Anjo Gabriel e o retorno triunfal da Psicodelia Progressiva Pernambucana, a banda chega ao seu terceiro registro em disco, confira

Um dos discos mais inventivos do Rock nacional – com foco na produção da última década – é de Pernambuco. Terra abençoada que hoje segue exportando artistas das mais diversas arestas – como o Jazz do pianista Amaro Freitas – o estado continua efervescente, com diversos grupos trabalhando as brasilidades com uma abordagem bastante genuína e interessante.
Quando o assunto chega no meandro do Rock, uma discussão se faz necessária. Muito se fala à respeito da atenção que o som que faz o seu vizinho chamar a policia tem recebido. Tem gente que acha que o Rock ‘N’ Roll está sendo menos escutado, outros “culpam” a relevância do Hip-Hop e outros gêneros, por exemplo (oi?), e ainda tem meia dúzia de xarope que acha que está tudo bem, segue o jogo.
A questão é que o balaio do mosh segue vivo, os grupos estão ativos, mas de fato, o estilo já não tem o mesmo público e relevância de outrora. Motivos para isso existem vários, desde a falta de criatividade das bandas – chupinhando pentatônica do Sabbath com letras sobre a tríade: mulher, cerveja e maconha – até a falta de qualidade estrutural na música e o perfil reaça dos grupos e de um público cada vez mais resistentes ao novo, fan boy de medalhão.
Num contexto amplo, esse estereótipo acabou sendo cascateado para outros subgêneros, como a Psicodelia e o Progressivo, por exemplo. Esse fato com certeza influencia para que discos de fato muito interessantes – como o auto intitulado do grupo Anjo Gabriel – cheguem ao seus ouvidos. Terceiro trabalho de estúdios dos Hippies embebidos na conserva de gravações analógicas, “Anjo Gabriel” é o trabalho que fecha a primeira trinca de uma história que começou lá atrás, em 2011, com o lançamento do marcante “O Culto Secreto do Anjo Gabriel“.
Disco que mostrou a riqueza do Kraut do grupo, a gravação que saiu até em vinil duplo colorido fez barulho no cenário europeu e foi sucedido por “Lúcifer Rising”, já 2 anos depois, em 2013. Uma proposta de trilha sonora alternativa – para o curta metragem de mesmo nome – do cineasta americano Kenneath Anger, o disco foi bem recebido e manteve o grupo em ascensão.
Os 2 trabalhos colocaram o Anjo Gabriel em evidência no cenário nacional, além de mostrar facetas diferentes do projeto, no entanto, passados todos esses anos, a formação que antes contava com Marco da Lata (baixo), Cris Rás (guitarras), Andre Sette (órgão/sintetizadores/theremin) e CH Malves (bateria), hoje surge com outra cara para o retorno aos estúdios, após 7 anos. Por isso esse longo intervalo, foi necessário um período de transição para a re-maturação dessa jam.
Atualmente a configuração da banda é a seguinte: Júnior do Jarro na bateria – também creditado no primeiro disco do Anjo Gabriel – Marco da Lata (baixo), Phillippi Oliveira (guitarra) e André Sette (órgão/sintetizadores/theremin).
Foi com esse quarteto que o terceiro registro foi cunhado. Depois do play, todas essa fases e esse novo momento histórico conseguem ser traduzidos dentro do universo expansivo do combo. Com bastante repertório, os membros são capazes de conduzir a audição com bastante leveza e com uma abordagem orgânica, além de um processo de gravação completamente analógico. Surge uma nova linguagem, mas ela dialoga e mantém a essência da identidade dessa história vibrante que é a cozinha desse projeto.
Track List:
“Suíte Claralice”
“Resiliência Parte I”
“Resiliência Parte II”
“Mantra II”
Em “Anjo Gabriel”, lançado no dia 28 de abril de 2020 – com exclusividade aqui no Oganpazan – a banda ressurge com um trampo de inéditas impecável debaixo do braço, sempre com ambiências pesadas, bastante inventivas e passagens que impressionam pelo brio criativo, pela capacidade técnica, além feeling dos músicos.
Desde a inauguração do disco, com a “Suíte Claralice”, o grupo já estabelece seu som. Extremamente precisado, bem arranjado e com espaços para que todos os elementos possam influenciar no curso do tema, é notável a capacidade para criar e harmonizar momentos antagônicos entre si, sem perder a fluência e a unidade, talvez dois dos maiores pilares quando o assunto é um som de infinitas possibilidades, como o Rock Progressivo.
Essa questão da unidade apesar das variações é uma característica bastante sólida presente nessa gravação e o flow de todo registro parte dessa primeira catarse. A guitarra bastante oportuna de Phillippi Oliveira duela de maneira heroica com as teclas e o theremin. Depois da metade da suíte, seus ouvidos ainda são surpreendidos por um animalesco solo de bateria e quando o seu corpo se dá conta, já estamos no universo paralelo da próxima faixa.
Outra suíte, dessa vez dividida em parte I e II, “Resiliência” pode ser vista como um som símbolo desse novo trampo de inéditas. Foram 7 anos de intervalo pra chegar até aqui e esse processo com certeza teve altos e baixos, por isso as passagens são tão sinuosas e antagônicas entre si.
Na parte I o som é mais cristalino, já na segunda, o peso – uma característica marcante do DNA do Anjo Gabriel – domina o cenário, mas ainda cria um plano de fundo que ganha cores dada à expressividade da canção. É como se a parte I mostrasse uma banda antes e depois desse processo que com certeza foi doloroso, mas que no fim ressurgiu com um trabalho no mínimo muito rico e competente.
No último tema, “Mantra II”, o grupo conta com novas investidas da percussão de Amarelo (ghost member do grupo junto com o sinth e órgão de Diego Drão). Além dele, ainda temos o violino de Maísa Nascimento, o Didgeridu de Rama Om e os vocais de Schelly Santiago e Lucas Brandão no coro que incita o tema, além da percussão de Rodrigo Félix e o oud – instrumento similar ao alaúde – de Rodrigo Gondão.
“Mantra” II” é uma faixa épica que encerra bem o disco. Ela consegue condensar a capacidade que a banda possui para criar temas que contextualizem o imagético, mesmo que numa construção quase que apenas instrumental Uma aula de Rock Progressivo de fato, esse disco com veia amplamente psicodélica valoriza a música nordestina e emoldura suas influências num coquetel cósmico de Riffs embalsamados pelo Krautrock.
Muito além de rótulos e o vazio revival do Classic Rock, esse disco é destaque do calendário independente em 2020. Os Hippies vão dominar o mundo um dia. Abram os ouvidos.
-Anjo Gabriel e o retorno triunfal da Psicodelia Progressiva Pernambucana
Por Guilherme Espir
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