Desc
obrir um artista é sempre ter acesso a um mundo por vir ou a um caminho trilhado. Uma navegação pelas águas que formam e formaram a trajetória musical da arte e do mundo. Marcus Miller é um baixista de longa e premiada carreira, mas confesso que não o conhecia até esse recente lançamento: Afrodeezia (2015). E após algumas audições desta maravilhosa viagem, cheio de swingue e técnica pelo universo da música negra, guiado pelo estilo jazz, não dava mais para continuar sem saber quem era essa figura rara. Precisa correr atrás do mapa do tesouro.
Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que esse disco é um último porto dentro de longa e prolifica carreira dentro do jazz, cheia de discos aclamados e colaborações com outros grandes nomes da música como: Miles Davis e Michel Petrucciani, pra ficar em dois gigantes. Marcus Miller se insere numa linhagem grandiosa de baixistas de jazz, que possui nomes como Charles Mingus, Ron Carter, Jaco Pastorius (sua maior influência), coisa que convenhamos não é fácil.
Afrodeezia é um disco que resulta do trabalho de Marcus Miller junto com a UNESCO como porta-voz do projeto Rota dos Escravos. E também é sua estreia na Blue Note records. Para quem é minimamente familiarizado com a música da Diáspora, o disco é um delicioso trafegar pelo imenso mar de sofrimento do povo negro, uma máquina abstrata que desenvolve a diversidade de ritmos deste mundo novo. Ritmos criados como resistência aos grilhões e a opressão que os africanos sofreram ao chegar na América. Onde aportamos, os grooves feitos a base de slaps (técnica que Miller domina) nos conduzem por uma miríade de ritmos e músicos africanos e afro americanos, o que nos propõe um dialogo intenso entre a música da diáspora e a música africana. Esse dialogo projeta-nos a construção da unidade capaz de nos unir.
Por estas águas podemos encontrar desde o samba jazz We Were There, uma composição de Miller com Djavan, contando com a participação do percussionista brasileiro Marco Lobo. Até as bases eletrônicas e programações de Mocean Worker, por cima das quais seu baixo desfila monumentalmente, acompanhando o clássico rapper Chuck D na forte I Can’t Breathe. Miller vai do jazz-funk que abre o disco a swingadíssima Hylife (com forte presença de músicos de percussão de Gana, e o vocal do baixista também Ganês Alune Wade), até uma versão de Papa Was A Rolling Stone dos Temptations, com a guitarra maravilhosa do Wah Wah Watson que tocou em muitos dos hits antigos da banda.
É esse ir e vir transcontinental que dá a tônica do disco, possibilitando-nos desfrutar tanto das qualidades técnicas instrumentais das faixas, como também das diferentes construções rítmicas e os diferentes sabores que essas melodias nos oferecem.
Como eu dizia lá no começo texto, conhecer um novo artista é realmente um passeio pelo mundo. No caso do Marcus Miller seu baixo nos conduz tranquilamente de porto em porto, em busca do som que é essencialmente fruto do mundo negro, pela genialidade, pela resistência, alegria, sofrimento e contemplação que possibilitaram a esses heróis deixar um legado, o maior legado cultural que o século vinte produziu: a música negra!
Ficha técnica:
Gravadora: Blue Note – Produção: Marcus Miller – Ano: 2015
Adam Agati – Guitarras; Ambrose Akinmusire – Trompete; Cliff Barnes – Orgão, Piano; Aline Cabral – Vocais; Louis Cato – Djembe e Bateria; Etienne Charles – Percussão, trompete; Alvin Chea – Vocal, Coro; Chuck D – Vocal; Adama Dembelé – Percussão, Vocal; Michael Doucet – Violino; Andrea Dutra – Vocal; Robert Glasper – Fender Rhodes; Alex Han – Saxofone Alto e Soprano; Lalah Hathaway – Vocal; Cory Henry – Orgão; Lamumba Henry – Djembe, Percussão; Lee Hogans – Trompete; Ben Hong – Violancelo; Munyungo Jackson – Percussão; Keb’ Mo’ – Guitarra; Guimba Kouyate – Violão, Vocal; Marco Lobo – Percussão; Marcus Miller – Baixo, Piano, Arranjos, Sintetizador; Mocean Worker – Programação de Bateria, Guitarra; Roddie Romero – Acordeão; Julia Sarr – Coro; Mamadou Cherif Soumano – Kora, Vocal; Micahel “Patches” Stewart – Trompete; Christiane Correa Tristão – Vocal; Alune Wade – Coro, Vocal; Brett Williams – Piano
Danilo
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