O projeto Ancestralidade Musicalizada chega ao segundo episódio reafirmando as raízes ancestrais do real hip hop afro baiano!
Em muitos momentos somos colocados frente a frente com a força da negritude e infelizmente não conseguimos reconhecer os seus traços mais constitutivos. Para todo o/a amante da música produzida no século 20, ouvir música, qualquer que seja a música de origem pop que escutemos é entrar em contato direto com a imensidão genial da diaspóra. Se se está ouvindo metal escandinavo, ou mesmo o punk irlandês é necessário lembrar que o rock é negro em sua origem; Se curte música eletrônica, deveria saber que ela provém em grande medida da música jamaicana.
Quando falamos em hip hop nacional, em geral nos referimos aquilo que foi ou é produzido no eixo Rio-São Paulo. Um erro, e um apagamento de cunho xenofóbico que a muito já deveria ter sido superado, mas que segue sendo reforçado pela prática de ouvir o óbvio, o mais fácil, aquilo que lhe chega sem o mínimo de reflexão. São diversos os estados que possuem uma história muito rica quando se trata do hip hop e do rap mais especificamente, e a Bahia se destaca nesse quesito. Muito antes da ancestralidade negra entendida como valorização das raízes culturais e religiosas se tornar um ativo no mercado do rap que busca o mainstream, o rap baiano já produzia com extrema qualidade e pioneirismo.
O projeto Ancestralidade Musicalizada é uma das iniciativas recentes produzidas na cena soteropolitana que melhor traduzem essa herança. Reunindo nomes de fundamental importância para nossa cultura, se unem numa perspectiva que é pedagógica em sua essência, comunicando através da arte toda a riqueza da nossa terra e dos nossos mais velhos. O projeto teve início com uma primeira edição filmada na feira de São Joaquim, trazendo os coroa do Opanijé, do Fúria Consciente, Aspri RBF, Mr. Dko e Rai Rimador. Muita história, muita rima, muita idéia pan africana, muito axé envolvendo a todos, e isso fica evidente no vídeo enquanto os MC’s percorrem as ruas da feira.
Em um beat com produção do Mr. Dko e do Aspri RBF e com a mix/master do grande DJ Bandido, a rapaziada manda uns versos pesados de uma Ancestralidade Musicalizada, ritmada e informada. Dentro de um beat com uma pegada reggae/ragga, com o refrão contando com a contribuição da Rosana Santos, a rapaziada versa sobre a força da negritude e a necessidade de unir-se em prol da cultura hip hop. Ali, nos primeiros passos do projeto já percebíamos o quanto as imagens e o som de uma Bahia preta, combativa e unida, carregava enquanto música rap, a força de nossa história.
E eis que agora em seu segundo momento, o projeto Ancestralidade Musicalizada dá um passo a mais e traz um bonde pesado, reunindo a nata de nossa história e novos valores. Com as imagens captadas em dois lugares chaves de nossa cidade, Dique do Tororó e no Parque São Bartolomeu, lugares sagradas para o candomblé, o trabalho traz mais exuberância e eleva o nível. Não é resgate pois quem está presente no clipe são forças do rap baiano em atuação desde os anos 90 do século passado. A direção audiovisual ficou por conta de Lázaro Erê e Lane Silva, com a captação de imagens de Lane Silva e Neghet, que ficou também responsável pela ediição.
Ainda se está por contar com a riqueza de detalhes de que é merecedor, a trajetória e a importância do Fúria Consciente para a nossa história, Duendy Primeiro e Yogi Nkrumah, são coroas que não fazem feio no beat do DJ Bandido. Quilombo Vivo representado, o DJ, talvez um dos que mais produziu na história do rap baiano, preparou uma cama de variações rítmicas, onde os participantes deitam e rolam com técnicas variadas, funk, trap, boombap atravessam os mais de 7 minutos da peça. E não paramos por aqui. O Opanijé, outro grupo fundamental da nossa história chega pesado com Lázaro Erê e DumDum Afolabi, que a cada trabalho saca uma caixa de ferramentas variadas imprimindo flows os mais alucinados.
Como Aline Negríndia tem resgatado muito bem, em seu canal no instagram através de uma série de lives com figuras fundamentais para a construção do hip hop baiano, as mulheres sempre protagonizaram na cena. E a parte dois do Ancestralidade Musicalizada traz uma pioneira da cena, Búfalo Yaiá, que fez parte de grupos fundamentais e hoje atua no Madamma. Juntas a ela, Udi Santos e Kainná Tawá novos valores que tem apresentado excelentes trabalhos, e que chegam pesadas nessa track. Aspri RBF, Mr. Dko e Black Rai Rimador, são outros três veteranos que não fogem da batalha e que aqui cada um ao seu modo contribuem para o alto nível do trabalho.
A grande surpresa, e elemento de extrema felicidade para nós, foi ver a presença e a atuação do mano Pito, presente neste trabalho. Recentemente tivemos acesso em nossas pesquisas a algumas faixas do clássico grupo R.V. (Rivais da Violência) e nessa aparição de um dos seus MC’s é que podemos talvez perceber a imensa importância de projetos como essa Ancestralidade Musicalizada.
Trazer a luz, criar um espaço onde possam se manifestar os nossos mais velhos, é como diz Duendy colocar as crianças na sala para aprenderem. O mercado tende a apagar a história, em troca da última novidade surgida. E nunca se compreenderá qual o papel da cultura hip hop aquele que for deixado nessas mãos. O Ancestralidade Musicalizada é uma iniciativa que consegue ter a potência de ensinar que o rap baiano é forte desde sempre, inovador, preto e apegado as suas raízes culturais, ao reggae, ao rock, ao samba, ao candomblé!
Os participantes no primeiro clipe, são ancestrais que seguem musicalizando nossas dores e alegrias, nossas lutas e curtições, ao longo dos anos sem parar. Nessa segunda parte do projeto, trazem outras figuras necessárias que estão na batalha a pouco, ou a mais tempo. promovendo a união entre gerações, e isso precisa se ampliar. As novas gerações possuem uma capilaridade maior e melhor, em termos de internet, algo necessário hoje. Porém, isso precisa estar firmemente alicerçado, e nesse sentido é bonito ver esse diálogo.
Fazemos votos de que hajam mais edições do Ancestralidade Musicalizada, que esse projeto inclusive possa tomar as ruas, com festas, circuito de debates e palestras, eventos que tragam uma grade reunindo o velho e o novo, a tradição e as novidades. Nos parece que somente assim teremos uma cultura fortalecida para além dos números, dos views e likes.
-Ancestralidade Musicalizada é coisa forte no hip-hop baiano
Por Danilo Cruz
Danilo
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