
Certamente valeu a pena esperar pelo álbum solo do Eduardo, ex-integrante do grupo Facção Central. Trata-se de um CD duplo com letras extremamente fortes e bem elaboradas que abordam temas cruciais, como o extermínio do povo negro e o preconceito racial.
Ao ouvir as trinta e duas faixas podemos sentir a potência das críticas dirigidas à sociedade e a seu modelo excludente, além do fato de as letras conterem um enorme volume de informações que visa se comunicar especificamente com um público: a periferia.
Eduardo Taddeo mantém a coerência que possuía desde os tempos de Facção, e a intensifica. Isso fica muito claro na música Sentença Capital, em que ele faz críticas duras à questão da maioridade penal e cita grandes pensadores esquerdistas. Mesmo sabendo que estes pensadores possuíam as suas divergências, existe um aspecto central que os conecta, a luta contra a tirania.
Eis um trecho da música que expressa muito bem essa ideia:
“Querer tirano no poste não me faz sensacionalista / Me aproxima das mais brilhantes mentes esquerdistas / Pra Marx, Proudhon, Bakunin e Che Guevara / Ditador merecia punhal barbeando sua cara”.
O disco também aborda o jeito que ele próprio, o Edu, passou a ser visto como o patinho feio do rap nacional. Ou seja, não há tentativas por parte dele de fugir ao compromisso de informar quem não é informado. Também não há uma crítica restrita a um determinado domínio, mas sim contra várias opressões: o capitalismo, a indústria bélica, a violência, a opressão contra as mulheres, o racismo. É um disco de muito fôlego (são duas horas e meia de duração), com muitas ideias denunciadoras, e que canta um rap dialogando violentamente com a nossa realidade social.
Outro tema muito importante no álbum é o drama dos excluídos. Há um claro objetivo de identificar-se enquanto negro e de criticar a sociedade e sua hipocrisia. As batidas e melodias das canções mudam, mas a voz do rapper continua a mesma, agressiva e com fortes argumentos contra a fábrica de cadáver do Estado, contra esse silêncio irritante que se faz quando acontecem os extermínios ao povo negro e pobre.
Não há pessimismo nas letras, existe apenas um rap agressivo que cospe nos ouvidos da sociedade brasileira o que ela não quer ouvir. A música Eu Acredito deixa explícito qual é o objetivo do disco, ao defender que o negro deixe de ser piada do youtube, ao gritar para que o negro deixe de ser troféu de caça da polícia. Mas o rapper não para por aí, ele também defende a luta feminista e critica o esquema de corrupção da política e do sistema financeiro.
Enfim, a mensagem que se passa é de luta, de emancipação dos excluídos e das excluídas. A Fantástica Fábrica de Cadáver (que certamente é uma das maiores obras de rap nacional dos últimos tempos) é uma bomba de críticas e argumentações contra qualquer tipo de opressão.
Por Guilherme Santos
https://www.youtube.com/watch?v=ERuQ4EeiHOY
Ficha Técnica:
Artista: Eduardo
Álbum: A Fantástica Fábrica de Cadáver
Ano: 2014
Faixas: 36
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