A Sinergia apresentada em EP por Galf AC e Dr. Drumah é um movimento tão bem executado que parece um disco!
Em uma ação conjunta os artistas Galf AC e Dr. Drumah construíram o EP Sinergia (2022), lançado recentemente nas plataformas digitais e a sensação que nos é ofertada é a de estarmos diante de um disco cheio, um álbum. Dois dos grandes nomes da história e da atualidade do boombap nacional, apesar de não serem populares ao grande público, os caras se afinaram perfeitamente.
O mister Dr. Drumah e sua elegância groovada enviou um beat ao MC Galf AC que no ano de 2022 tem devorado beats com uma fome portadora de uma saúde de ferro, como cantou o poeta. E neste processo recebeu a devolutiva proposta de um EP, pronto, esta foi a gênese desta Sinergia. Uma cooperação que nos presenteou com um dos melhores EP’s de boombap under do ano no Brasil.
Se você é da turma onde os trabalhos destes artistas baianos não é popular, precisa pegar a visão. O Dr. Drumah aka Jorge Dubman (Ifá Afrobeat, Dubstereo) é dono de uma trajetória fundamental na música contemporânea brasileira. Além das duas bandas supracitadas, onde exerce o oficio de baterista, possui uma ampla discografia como beatmaker, tendo em Nu-Konductor (2021) – este ano lançado em vinil – seu último e exemplar trabalho. E é com esta batuta afiada – tal como estampada na capa de seu último álbum – que o beatmaker constrói toda a arquitetura sonora destes 17 minutos e pouquinho.
Neste sentido, o trabalho que Galf AC vem realizando em 2022, esta sua fome de tudo que o MC tem apresentado desde o ano passado quando deu início a uma enxurrada de lançamentos, foi coroada com o título de primeiro MC baiano a ter um disco todo produzido por Drumah. Somente este ano, Galf AC que já gravou com produtores do quilate de Giallo Point, lançou dois discos e dois EP’s. Não é pouco, pois também soltou clipes e duas lives sessions. Tudo isso você pode conferir clicando aqui.
A aliança que os artistas formaram se constitui de 9 tracks onde um sistema coeso se forma em favor da música rap. O insert que abre o EP Sinergia (2022) avisa mas é preciso que se explique para que não haja confusões: “A música vai te dar o mundo de graça”, mas você não será o dono do mundo. As portas que a música desta dupla vai te abrir são as da percepção. Pois é possível, se mover em termos de pensamento apenas ouvindo, produzindo outras possibilidades, outros mundos sonoros, quando só ela – a música – é o que importa como o groove do coração para as nossas vidas.

Não significa que os caras não querem viver da sua arte – como todos os outros artistas – nem que eles sejam meros sonhadores iludidos, são sim produtores, compositores utópicos, pois sempre produzem em direção a linha do horizonte, como explicou o grande Eduardo Galeano. A mescla do conhecimento musical de pesquisador do Dr. Drumah às vivências do poeta da Belamita Galf AC, nos contempla com a produção de um EP de boombap enquanto espaço de vida, pensamento e revolta.
“Complicações na vida a gente sempre tem né, e tem uns intrusos que tenta atrasar Jow, a minha fé inabalável tipo Josué, que no flagrante se livrou antes do enquadro, show”
Com esses versos abre-se os trabalhos da dupla, com Galf AC deslizando suave sobre a base como um verdadeiro “Dr. Flow”, enquanto o outro doutor, o Drumah, apresenta aquela elegância no groove de quem conhece e é mestre do ofício, seja no orgânico ou no digital, ou se se quiser mesclando os dois. Já na faixa seguinte a coisa muda de figura no processo mesmo de continuidade entre uma faixa e outra. O que termina com um sample, em “Dr. Flow”, emenda com uma bateria na faixa seguinte e ecos, até se instaurar um clima de suspense e um telefonema e a voz do MC responde: “Flutuo no zoom zoom zoom, zoológico tá ativado”, eta desgraçaaaaaaa… Difícil conseguir se manter parado com esse legítimo bate cabeça.
Aqui, temos um excelente exemplo da Sinergia alcançada por Drumah e Galf, produtor e MC, dois artistas da cultura hip-hop nacional, bastante experimentados nos palcos e nos estúdios. A solução de continuidade encontrada por Drumah entre “Dr. Flow” e “Off-Axis”, as referências a aurea de reggae music ao incrementar ecos de vozes jamaicanas é algo que salta aos ouvidos. Galf Ac por sua vez, após deslizar com versos multi-referenciados no groove elegante da segunda faixa, abordando o caótico ambiente urbano e periférico, passa a sobrevoar a batida como uma harpia, nesta faixa três. Em menos de um minuto versando, o MC estabelece uma intensa e breve etologia dos animais que podemos todos devir…Aulas!
“O Tempo é Rei e nunca para com ele eu sigo”
Abra-se espaço aqui para a pintura que ficou a cargo do grafiteiro, MC e tatuador Dimak, e que captura muito bem esse olhar agudo rumo a eternidade, a consciência do tempo que é necessária para se fazer música e para viver. Em termos de História e mesmo de eternidade, de infinito. Galf AC tem tido um cuidado muito grande com as capas de seus discos, sempre trazendo uma produção visual muito própria e adequada a ideia presente.
