Todo ser humano na face da Terra que acessou as redes sociais hoje já sabe da morte de B.B. King. O que 99% deles não sabe é que ele gravou um dos melhores álbuns ao vivo de todos os tempos.
O maior problema quando morre uma lenda da música em tempos de redes sociais consiste na saturação de compartilhamentos dessa notícia. Além de aparecer a todo momento como se fosse uma mensagem de spam de site pornô, ainda vem vinculada a frases clichês sobre a importância do sujeito pra música, memes com frases de inspiração ditas pelo cara e por aí vai. Puta que pariu! Será que só o meu saco fica cheio com isso? Estou evitando atualizar minha timeline no face pra não ter que ver a mesma coisa pela trilhonésima vez.
Foi pensando em pessoas exigentes como eu (bom, pessoas chatas também define bem dependendo do ângulo que você olha a questão) que eu decidi marcar a mudança de B. B. King pra Terra dos Pés Juntos com essa dica do álbum Live in Cook County Jail de 1971. Fico pensando: será que a Lucille irá com ele? Juntos a vida toda nada mais justo acompanhá-lo nesse momento derradeiro. Ela não me parece ser dessas que aceitam ser tocadas por qualquer Eric Clapton da vida.
B. B. King é um caso a parte no que diz respeito ao universo do blues. Diferentemente de outras lendas do gênero, ele alcançou status de pop star, fama e reconhecimento nunca sonhados por outros nomes como Sony Boy Williamson, Son House e mesmo Howlin´ Wolf e Muddy Waters. Além disso, pôde contar com a sorte e ter uma vida longeva e cercada de carinho dos fãs e músicos das mais diversas vertentes. Nisso tudo B.B. King é único, reina absoluto merecidamente. Porém B. B. não é o único king do blues, não esqueçamos outros tão importantes quanto ele, dentre os quais Freddie King e ELE, Albert King. Felizmente não faltam kings no blues e B. B. estará para sempre entre eles.

Embora tenha se tornado uma estrela e alcançado esferas da existência acessíveis a poucos seres humanos, B. B. King jamais deixou o underground, nem que fosse pra ir lá fazer uma visita de vez em quando. Prova disso é a apresentação na famigerada prisão Cook Count Jail. A prisão era tão barra pesada que ficou conhecida como The Jungle que em bom português significa A Selva. Tudo bem que em 1971, quando B. B. King se apresentou por lá a prisão havia passado por um duríssimo processo de “organização” de sua estrutura interna.
Seja como for tocar numa prisão é foda pra caralho, não importa quais sejam as condições. O palco foi montado no “jardim” da prisão. Os presos sentaram no chão sob vigilância atenta dos guardas. A banda vai se aquecendo no palco enquanto uma mulher começa a falar ao microfone e apresentar as “autoridades” presentes no evento. Claro que ao anúncio da presença do diretor da prisão as vaias surgem com tudo.
Logo depois o estilo inconfundível de B.B. King invade o ambiente e o show começa. A forma como B. B. King toca é única, os bends longos, o diálogo entre Lucille e a sessão de metais, o vozeirão inconfundível que substitui os solos de guitarra durante a música! Poucos músicos conseguem personificar por completo sua música e B.B. King era mestre nisso! Ele começa com dois clássicos do blues que ajudou a imortalizar: Every Day I Have the Blues e How Blue Can You Get. Os prisioneiros se deixam levar pelo embalo do blues dançante de B. B. King, aproveitando cada segundo dos quarenta e quatro minutos de show.
Aproximando-se do final a música que B.B. mais tocou durante sua carreira a ponto de se tornar sua marca registrada, embora não tenha sido composta por ele, The Thrill Is Gone começa. “A emoção se foi”, não poderia haver título melhor para expressar o sentimento gerado pela morte de B.B. King. Confiram essa emocionante performance ao vivo de um dos REIS do blues!
https://www.youtube.com/watch?v=S4XRYX2A_LA&list=PLkHlv54QH7yxxK3vsuNlKhykd5mKt7NR2
Carlim
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