Slammer e MC, a jovem Afropecado lançou um excelente audiovisual em sua estréia no Rap com a música “Paraíso Baiano”

A jovem Afropecado é a prova de que o cenário baiano, de dimensões geográficas que se equipara a diversos países europeus,segue se renovando. O fato de não possuímos uma estrutura profissional não tem sido empecilho para o florescer de artistas nos mais diversos municípios e regiões do estado. O sul baiano não é exceção, muito pelo contrário, é uma região do estado que nos presenteou com a banda mais inventiva da história do rap nacional: OQuadro.
Recentemente, a MC e Slammer Afropecado lançou seu primeiro single em um audiovisual fantástico: “Paraíso Baiano”. Mesclando o orgulho de suas origens com a denúncia dos problemas vividos em sua cidade, a jovem apresenta um cartão de visitas que nos mostra de cara, que ela chegou pra se firmar. A cidade de Itacaré, localizada no litoral sul da Bahia é mundialmente conhecida como um paraíso para o surf e suas belezas naturais únicas no nordeste brasileiro fazem do turismo a sua principal fonte de renda.
É sobre a força ancestral negra presente em Itacaré e transformada em mera mão de obra para a exploração de empresários brancos, que a arte de Afropecado se levanta neste seu primeiro single. A música teve produção do Nabuco no Beat com a mixagem e masterização no Studio M.L.B.P de Itacaré. Já o audiovisual conta com o roteiro em parceria entre Afropecado e Raone Calixto que também assina a direção do clipe, artista de Itabuna, e a direção artistística por Afropecado. Buscando conhecer um pouco mais de sua trajetória conversamos rapidamente com a artista, confira:
Organpazan – Como a cultura Hip-Hop chegou em você aí em Itacaré? Você é da cultura do Slamm também né? Fala um pouco sobre como se deu e como está sendo movimentada a cultura na sua cidade.
Afropecado – Eu me recordo de alguns fatores que me fizeram ter contato com a cultura hip-hop. A escola foi um deles. Desde o primário, eu tive acesso a conteúdos didáticos que abordavam os elementos nas aulas de artes, principalmente o MC e o graffiti, muito pela influência de uma professora em especial, chamada Juescely Magalhães, que sempre trazia a cultura urbana para dentro do contexto escolar, mesmo que de uma forma não tão aprofundada, até porque o próprio plano de ensino limitava isso. Mas foi o suficiente para começar a despertar meu interesse pela cultura.
Em contraponto a isso, fora da escola, fui criada em um contexto muito católico, que acabava me fazendo ter mais acesso a outros estilos musicais. Porém, eu já sentia uma identificação com essa cultura hip-hop, desde a musicalidade até o estilo de roupas, cabelos, atitude e comportamento de questionar e denunciar. Fui crescendo e acompanhando alguns movimentos de artistas da cena local. Lembro até que chegou um momento em que eu dava uma fugidinha da igreja para poder assistir à Batalha da São Miguel, que acontecia muito próxima da Igreja São Miguel que eu frequentava.
Depois disso, fui criando mais autonomia no que eu ouvia, comecei a escrever meus próprios textos, saí da igreja e fui conhecendo mais sobre a cultura. Minha primeira identificação como parte do hip-hop foi como poetisa marginal, e eu e uma amiga escrevíamos e recitávamos quando rolava evento na Casa do Boneco de Itacaré, no Sarau de Preto, que era um projeto do qual eu fazia parte e ajudava a organizar quando era estudante do IF Baiano em Uruçuca, além de outras atividades para as quais passei a ser convidada.
Na minha cidade e região não havia nenhum Slam, meu contato com a poesia enquanto batalha se deu a princípio por conteúdos que eu buscava no YouTube. Foi quando conheci o trabalho de Nega Fyah e o Slam das Minas BA de Salvador, que foi a primeira batalha de poesia falada com regras oficiais na qual participei. Depois disso, batalhei em outros Slams e me tornei co-fundadora do Slam Marginal em Teixeira de Freitas, onde estou passando uma temporada atualmente.
Isso me faz pensar sobre a cena local. Eu gostaria muito que não tivesse que me deslocar para a capital para ter acesso a um Slam naquela época, por exemplo. Tem muita gente talentosa em Itacaré, MCs, DJs, grafiteiros… Mas sinto que a cena do hip-hop está meio morna atualmente por diversos motivos. Não que as pessoas envolvidas no hip-hop da minha cidade tenham abandonado a cultura, mas ouso dizer que nem sempre o “por amor” garante a manutenção das coisas. Tem muito artista bom sendo mal aproveitado, e sem uma organização e construção coletiva, também é quase impossível fazer algo dar certo. Fico feliz que no último ano a Batalha da São Miguel, que estava adormecida, tenha voltado à ativa, despertando muito interesse nas crianças que participaram e fizeram com que fosse necessário criar uma categoria infantil. Isso me faz perceber que ainda existem sementes sendo germinadas.
Organpazan – Paraíso Baiano é oficialmente sua entrada no rap, né? Qual a importância da escolha desta temática para você?
