Paz, Amor, União e Diversão foi o lema que o hip-hop desenvolveu como sua principal divisa através das mãos de um dos seus criadores, Afrikaa Bambaataa. E esse lema foi incorporado com seriedade na primeira edição do Rap Sem Fronteiras, que trouxe à Salvador um dos maiores expoentes do rap nacional, o paulista Eduardo (ex-Faccção Central).
Junto a esse grande nome de expressão nacional outros grupos do rap BA, que tem conseguido mostrar seu trabalho a nível nacional, completaram a festa. Importantes nomes como Nova Era (que recentemente estiveram se apresentando em São Paulo), Dazideia, A Febre, A Rua Se Conhece, Fraternidade Maus Elementos, Ministério Clamor e Okaris abriram e prepararam a noite antes da atração principal.
O rap em Salvador tem produzido festas com uma frequência absurda, com estrutura e organização bacana em pubs, bares, casas de show, saraus ou nas praças do Pelourinho. Essa constância certamente reflete o bom momento vivido pela nossa cena, oportunizando que se acompanhe o desenvolvimento artístico dos diversos atores. Abrindo as portas para novos grupos que com certeza hoje encontram maiores facilidades para tocar para públicos já consolidados.
Não conseguir acompanhar o conjunto das apresentações, nem mesmo por uma semana, nos deixa contentes, pois esse excesso de produção é signo de força, que de nossa parte, encontra livre escoamento em todas as vezes que entramos em contato. Resta-nos a missão de pensar e divulgar essa cena em suas diferentes expressões e dar vazão ao que a mídia tradicional não consegue e nem tem interesse em captar e propagar. Salvador hoje possui pequenos poetas/guerreiros (antenas da raça) em ação por várias quebradas, se reunindo na orla, ou no centro para os seus concertos, congregando jovens em rodas de freestyle, para os momentos de Paz, Amor, União e Diversão.
O estado e os meios oficiais, não encostam, não falam e não ajudam no cultivo de uma cultura forte e que dentro de suas limitações estruturais afastam jovens do ócio improdutivo e da marginalidade. Combatendo e denunciando as injustiças, transmitindo conhecimento e contextualizando-os com seus iguais na luta por melhores condições de vida. No entanto, mesmo com a negativa dos poderes oficiais, quem produz segue impondo esse ritmo frenético. E o que vimos no último sábado foi mais uma forte confirmação de tudo isso.
Na Praça Pedro Arcanjo o que percebemos foi uma celebração da juventude negra soteropolitana que possui na figura de Eduardo um artista (poeta) que lhes transmite os planos oficiais, escancarando o que o estado racista tem para todos nós. A Fantástica Fabrica de Cadáveres, nome do último disco lançado pelo rapper (que recebeu resenha aqui no site), foi o objeto de culto em torno do qual todos se reuniram.
Cheguei ao show momentos antes do Okaris se apresentar, e a impressão que se tinha no contato com seus integrantes era um misto daquele frio na barriga que se tem antes de subir ao palco, com o peso da responsabilidade de quem além de se apresentar, também produziu o show. Sim, o do it yourself é parte da herança cultural do hip-hop baiano. A produtora Soco no Olho – da galera do Okaris – foi a responsável pela realização da festa. Mas já no palco o que se via era a fibra dos guerreiros que não fogem ao combate, mesmo na desvantagem.
O Okaris é formado por Tibe, Marão, Othon Mackflayder e Dj Palozo. E uma vez que o beat foi solto pelo Dj, o pau comeu. Clássicos do grupo foram tocados para uma pequena multidão hipnotizada e séria. Atenta à mensagem ao mesmo tempo em que se balançava de um lado pro outro, como muçulmanos recitando o Corão. A rigidez da postura de Tibe, firmão, mandando as letras, se contrapunha aos passeios de Marão e Othon, que percorriam o palco complementando na segunda voz, ou em breves paradas para rimar suas partes. Tudo isso temperado com as bases matadoras do Dj Palozo.

Não poderia ter havido melhor preparação para a subida de Eduardo ao palco, pois o público recebeu e acatou a mensagem do Okaris que é um grupo que já possui uma caminhada na cena, porém não se encontra plenamente incorporado pela rede de produção acima mencionada. O que lhes confere um frescor na apresentação de suas músicas e um sabor de tradição. A sensação que ficou foi que além de uma postura semelhante diante do rap – nas temáticas e musicalidade – o clássico Minha área (Okaris) fez a ligação perfeita para que a A Fantástica Fábrica de Cadáveres chegasse.
Foi como se o Okaris estabelecesse o território onde Eduardo passou a desfilar as músicas de seu disco, contextualizado no cenário baiano, Cariri, CBX (F.M.E), Suburbio Ferroviario (Nova Era), Cidade Nova e IAPI (Dazideia) etc… A excelência do rap brasileiro em diálogo intenso, para aqueles mais interessados em união e paz, do que na disputa vazia. Construção coletiva contra os planos da elite que quer nos escravizar das mais variadas formas e exterminar quando não conseguem o controle.
Com o palco muito bem preparado Eduardo subiu acompanhado do Dj Marquinhos, Smithi, José Arias e Reinaldo e obviamente com o jogo ganho, tanto pelo excelente preparo que recebeu, quanto pela admiração e notoriedade do seu trabalho. E a fruição de suas músicas se davam por uma plateia apaixonada e séria, mais amor do que paixão na verdade.
O forte repertório desse último lançamento atingindo a todos com uma violência capaz de fazer vidas mudarem de rumo. Há que se elogiar também a qualidade do som que batia firme, emanando os beats nervosos que serviam de cama para as letras.
Foram mais de quatorze músicas do cd duplo, num show que compensou cada centavo pago no ingresso. O nível de concentração – tensão – de Eduardo, deveria ser algo estudado. Já no camarim onde pude trocar algumas ideias com ele, a postura séria duelava com uma disponibilidade e gentileza que causa estranheza. Um equilíbrio bastante incomum, um olhar rijo que fuzila ao mesmo tempo em que as palavras de destinação reta confortam e aproximam.
E tudo isso pode ser percebido com tranquilidade e muita verdade em cima do palco. Após o show a celebração ainda tomou conta do camarim, onde (com a disponibilidade característica) Eduardo e sua equipe, gentilmente recebeu e deu atenção ao seu público, numa sessão quase interminável de autógrafos, que continuou depois na rua fora da praça.
Solidariedade, qualidade, amizade, paz, união. Poderíamos multiplicar ad infinitum os adjetivos que esse Rap Sem Fronteiras trouxe ao nosso coração. No entanto, ficamos com a certeza de que o que vimos acontecer na praça Pedro Arcanjo foi HIP-HOP; e ele é Foda.
Uma pequena prova de que não jogamos conversa fora:
Danilo
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