Depois de priorizar as atrações femininas do SESC Jazz 2022, o Oganpazan finaliza a cobertura da edição 2022 do festival.
Com programação que compreendeu dos dias 5 ao 23 de outubro, o festival conseguiu oferecer diversas ramificações Jazzísticas diferentes, contextualizando o público com relação a produção mundial do estilo.
Exploding Star Orchestra
Pensando nesse sentido, o show da Exploding Star Orchestra foi o espetáculo perfeito para abrir a quarta edição do festival. Grupo dos Estados Unidos que conta com direção do cornetista Rob Mazurek, a Exploding Star Orchestra conta com mebros de diferentes partes dos Estados Unidos, como Filadélfia, Chicago e Nova York, por exemplo, além de contar com músicos de São Paulo na apresentação, como Maurício Takara (percussão), Guilherme Granada (sampler/voz/percussão/teclado), Thomas Roher (rabeca/saxofone soprano) e Rodrigo Brandão (vocal).
Ativo na cena norte americana desde 2005, a Exploding Star Orchestra faz um som que aproxima a música orquestrada do Jazz-Funk, com arranjos que apresentam um quê sinfônico em alguns momentos, além de contar com excelentes instrumentistas no apoio.
Um deles é o saxofonista James Brandon Lewis, natural de Buffalo, Nova York, um célebre nome do sax moderno, principalmente para quem gosta de improvisação e inovações harmônicas. Com 9 discos solo debaixo do braço, o cidadão que possui fãs como o saxofonista Sonny Rollins, está trilhando seu próprio caminho e foi bonito assistí-lo junto da Black Star Exploding Orchestra.
Nduduzo Makhathini
Um dos shows mais bonitos da edição 2022 do SESC Jazz, sem dúvida alguma, foi a apresentação do sul africano Nduduzo Makhathini. Pianista que vem ganhando notoriedade nos últimos anos, especialmente em função de seus 2 últimos discos de estúdio (lançados via Blue Note), o arranjador veio acompanhado por seu quarteto, formado por Omagugu Makhathini (voz), Géraud Portal (baixo), o saxofonista Linda Sikhakhane e o baterista Nasheet Waits.
Com um repertório bastante calcado em seu último lançamento, “In The Spirit Of Ntu“, liberado em maio de 2022, o também professor e pesquisador mostrou o motivo pelo qual seus shows estão todos esgotados. Nunca assisti um show de Jazz onde o grupo tocasse de maneira tão igualitária. Se você não soubesse que o Nduduzo era o líder, seria praticamente impossível sugerir algum outro nome como optação, justamente pela força do coletivo que envolve a concepção de sua música.
Com influências que vão desde a música Zulu até os grandes mestres do Jazz norte americano, Nduduzo faz hoje um trabalho único no cenário, com um talento especial para criar arranjos que carregam luz própria e que valorizam a circularidade da música e da espiritualidade africana.
Menção honrosa para o baixista Géraud Portal, que conduziu harmonias muito complexas no baixo acústico, além da cantora Omagugu Makhathini que utilizou sua voz como um instrumento e mostrou grande técnica vocal, com vocalizes muito sensíveis. O saxofonista do grupo mostrou controle total sobre a articulação de suas ideias, complementando as complexas ideias harmônicas e melódicas de Nduduzo. Já o baterista Nasheet Waits, colocou toda a sua experiência ao lado de lendas da improvisação livre (como Roscoe Mitchell) e conduziu o set de maneira brilhante, tocando com pulso firme, trocando olhares com o pianista durante toda a performance.
Orquestra Afrosinfônica
Conheci o trabalho do maestro Ubiratan Marques, assistindo aos shows do mestre Mateus Aleluia. Nessas performances, Ubiratan geralmente toca piano, acompanhando Mateus de maneira brilhante. À partir dessas apresentações, tomei conhecimento que Ubiratan tratava-se de um tesouro e fiquei particularmente impactado quando conheci a Orquestra Afrosinfônica.
Com um time de 23 músicos, a orquestra entrega um trabalho musical fruto de muita pesquisa e que conecta a música preta brasileira com outras estéticas da mãe África. Criada em 2019, a orquestra conta com 2 discos de estúdios lançados (“Branco“, liberado em 2015 e “Orin, a Língua dos Anjos“, lançado em 2021). O segundo disco inclusive concorreu ao Grammy Latino e a força desse repertório foi plenamente absorvida por um público que assistiu o espetáculo absolutamente catatônico com um projeto tão sensível frente as matrizes africanas.
Ubiratan não só coordenada as ações sentado ao piano, como também olha nos olhos de sua banda em todos os momentos. Percebe-se uma conexão inoxorável entre os músicos e a influência de diversas estéticas que coexistem de maneira harmônica, como os vocais, claramente inspirados pelos terreiros. Os arranjos guiam o público numa verdadeira jornada, enquanto os toques da Bahia marcam o pulso da história.
Ray Lema
Um dos shows que tiveram seus ingressos esgotados quase que instantaneamente – junto com o Kokoroko – o show do Ray Lema trouxe um pouco da filosfia musical do compositor congolês, radicado na França. Pianista experiente – com passagens pela banda de Fela Kuti e pelo Balé do antigo Zaire – Ray mostrou seu repertório multifacetado, surpreendendo o público brasileiro com seu conhecimento de música brasileira.
Assim como Nduduzu Makhathini, Ray ofereceu uma visão pouco óbvia, não só sobre o piano, mas principalmente sobre a importância da pesquisa e do resgate da música negra para se entender alguns dos desfechos musicais do groove contemporâneo.
Fotos: equipe SESC
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