FBC se volta ao que no Brasil ficou conhecido como “Bate Cabeça” nos 90, em Assaltos & Batidas com produções do Coyote Beatz, entre outros.

Quando gentilmente FBC nos enviou as guias de Assaltos e Batidas, ainda no ano passado, ao escutar eu pensei com meus botões: De novo? Pois é, desde o seu EP de estreia CAOS em 2014 já são 11 anos de produções fonográficas que não se repetem. Até aqui, foram 6 discos e dois EP, onde o MC – cria das batalhas – mostrou ao cenário nacional uma versatilidade que não se assenta apenas na capacidade de rimar e sim, na inventividade de mundos, de ilhas criativas.
O filho bastardo do caos, F.B.C., sabe como poucos no rap nacional organizar esse caos de onde provém socialmente, como um demiurgo profano. Do boombap ao trap, do trap ao drill, do drill ao miami beat, do miami beat ao house/funk, não existe outro artista com essa mesma obra singular no rap nacional, fato.
Agora, em Assaltos e Batidas (2025) ele retoma uma sonoridade que no Brasil ficou conhecida através de grupos de São Paulo como Doctor MC”s e RPW, do X-4 Hip-Hop e do Potencial 3. Fruto da união do rap de periferia com um público oriundo em grande parte do skate, o “Bate Cabeça” – como ficou conhecido – marcou época no rap nacional. Estes grupos nacionais se inspiravam em grupos norte americanos como House Of Pain, Cypress Hill, Onyx entre outros. O disco conta com a produção de Coyote Beatz e Pepito, com Nathan Morais no Baixo e Jackson Ganga no sax, e o DJ Cost nas quadradas.
O universo apresentado em Assaltos e Batidas veio acompanhado de um curta-metragem dirigido por Renan 1RG, através de um roteiro elaborado pelo FBC. Ao retomar uma sonoridade dos anos 90 é bastante curioso notar como esse “revival” não bebe, meramente em uma estética, mas atualiza questões que ao longo da história permaneceram. O curta faz muito bem esse papel, para a audiência atenta, de localizar em 2025, problemas e dramas que seguem tão firmes nas nossas favelas como há 30 anos e contando.
Ilustrado pelas músicas, o audiovisual além de obra inteira, serve como uma plataforma visual das temáticas que serão abordadas ao longo do disco, porém com um narrativa linear. Pulando do audiovisual – o curta metragem – para as ilustrações presentes nas faixas do youtube, a arte do Keko Animal, nos remete semioticamente ao clássico dos quadrinhos “Maus” do gênio premiado pelo Pulitzer, Art Spiegelman. Em um diálogo entre o Holocausto judeu na segunda guerra, e o genocídio do povo negro que vem sendo perpetrado em nosso país.
Na obra do quadrinista americano, nascido na Suécia, os personagens presentes na obra são retratados como animais, da mesma forma isso ocorre ao longo das imagens que ilustram as 11 faixas que compõem “Assaltos e Batidas”, no Youtube. Gerando dessa forma uma obra visualmente instigante, que negocia a sua coesão estética entre passado e presente, entre diagnóstico e um clamor-projeção de futuro revolucionário, de modo crítico e informado. FBC consegue também em sua lírica, algo muito importante, traduzir em versos simples pensamentos e conceitos complexos, além de uma série de referenciais que não precisam ser conhecidos para que se compreenda a proposta do trabalho/mensagem.
Com Assaltos & Batidas, FBC também coloca à prova o seu público, grande parte deste angariado após Baile (2021) e o seu Miami Beat festivo e orgulhoso da cultura de favela e dos seus bailes funk. Se por um lado, ele bebe da sonoridade do “Bate Cabeça” com a maioria dos beats assinados por Coyote Beatz, liricamente ele retoma a força de agenciamento coletivo de grupos dos anos 90 como Racionais MC’s e Facção Central, sempre presentes nos scratchs do DJ Cost.

