A Disaster Cities acaba de lançar um novo EP em meio a pandemia. Sai o Sludge para a entrada do Trip Hop.
O isolamento social nos forçou a revisitar a nós mesmos. Como um eremita colhendo os cacos da solidão, enquanto caminha na áspera e quente areia do tempo, os músicos – que também são gente, hora veja só – foram muitíssimo afetadas por esse ainda incerto cenário.
Esses reencontros, por outro lado, não ficaram apenas ao alcance dos analistas que chegavam engomadinhos na Avenida Paulista. Não papai, enquanto o mundo gira – e nós seguimos com a paradoxal sensação de que tudo está congelado – vejo meus amigos músicos revisitando a si mesmos, diariamente, desafiando os nervos (durante horas) para conseguir tocar. Pra conseguir curar.
Nesse doloroso exercício, a aflição desse momento e um destemido olhar para o futuro, são as armas para que o cenário independente nacional continue resistindo, produzindo trabalhos preciosos e num momento elementar. Do Jazz ao Country, pode pesquisar ai que você acha um disco do underground brasuca que saiu durante a pandemia. É bom que você já pesquisa e mapeia a nossa vasta e tupiniquim produção. É o jeito certo pra não vacilar e colocar grupos como a Disaster Cities, por exemplo, dentro do seu radar de grooves.

E num momento onde é difícil enxergar beleza até no mais ensolarado dos dias, poder colocar os fones de ouvido e escutar trabalhos tão sensíveis quanto o novo EP do grupo (“An Ode to Isolation and Confusion, Pt 1“), lançado no dia 21 de agosto, é uma rara oportunidade de relaxamento em meio aos espasmos desse tempo quase relativo.
Segundo trabalho do grupo made in Chapecó, Santa Catarina, esse EP inaugura uma nova fase da banda formada por Matheus Andrighi (guitarra/voz) e Rafael Panegalli (vocal). A dupla natural de Santa Catarina fundou o grupo em meados de 2018 e saiu do sul pra colar em São Paulo. O objetivo? fechar um power trio ao lado do baterista Ian Bueno e lançar o debutante do grupo, o competente “LOWA“, ainda em 2018.
O trabalho foi muito bem recebido, mas a distância com o baterista (que gravou o primeiro disco) dificultou a fluidez e os próximos passos do projeto. Vale lembrar que na época do lançamento, o grupo já era um quarteto, depois que Cripa Cripensis chegou nos teclados.
Não muito tempo depois disso, o batera foi trampar nos Estados Unidos e enquanto o Matheus e o Rafa matutavam pra não deixar a peteca cair e seguir com os shows, eis que surgiu Daniel Araújo Brito (vulgo “Bacon”), pra assumir a bucha na bateria.
Diretamente do Rio Grande do Norte, Daniel (ex-Monster Coyote) trouxe um novo tempero para o som. Dono de uma técnica apurada e mão pesada, a abordagem do músico – natural de Natal – combinou tanto com a Disaster Cities, que ele foi de suplente à titular absoluto no cockpit de baquetas.
Assim, o ano de 2019 viu o grupo rodar o Brasil todo, enquanto o agora quarteto matutava o segundo disco de estúdio, conforme a banda passava por novas mudanças. Em 2020 Júlio Miotto veio para assumir o baixo e agora o grupo conta com Matheus Andrighi (vocal/guitarra), Bacon (bateria), Júlio (baixo), Rafael Panegalli (voz) e o Cripa nas teclas.
A pandemia atrapalhou os planos do quinteto – com relação ao segundo disco de estúdio – “Erasing Karma“, que tem previsão de lançamento até o fim de 2020, mas nem por isso quer dizer que a lojinha fechou para balanço. Mesmo lidando com a distância – já que a Disaster é um projeto interestadual – a banda mostrou entrosamento e muita criatividade para se reinventar, ainda mais num momento como esse.
Line Up:
Bacon (bateria/percussão)
Rafael Panegalli (vocal)
Júlio Miotto (baixo)
Matheus Andrighi (guitarra/voz)
Cripa Cripensis (teclados)

Track List:
“The Best Way You Used to Know”
“Blow”
“Mice and Trash Cans”
Essa reinvenção está escancarada nesse EP. “An Ode to Isolation and Confusion, Pt 1” mostra um grupo calejado e que entre dezenas de altos e baixos, conseguiu se manter constante, existindo, resistindo e produzindo. Agora com a banda reconfigurada, Rafael Panegalli tem a oportunidade de focar na escrita, enquanto Matheus fica à cargo dos riffs e a cozinha do Júlio (com o Bacon), encontra um equilíbrio para ser harmonizada pelo marfim malhado do saudoso Cripa.
A dinâmica do som mudou bastante, a proporção do projeto cresceu e musicalmente tem tudo pra atingir seu pico com o próximo trabalho de inéditas. No entanto, o que impressiona e faz o jornalista batucar mais e mais linhas, é justamente como essa nova encarnação da Disaster Cities revisitou os principais temas do “LOWA” e conseguiu subverter todo aquele caos Sludge/Rock ‘N Roll/Psicodélico no mais puro, orgânico e sensível Trip Hop.
“The Best Way You Used to Know“, “Blow” e “Mice And Trash Cans” foram as faixas escolhidas para essa surpreendente repaginada e é notável como o feeling se mantém, dessa vez com uma vibração mais intimista e toques eletrônicos.
O trabalho foi feito quase que de forma caseira, mas o cuidado com a produção e a sensibilidade dos clipes (gravados pelo Iphone e que você pode conferir no IGTV do grupo), impressionam o ouvinte e engrandecem o excelente trabalho de composição do grupo.
É muito louco pensar que temas escritos pelo Panegalli há mais de 3 anos (como é o caso de “Blow”, por exemplo), estão mais atuais do que nunca. O “Erasing Karma” era um disco antes da pandemia e agora é outro, com certeza absoluta. Apesar de complicado, esse período parece ter aproximado o quinteto e firmado as bases para um prolífico futuro.
“My head is a mess, i can’t really rest
I should’nt but i keep recalling my past”
(trecho de “Blow”, segunda faixa do EP)
Os toques de Trip-Hop deixaram as versões ainda mais solares e frescas. Composições como “Blow”, por exemplo, mostram arrojo e passam longe do mimimi mela cueca do poesia acústica. A presença de Julho (no groove de 4 cordas), deixou os vocais do Panegalli mais livres e o minimalismo dos beats trouxe vida nova aos takes de outrora.
Ressignificar um som dessa maneira é difícil, ainda mais com esse esmero. Tudo que a banda lançou até aqui mostra essa atenção e essa paixão que os integrantes possuem. Eles acreditam no corre que estão fazendo. A parte gráfica das capas, a identidade do grupo, o trabalho minucioso nas redes sociais e a organização para contemplar cada novo trampo com um encorpado plano de lançamento… O profissionalismo é latente e a música mantém o mesmo alto nível.
São menos de 15 minutos, mas esse trampo está longe de ser raso. Escute as baterias com atenção. É possível ouvir todos os instrumentos, desde a percussão até os ecos do nylon. Prestem atenção nas letras e apreciem o instrumental. A sensibilidade se desmancha no ar.
-A rara sensibilidade da Disaster Cities
Por Guilherme Espir
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