralmente ocorre em músicas que se prestam a homenagear grandes nomes da nossa cultura.
Aproveitando o gancho do samba mineiro, vale deixar registrado nosso lamento pelo falecimento da jovem sambista mineira Adriana Ribeira, um dos nomes do samba de Minas, em pleno voo para se consolidar no cenário da música nacional. À família, aos amigos, aos fãs e à música brasileira, nossos pêsames.
Feito este adendo sobre o luto do samba mineiro, deixamos registrado estar em boas mãos o seu legado. Mãos guiadas por uma sensibilidade afiada e uma necessidade constante de criar. Vamos ouvir o novo álbum de Bedetti, com a atenção que lhe é devida e ver quais novas surpresas o compositor ainda pode nos revelar.
Carlim
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Samba Bedetti
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