Por um tempo, o Rap Nacional trocou a violência pelo empreendedorismo, o que era a busca por esclarecimento acerca das estruturas de poder opressoras, se transformou em muitos lugares em “o corre” do “Self Made Man”. Obviamente, não de modo hegemônico em todo o cenário, porém isso se tornou um horizonte principalmente após os primeiros governos do PT.
Não à toa, nos parece, Assaltos e Batidas termina com a “Cosmologia Corporativista do Senhor Arthur Jansen”, desmistificando o horror da naturalidade do Capitalismo Tardio. Retomada em sua obra, pois em outros trabalhos seguiram as noções do Rap como anti sistema capitalista. As aliterações entre Lutem e Wu Tang, são uma simbiose muito bem construída dessa ideia que atravessa todo o disco.
“O roubo do pobre torna-se uma maliciosa reapropriação individual, está me entendendo?… Onde é que iríamos parar? Assim, a repressão aos pequenos furtos se exerce, repare bem, em todas as latitudes com rigor extremo, não só como meio de defesa social, mas ainda e sobretudo como uma recomendação severa a todos os pobres coitados para que se mantenham em seu lugar e em sua casta, sossegadinhos, alegremente conformados em morrer ao longo dos séculos e indefinidamente de miséria e de fome…”
Louis-Ferdinand Céline
Há uma urgência de tomada de consciência e do abismo neoliberal que se tornou o Brasil. Uma ausência de projetos de futuro que realmente sejam capazes de dar conta dos imensos problemas que vivemos, se coaduna neste inferno atual em escala global. Ao longo destas últimas décadas, desde que integrou o circuito de batalhas de rimas, até a sua estreia em EP, a DV Tribo e toda a sua sólida caminhada discográfica, FBC recebeu e acolheu uma formação política que tem se aprimorado junto ao aprendizado musical.
É esse efeito que recebemos com Assaltos e Batidas, onde na primeira faixa através do baixo e da batida, que anuncia o novo produto, o verde, o MC assume a persona do traficante desvendando todo o game violento e corrupto ao longo das 3 primeiras músicas. Todo o disco possui uma solução de continuidade entre as faixas, porém entre “Qual o Som da sua Arma” e “A Voz da Revolução”, os canais são trocados, a sintonia muda, poderíamos dizer que a violência da guerra fratricida operada pelo tráfico de drogas em nosso país é direcionada ao verdadeiro inimigo: o Capitalismo.
Há um esclarecimento das leis, do tráfico e do sistema mas em vias de uma outra política e uma outra ética. Neste sentido, a sonoridade não poderia ser outra. O Bate-Cabeça se faz primordial como veículo sonoro para a mensagem revolucionária. É a expropriação de touca, a união da foice e do martelo, símbolo atualmente fora de moda no rap feito por “vencedores”. A inserção do hino da Internacional, junto a um skit de filme sobre consumismo, deságua numa crítica pesada e atualizada ao capitalismo.
O artista mineiro pesca o refrão do Baiana System e produz uma associação de última hora á uma das pautas que rapidamente foram esquecidas pelos trabalhadores brasileiros, se é que eles chegaram a tomar contato com a discussão do fim da escala 6×1. Tudo isso embalado em beats pesados, onde FBC abre mão de artimanhas que ele próprio domina para a construção de versos intrincados. Operando com frases/versos diretos.
Tudo ocorre como num show Bate Cabeça, não mais como em um “Baile” e sobretudo desaguando na rua. Por sua conta, FBC descreve a natureza artificial do capitalismo, naturalizado e que encontra em Assaltos e Batidas exemplos simples de como a luta de classes é de fato o motor da história, desde quando a raça seja levada em consideração nesse processo.
Não há nenhum traço de arrivismo, por parte do que FBC entrega em Assaltos & Batidas, ele consegue aqui recapturar a energia presente na União Bate Cabeça e redirecioná-la para o lado da revolução, sem precisar de palavras de ordem já gastas. Os gritos todos parecem ser direcionados a uma questão:
“Tudo me pertence, porque eu sou pobre” Jack Kerouac

Dito isso, não pode ser privilégio de um estado opressor a hegemonia da violência, porém não podemos seguir nos matando enquanto eles próprios riem e seguem lucrando com a força do tráfico de drogas. As facções operam uma guerra fratricida em nome do lucro que não fica na favela, sobretudo que não é redistribuída entre os iguais, e por fim adoecem e enfraquecem o povo, como a AMBEV e seus congêneres.
Com um fino apuro em perceber as forças motrizes de nossa sociedade, FBC traz questões muito pouco debatidas no rap atualmente, como o fato de que hoje são mulheres solteiras que são chefes de família, em quase metade dos lares no Brasil. Em “Me Diga Quem Ganha” que conta com a produção do Coyote Beatz e Pepito, com os DJ Cost riscando em alta, FBC traz essa pauta juntamente com a noção de que a Guerra às Drogas, serve apenas ao genocídio do povo negro.
O movimento criativo do FBC segue de modo inventivo, prospectando lugares novos em nome de antigas sonoridades, mas de modo solitário, o que nos faz antever que não se trata de um revival. Da forma como tem se apresentado, não há nenhuma nostalgia do passado, as ideias estão no lugar certo e em um esforço de comunicação imediata, com quem o MC parece entender ser seu novo público e consequentemente uma nova fatia de mercado a ser conquistada.
Abraçando as contradições que vivemos em nosso país e buscando não se resolver, mas sobretudo ampliar seu alcance, FBC volta a um discurso que parecia demodê da forma que foi apresentado em Assaltos e Batidas, mas que na primeira audição demonstra como ainda há espaço de manobra suficiente para quem alcançou o grande público. Enquanto grande parte dos artistas que alcançaram o mainstream se comprazem em permanecer repetindo os mesmos discos ao longo de 5 anos ou mais, FBC segue trocando de pele a cada novo lançamento.
Quando do lançamento de SCA em 2018, eu chamei o disco de uma obra tipo ocupação, a resistência política e a uma ode a revolução chegou agora, uni-vos.
-Assaltos & Batidas, FBC segue construindo uma obra completamente fora da curva!
Por Danilo Cruz
Danilo
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