Astral Ubuntu: Bart tira as pedras de si com as pedradas musicais de seu EP solo de estréia, prévia excelente do seu disco que virá a seguir
DJ, mãe, poetisa e resiliente, a rapper Bart tá nas áreas com seu novo EP – Astral, produto de ideias que vieram lá de 2016, cujo ponto forte foi a participação na Residência Artística do Projeto Concha, da Natura Musical. Com musicalidade firme e letras cirúrgicas sobre a trajetória talhada por uma mulher negra que resiste e ocupa as ruas de Pelotas, a rapper gaúcha dá mais um passo no fortalecimento da cena do RAP Nacional e, sobretudo, do protagonismo das mulheres na construção dessa cena.
É pra cumprir “as fugas de tudo que é morbidamente brutal” que se propõe a faixa 1 – Flash. Do devir filosófico do ser individual à cultura Ubuntu do ser coletivo, Bart fala de vida, cura, busca por sabedoria no e através do RAP, da arte, da música e da poesia. Com mais ritmo que rima, o flow aqui é costurado pela sagacidade dos versos e sonoridade dos violinos de Clarissa Ferreira, parceira de Bart na residência da Natura Musical. E lança o desafio colocado pra muitxs de nós: “a vida passa num flash e você pode ser corrente ou chave”.
A faixa 2 – Resiliente é muito pessoal, traduz um pouco da trajetória de desconstrução e autoconhecimento que todo mundo passa, mas que para as mulheres negras, que são forjadas para se adaptar ao desamor, às sabotagens e às violências, é sempre um teste de resistência. E Bart passou. O caminho já é a chegada e a “solitude sempre acompanha”, mas ela mira longe e faz da contingência interior o impulso para apontar, mirar bem longe e se lançar em música que faça fazer sentido tudo que foi sentido.
O que me trouxe até aqui, a terceira e última faixa do EP, é uma volta ao começo. Começa com poesia, fundamento do Rhythm.And.Poetry e tijolo inicial dessa construção da Bart. É a retrospectiva que a ancestralidade exige: um passo atrás para dar dois na frente. Ao menos foi este entendimento que eu tive quando ela fala: “o controle não tá na minha mão e se tivesse, eu já teria perdido. Talvez tenha sido isso que me aconteceu. E eu acreditando ter algum poder… até agora só sei que não posso ter nada que não for pra ser… meu”. A música de fundo do recital é a genuína canção da natureza: assobio de passarinho e a humildade de entender que temos que combinar o jogo com a natureza que nos precedeu, que temos que alinhar nossos sonhos aos desvios do destino e nunca abandonar a voz da intuição em razão da ilusão dos controles remotos.
Bart me contou no ZAP que essa faixa foi fruto de um exercício durante o projeto Concha, em que a turma andou pelas ruas buscando fazer o exercício da escuta e completa: “existe um mundo fora de mim, além de mim, que tem muita coisa para falar e precisamos estar com os ouvidos abertos para escutar”. A rapper destaca a importância de conectar as questões pessoais com o que se passa ao redor e do desafio de poder fazer ecoar a plurivocidade de angústias e potências que estão por toda parte e que também estão dentro da gente.
Ubuntu é uma palavra de origem Bantu que significa ‘Sou o que sou porque somos’, e foi nesse espírito de coletividade que Astral nasceu. Bart contou com o Tiago Bello na mixagem e masterização do EP, com os beats do NightmareBeats na faixa flash, do MC Zilladxg na faixa Resiliente e do DIAMUSIQ, na faixa O que me trouxe até aqui. O time contou ainda com a fotografia da Fernanda Meotti e da produção de Lisiane Alves.
É assim que a rapper gaúcha nos apresenta esse que é um recorte de sua longa caminhada, com coesão, coerência, simplicidade e compromisso. Um beat crescente que mescla a suavidade dos passarinhos e violinos e o peso de letras fincadas em batidas cadenciadas. A cadência de quem não esquece de onde vem pra não desistir de onde quer chegar, sem permitir que a pressa atrapalhe os sussurros que a vida deixa no meio do caminho. Avoa, Bart!
-Astral Ubuntu: Bart tira as pedras de si com as pedradas musicais de seu EP
Por Bruna Rocha
https://www.youtube.com/watch?v=fuSGdTHP0Us&list=PLcfL9IVwRWhaKSyLBb84A9Ij6UaVe955X
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