Um dos mestres da guitarra no jazz, Pat Metheny levou a cado projeto audacioso de orquestração automatizada, tendo a pianola como inspiração!
Em 2012 um dos maiores guitarristas de Jazz de todos os tempos, o americano Pat Metheny, lançou um de seus mais brilhantes e fascinantes projetos. Em inglês, o “The Orchestrion Project” é um DVD e também CD duplo (este liberado em 2013), que buscou explorar as possibilidades que o músico teria, pensando num espetáculo solo onde o próprio pudesse tocar todos os instrumentos sozinho, de maneira independente e, mais do que isso, promovendo uma interação sinérgica em prol da música.
Para se compreender a complexidade do projeto, é necessário, no entanto, conhecer o instrumento que incitou esse disco – que na verdade – é uma plataforma de composição: a pianola. O avô do guitarrista era músico e tinha uma pianola em seu porão. Pat, ainda criança, ficava fascinado com o instrumento, pois em suas palavras: “apesar de parecer antigo, ele também parecia apontar para o futuro”.
A pianola é a essência desse projeto. Instrumento peculiar, presente num curto espaço de tempo – entre o fim do século XIX e o começo do século XX (1890-1930) – o principal “diferencial” desse instrumento era a possibilidade de contar com um pianista, sem precisar de uma pessoa de fato, tocando da maneira tradicional. Isso por que a pianola, incialmente movida por pedais e posteriormente à energia elétrica – toca músicas à partir de um rolo de partitura perfurado.
É interessante perceber que o maquinário é refém dos rolos de partitura. Ao anexar o rolo com as composições – perfurados em papel vegetal – no cerne do instrumento, a pianola conseguia fazer a leitura das pautas e serem transferidas para a máquina do piano, por um sistema de foles movidos à ar e sincronizados com os movimentos da madeira que compõe a ergonomia do instrumento.
Dessa forma, traçar o paralelo entre a pianola e a proposta do “The Orchestrion Project” torna-se mais tangível, pois o que Pat Metheny fez foi pensar uma rede de instrumentos – junto de um grande time de técnicos e programadores – criando uma orquestra automatizada e totalmente controlada pela semi acústica do também arranjador.
Esse conceito levou o músico a lugares até então inexplorados e a gestação do projeto foi longa justamente em função da dificuldade de fazer tantos instrumentos conversarem à partir do que era tocado na guitarra. Ao reunir instrumentos, componentes eletrônicos e até mesmo garrafas de vidro, Pat explodiu a automação da orquestra e trouxe um olhar apurado para a pesquisa de timbre e até mesmo a valorização de sons não musicais.
Além de revitalizar uma ideia antiga no contexto Jazzístico contemporâneo, o guitarrista ainda amarrou a proposta com uma filmagem que ilustra a complexidade do projeto, a dinâmica de usar a guitarra como um regente e a sublime música – repleta de sentimento e reviravoltas – que apesar de estar intimamente ligada à tecnologia (em função da necessidade da automação), serve também como um lembrete de como ela pode nos servir como uma extensão do ser humano e possibilitar trabalhos dessa grandeza, tudo em prol da exploração das possibilidades do som.
O vídeo chega como a cereja do bolo. No CD a experiência é riquíssima, mas no DVD o projeto mostra sua real dimensão. É um ambiente controlado, onde cada passo foi milimetricamente calculado para que a sincronia conseguisse fazer com que instrumentos feitos sob medida ou modificados, tocados por uma variedade de martelos controlados por computador, ímãs, batedores, foles e assim por diante, coexistissem de maneira harmônica.
É um projeto visionário e que mesmo em 2020 ainda carrega extremo frescor e que conversa com a vanguarda, tanto da música quanto da videoarte – sem perder a conexão com a concepção moderna (e nesse caso conceitual) do Jazz deste inquieto maestro.
-A Pianola, Pat Metheny e o projeto Orchestrion
Por Guilherme Espir
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