A produção de “Seja Revolução” apresenta-nos uma quebra de diversos clichês e propõem uma visão religiosa de si e do mundo. A poética que Galf AC vem desenvolvendo em seus trabalhos nesta nova fase de sua vida e carreira, tem mesclado elementos que falam de ancestralidade, cristianismo desigrejado, suas heranças no punk e no grindcore, denúncias contra a destruição planetárias que vivemos até imagens poéticas que incorporam o universo, o cosmos. Tudo isso mesclado em versos curtos e de uma intensidade digna de haikais, partindo da vivência de um homem negro e periférico.
Nesta quarta faixa, Dr. Drumah produz um drumless que parece nos oferecer uma sonoridade gospel, o órgão segurando as notas em loop, enquanto os ecos das vozes parecem reverberar nas paredes de tábuas de uma igreja em alguma montanha esquecida da Jamaica. Cria-se um clima musical, uma paisagem sonora perfeita para este salmo urbano, negro e periférico que é a faixa “Seja Revolução”. A repetição do refrão ao final, nos oferece também essa aproximação com a música gospel, quebrando os clichês que muitos tilêlês pregam com ideias frageis que beiram a meritocracia e sem um clima musical que realmente demonstre a experiência que é revolucionar-se.
E neste contexto é muito interessante notar as antíteses que Galf AC produz, não apenas em ideias mas em movimentos contrários: “Versos ativos, neuroquímico causa vertigo, eu sou a náusea do sistema tendo embolismo”, antecede: “Veja a luz que rasga o céu em nossa direção, tudo é divino, amplifica tenha gratidão”. Nestes dois exemplos podemos ver tranquilamente não apenas antíteses mas sobretudo um movimento de morte e renascimento, cíclico. É neste nível que está a poesia do artista!
Com “Marujo” somos colocados em um porto seguro poético musical, com a dupla em plena conjunção astral e mais do que querendo ser estrela, produzindo uma nova constelação capaz de nos guiar pelos mares de um pensamento em paz consigo mesmo: “onde o marujo encontra o farol”. Esses “tripulantes da jangada” rimam, remam e remanescem de uma cultura que progressivamente vem morrendo aos olhos do grande público, mas que aqui em Sinergia recebe a devida artesania. É através desses encontros que as ameaças são colocadas a milhas e milhas de distância, pois potencializados que estão conseguem uma velocidade que os tira da corrida de ratos que é imposta pela indústria cultural ao rap.
Faixas das mais desafiantes ao flow do MC, o beat da música “Interestelar” é todo construído com um sample em loop agressivo, pontuando o ritmo no qual Galf encaixa toda a sua habilidade flowsmática. Infelizmente será difícil para muitos meter uma dancinha no tik-tok ou mesmo acompanhar a letra em shows, isso é que é foda…
“Somos a lâmina na carne, exército de preto, viva Zumbi dos Palmares”
A união desta dupla de excelência da cultura hip-hop e da música baiana fecha este extended play com uma tríade matadora. Aniquilando a supremacia branca, a mediocridade impulsionada pela indústria cultural e quaisquer elementos que possam diminuir o povo negro. É curioso, como não reconhecemos entre nós mesmos, trabalhos neste nível de excelência e nos potencializamos coletivamente. Ninguém é obrigado a nada, porém depois não fica enchendo o saco na internet falando sobre a falta de rap de verdade!
A dupla “Punhal Negro” e “Sinergia” podem ser tomadas como faixas complementares, pois é através desta sinergia conectada a verdade aqui presente que o EP pode ser compreendido como uma arma, como Fela Kuti pregava. Enquanto Loop (Outro) se configura naquilo que chamamos atenção acima: um comentário musical que nos leva a pensar na noção de alteridade em África e a importância da ideia de circularidade seja na ética africana, seja nas formas de produção musical da diáspora em geral, seja no rap de safra boombap em particular. O que certamente é o contrário da repetição vazia que não produz diferença alguma.
A prática artística da dupla ao longo de todo o trabalho produz sim repetições, mas que se configuram como um sistema interno e diferencial, levando-nos a crer que estamos diante de um álbum, apesar do tamanho. É aquela ampulheta no fundo de um olho sem corpo, o tempo em suspensão no olhar, que nos é “impulsado” pela música. Somos transportados e carregados nos braços da duração e aí a coisa termina. Neste momento o tempo volta a correr, e na hora dois sentimentos conflitantes nos toma: a raiva de que não existam mais outras 10 ou 20 faixas e a alegria de podermos ser contemporâneos e conterrâneos destes caras.
A capa de Sinergia é um trabalho do Mattenie (SP) sobre uma pintura do Dimak (BA), as vozes foram captadas na Cremenow Studio com exceção da faixa 7 que foi “capturada” no estúdio Caverna do Som do grande Irmão Carlos. A produção e mixagem é do próprio Dr. Drumah (Kzah 04) e a masterização ficou a cargo da Echorec Face aka Caio Bosco aka Radiola Santa Rosa.
-A Sinergia dos baianos Galf AC e Dr. Drumah, apresenta uma duração de disco!
Por Danilo Cruz
Danilo
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