Coltrane é um santo. Sua música, uma dádiva a humanidade. Seus fiéis, como o AC Jazz, mantém viva a sua palavra!
A música de Coltrane é uma igreja, para instrumentistas e ouvintes mundo afora. Como um eco perpétuo, sua música virou até religião. Ela ocupa um espaço incalculável no tempo e espaço, transcendente frente ao tangível e o intangível, a matéria, o som, a composição, e improvisação.
São décadas de história, criando e expandindo fórmulas. A palavra Jazz chega até a dizer pouco sobre sua jornada, tamanho a profundidade do legado de Coltrane. Passando do Jazz mais tradicional até as raízes no Blues, os Spirituals e o Jazz Modal, com influência de diversos subgêneros e configurações musicais afiliadas ao Jazz, John foi um monge.
Ele viu na música seu retiro e fez de tudo pra criar, para se desafiar e o mais importante: desafiar os ouvintes. Com um domínio primoroso de linguagem, John também questionou a forma do som. Ele foi pioneiro em diversas frentes e sua música extrapolava a própria música.
Ouvir o sax do maestro alimenta a alma e dado que infelizmente não podemos ouvi-lo ao vivo em função da distância entre os planos do invisível, é importante presenciar a força de sua essência em espetáculos que buscam recriar essa mística.
Foi isso que o AC Jazz fez, numa inspirada quinta-feira no Jazz nos Fundos. Ao lado de Sidiel Viera no baixo acústico, além de Giba Favery na bateria e Marcelo Elias no teclado, o quarteto transportou o público para o infinito particular de “A Love Supreme”, uma obra prima que despensa delongas, lançado em 1965 e que mudou os rumos da humanidade.
Com 2 sets primorosos, o quarteto fez uma releitura vigorosa, munida de solos vertiginosos e com uma dinâmica bastante vibrante e muitíssimo bem delineada. Com o quarteto formando um combo extremamente sólido, maciço, indivisível mesmo, e munido de um domínio de repertório que deixou todos os presentes absolutamente consternados, foi notável como até mesmo a banda parecia estar vivendo um estado de pura elevação.
Foi libertador. Cristalino e extremamente claro. Ouvia-se tudo muito bem e cada uma das peças do quarteto estava completamente à vontade e imersa no universo do compositor. O baixo do Sidiel fez a condução de maneira ímpar, sempre com uma firmeza e com uma abordagem extremamente oportuna, respeitando o espaço como um verdadeiro gentleman do rabecão acústico.
Giba tocou bateria com rara expressividade, sentindo cada virada, sincopando o som com visão holística e com precisão digna de nota. Nas teclas, Marcelo fez um trabalho soberbo, recriando a âncora do som de McCoy Tyner com muito feeling, enquanto AC tocou com um nível de concentração absurdo, como se promover uma releitura desse repertório desse fosse carregar um piano de papel nas costas.
Se vocês tiverem a chance, assistam esse espetáculo. Ele alimenta a alma e o satisfação dos músicos era nítida. O sangue de Coltrane tem poder. Ele ressignifica a existência, contempla o passado e o futuro, sempre com o ímpeto de querer ampliar e nunca limitar o som, seja ele qual for, até por que no fim do dia são apenas rótulos e qualificar denominadores estéticos é vazio. A música de Coltrane preenche. Bate no fundo do peito.
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