Afropecado – Eu já me apresentava enquanto MC antes mesmo de ter lançado “oficialmente” um som, mas posso dizer que Paraíso Baiano é a minha reivindicação enquanto uma profissional, eu já estava no Rap antes, mas me organizar enquanto artista lançar meu trabalho nas plataformas digitais é a minha entrada oficial no mercado.
Paraíso Baiano tinha que ser o meu primeiro lançamento, eu penso que não teria uma forma melhor, do que começar reafirmando muito bem o território de onde eu venho, me apresentando pra minha comunidade, levando as narrativas veladas e invisibilizadas da minha cidade e que têm total influência nos meus acessos e contração enquanto cidadã e artista.
É importante porque só tem verdades, e como meu coroa sempre me diz “a verdade tem que ser dita, conhecer a verdade liberta”.
Organpazan – A questão do turismo predatório e da exploração da mão de obra local é um tema de certo modo inédito no rap baiano, sobretudo em se pensando proveniente de locais como Itacaré onde a cultura preta local segue sendo apagada pela playboyzada do surf que “colonizou” a cidade né? Comenta um pouco dessa situação como você achar melhor.
Afropecado – Sim, esse turismo predatório, essa colonização moderna faz parte do cotidiano da minha cidade, mas é velada através da premissa “sorria, você está na Bahia”, “Itacaré, paraíso baiano”. Eu concordo que Itacaré seja de fato uma cidade linda e aconchegante, e que o turismo é uma atividade multifacetada que tem o potencial de movimentar diversos âmbitos, mas a forma como ela é orquestrada é extremamente desproporcional e exploratória.
O nativo está colocado apenas em posição de servir e entreter, a cultura preta local sobrevivendo a duras penas e lembrada apenas quando vai acontecer algum evento cultural, ou alguma acadêmica vai na comunidade usá-las como objeto de estudo em uma pesquisa, tirar fotos, fazer filmes, e na maioria das vezes a população nem chega a ter acesso aos resultados disso. As formações que são levadas pra cidade ajudam a fazer a manutenção desse pensamento limitante. As coisas que eu falo na minha música “Paraíso Baiano” diz tudo isso de forma curta e direta. Até proponho uma solução um tanto quanto ousada: o turismo de base comunitária. Essa letra foi feita através das minhas vivências e das escutas dos meus mais velhos, que não podem falar pois já estão meio que reféns disso.
Ao chegar em um território, é importante entender que já existe um povo, uma cultura, e que respeito e escuta são o mínimo.

Organpazan – Conta para gente a força e a importância do resgate que você faz da tradição da “Saída da Jiboia” para a comunidade local.
Afropecado – Não tem como falar de Itacaré sem mencionar sua cultura. A volta da jiboia, em especial, é uma manifestação cultural que nasceu no meu bairro, o Marimbondo, um dos primeiros da cidade, localizado “da igreja pra cá”. Foi importante trazer isso à tona, pois é algo que desperta um sentimento muito familiar e de comunidade entre as pessoas da cidade. Todos que são de lá sabem como reagir ao ouvir “olha a Volta da Jiboia”, e eu acho que isso nos conecta como povo. Além disso, quem não conhecia e não entendeu a referência do “se mamãe quiser”, passou a conhecer.
Eu diria que essa citação e participação das matriarcas guardiãs dessa manifestação são mais uma simples homenagem que eu quis fazer e eternizar dentro do projeto “Paraíso Baiano”. Foi muito importante para mim sentir o acolhimento da minha comunidade e ter contato com a minha ancestralidade para entender que estou trilhando os caminhos certos.
Organpazan – Quais os próximos passos de sua carreira, o que podemos esperar da Afropecado?
Afropecado – Tem muita coisa para acontecer, tento conciliar os projetos da “Mariellen” e da “Afropecado”. Mas ainda quero soltar vários trabalhos, fazer colaborações com artistas que gosto e admiro, e movimentações para somar na cultura hip-hop. Faço tudo no tempo da deusa (no caso, a deusa sou eu kkkk), mas uma coisa que podem sempre esperar é que só coloco no mundo trabalho de qualidade e música boa.
Organpazan – Qual o sentido e porque seu nome artístico é Afropecado? Explica pra gente.
Afropecado – Eu fui criada na Igreja Católica. Meus primeiros contatos com música, instrumentos musicais e dança se deram através daquele contexto religioso. Ao mesmo tempo, sempre fui uma criança questionadora, curiosa e cheia de “mas por quê?”. Muitas vezes, recebia como resposta “porque é pecado”. Conforme fui crescendo, me desvinculei da igreja, observei hipocrisias ao meu redor e entendi que além de ser um lugar religioso, é também um ambiente social de pessoas cheias de ego que muitas vezes querem podar suas vontades. Se tudo que eu tinha desejo de fazer e explorar era pecado, então eu sou o pecado. E assim nasceu, Prazer, Afropecado.
-Afropecado estreia no Rap. diretamente de Itacaré, com o audiovisual “Paraíso Baiano”
Por Danilo Cruz
Danilo
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