A Família Back To Back é uma banca das mais importantes atualmente no cenário musical baiano e nacional no que tange a produções voltadas mais para o trap e que com certeza ainda vai dar muito que falar nos próximos anos. Essa gravadora lançou um EP coletânea agora no começo de 2016 com um seleção de singles produzidos ao longo do ano passado reunindo grandes nomes da cena como: R. Braz, Makonnen Tafari, R4ulzito, Deds, Matiiilha, Khriz Santos, Biel Gomez, DNX e Rodrigo Bob. Alguns desses artistas já plenamente consolidados na cena, outros iniciando suas caminhadas.
O resultado é uma EP coletânea que reúne muito bem a diversidade e a qualidade de propostas diversas dentro do rap baiano e que compõe também essa banca, transcendendo a diversidade através da união, que é antes de tudo “pelo” rap. Se existem diferenças fundamentais entre o trap e o rap – pois entendo a divisão simplesmente em termos de subgênero (trap) e gênero (rap) -, o trap para muitos dos artistas da banca é no momento a linguagem mais adequada suas propostas artísticas. Dentro dessa pseudo-divisão as propostas variam do trap de curtição, passando pelo rap boom bap, grime até trap’s com letras mais explicitamente críticas.
O novo momento do rap nacional coloca um problema que certamente não encontrará uma resolução satisfatória nos próximos anos, pois sua história sempre colocou a critica ao “sistema” como o elemento principal. E pensando em termos de disputa de mercado e atenção, o que poderia ser um debate construtivo transforma-se rapidamente em rixas, difamações e ou mera negação. E é preciso que se diga, em termos de música, a eleição do criticismo é certamente um falso problema, por isso a dificuldade em resolvê-lo.
Ao mesmo tempo em que o rap luta pelo seu reconhecimento como Música, vários setores entravam o desenvolvimento cagando regras de composição e do que seja a postura verdadeira no estilo discutido. Para além da questão do gosto e do posicionamento macro politico existe o problema da contextualização histórica e social e do entendimento do que seja música e sobretudo da compreensão do humano de forma holística.
Durante muito tempo criticou-se o rap americano por ter se tornado hegemônico com letras meramente hedonistas e ideologicamente capturadas pelo “sistema”, o que aqui no Brasil encontraria a plena resistência subversiva. Não é preciso dizer que o crescimento e o crescente reconhecimento da música rap em âmbito nacional se deu justamente no ultrapassar das fronteiras e limites estabelecidos pela tradição. Com rappers cantando outros temas do cotidiano periférico e buscando outras linguagens musicais. Invadindo canais midiáticos antes rejeitados e se fazendo ouvir – não necessariamente entender – pelas classes privilegiadas e detentoras do poder. O que não significa absolutamente a negação da tradição referida, mas a construção criativa de outros caminhos e a conservação de vários de seus aspectos.
Os artistas da Back To Back acentuam essa problemática em nossas terras e enquanto muitos se digladiam, os manos trabalham e não param de lançar coisas novas com excelência e qualidade técnica, buscando ampliar o leque das temáticas. Retratando os tais temas holísticos acima citados: amizade, sexo, curtição, bebedeira, mas também genocídio dos jovens negros, autoafirmação, a negação da inveja – estratégia secular de separação interna da raça negra – a busca por uma condição de vida melhor… Enfim, a audição atenta das músicas reunidas neste EP revela uma espécie de cartografia do inconsciente de todos nós.
Um diálogo com as novas gerações e com demandas que historicamente foram excluídas das linhas de protesto mais clássicas. A exaltação do gozo seja através de bebidas alcoólicas, do sexo, das relações de amizade. Revolução não passa necessariamente pela negação de aspectos que são essenciais na vida humana, pois mesmo os mais revolucionários gostam de chapar na night, buscar uma gatinha ou curtir com a sua fiel; ama os seus companheiros ou deveria reconhecê-los.
Divertir-se com responsabilidade, gozar a vida com leveza e rodeado dos amigos, elogio do feminino, consciência da caminhada: Papariparty (Makonnen Tafari), Não Estou Só (R. Braz feat. R4ulzito), TR3T4 (R4ulzito), Toda Sex (Biel Gomez), Vou Chapar (Rodrigo Bob), Não Pode Ser Nada (DNX feat. R4ulzito). Mas temos o contrapeso de Degraus (Matiiilha), Salraq (Deds), Nas Manhas (Khriz Santos) alertando para os problemas que circundam as noites de diversão. Amor e morte, amizade e traição, chapação e violência insana, luxo e lixo. Não são nessas dualidades que muitas vezes nos encontramos? Não é uma sociedade dividida em classes e raças?
Mas vamos deixar de muita conversa e recomendar que escutem essa coletânea, de preferência abrindo mão de certezas fáceis. Coloca o som pra rolar bem alto, assim verá a potência e a qualidade das produções de R. Braz e do Dj Akani.
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Segue o fluxo:
Danilo
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