Levante, uma porrada direta na cara do machismo
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Levante, uma porrada direta na cara do machismo 

Levante, de Drenna, reúne cinco vozes femininas em um potente manifesto de resistência. Confira a análise da letra, da estética e da sonoridade do single.

Um bonde da pesada: a gênese de Levante

Levante
Arte do single Levante.

O que acontece quando você forma um bonde da pesada com mulheres cuja assinatura artística possui um viés claramente político? E não só isso: tem por característica marcante utilizar sua música como forma de protesto contra a opressão patriarcal, milenarmente utilizada para exercer domínio sobre corpos e almas femininas? Dá neste substancial projeto intitulado Levante, que reúne nada menos que MC Taya, Drenna, Dani Albuquerque, da The Mönic, Yasmin Amaral, da Eskröta, e Ada Bellatrix, da Flor Et.

Levante foi lançado em forma de single no dia 14 de agosto. A concepção artística da música tem a assinatura de Drenna, que lança, ainda este ano, seu novo álbum, intitulado Interregno – O Mundo Depois da Certeza. Levante será uma de suas faixas.

Segundo a lenda de origem de Levante, a ideia inicial do projeto nasceu quando a produtora cultural Márcia Melo, amiga de Drenna, comentou que sentia falta de uma música da compositora que tivesse um viés mais combativo e direto no que diz respeito à luta feminista no Brasil.

Claro, Drenna já havia tratado de temas ligados à questão em seu primeiro álbum, Desconectar (2016). Contudo, o tema não havia sido abordado de forma tão direta e enfática quanto em Levante. Uma parceria com Yasmin Amaral, da Eskröta, acendeu a fagulha necessária para o incêndio.

O processo de composição e produção da música seguiu se desdobrando com a participação ativa da banda de Drenna. Destaque para Jorge Guerreiro, responsável pelo arranjo e também pela produção, gravação e mixagem. Não podemos deixar de citar a participação vital de Alan Douches e dos músicos que participaram da gravação. Além da própria Drenna, a faixa contou ainda com a presença marcante de Milton Rock e Bruno Moraes. Levante foi lançada pelo selo/distribuidora Marã Música, via ONErpm.

Do silêncio ao levante: a força da palavra

Levante
As minas do Levante em momento de descontração.

Vamos trocar uma ideia sobre a letra. Esta se estrutura como um legítimo manifesto de resistência e emancipação feminina. Isso se deve, a meu ver, ao fato de a letra não recorrer a floreios, metáforas e outros recursos simbólicos que possam servir para suavizar o impacto que o peso do protesto exerce sobre os ouvintes.

Portanto, o texto não faz rodeios e mostra, de forma crua, como se dá a luta contra a opressão direcionada às mulheres. O protesto é apresentado em toda a sua crueza e violência, mostrando as dificuldades impostas pela luta contra os instrumentos de controle do patriarcado.

Podemos constatar, na repetição do verbo “enfrentar”, conjugado na primeira pessoa do plural — “enfrentamos” —, como o texto expõe diferentes formas de opressão historicamente impostas de forma violenta às mulheres. Isso vai sendo apresentado sem filtros, o que dá uma dimensão ainda mais impactante à letra, uma vez que o arranjo da música utiliza recursos sonoros que geram tensão, acentuando sua gravidade.

Entretanto, a letra faz mais do que relatar experiências de sofrimento: transforma as vivências femininas em confronto coletivo, oferecendo às mulheres as condições de exercer resistência contra todo esforço de oprimi-las.

A música consegue estabelecer um diálogo temporal ao mencionar os “séculos de submissão” das mulheres aos interesses patriarcais, além de colocar em relevo uma “história escrita sem nosso nome”. Dessa forma, recupera o caráter histórico da desigualdade. Já versos como “tomamos o lugar, o futuro é feminino” apontam para rupturas empreendidas pela luta das mulheres.

Não podemos deixar de mencionar o refrão, que faz uma síntese desse movimento de luta ao articular memória, possibilidades e transformação: “Pelo que fomos / Pelo que podemos ser / Pelo que falta, e o que está por nascer”.

Nesse contexto, o passado perde o status de mera lembrança da opressão para ganhar uma dimensão combativa, uma vez que fundamenta a construção de um futuro emancipatório.

Há também uma dimensão linguística, uma vez que a linguagem é povoada por um vocabulário que visa desqualificar qualquer atividade ou pensamento oriundo das mulheres. Assim, termos como “exagero”, “loucura” e “histeria” são incorporados à letra para colocar em relevo mecanismos históricos de silenciamento e deslegitimação.

Podemos ir além e defender a existência de um contra vocabulário, uma vez que a música ressalta valores expressos por palavras como força e orgulho, que podem muito bem ser exemplificados por afirmações como “um tanto de mulher foda, que conquistou o seu lugar”.

Vemos, portanto, uma inversão simbólica, já que aquilo que tradicionalmente é utilizado para diminuir as mulheres é confrontado por uma voz coletiva que reivindica poder, presença e autonomia.

Como destacamos em uma parte anterior do texto, Levante possui uma abordagem direta em seu discurso, ganhando ainda mais força expressiva com o arranjo que gera a sonoridade da música.

Um dos recursos utilizados é o emprego de palavras de ordem, como em “Levantem o punho e brindem ao levante”. Esse brado de luta possui um caráter mobilizador, aproximando a composição da tradição das canções de protesto.

Levante vai da denúncia à afirmação, do silenciamento e da submissão à ocupação do espaço social. Desse modo, a música vai muito além da simples denúncia dos mecanismos de opressão e de administração dos comportamentos femininos. Transforma a experiência da violência em força coletiva, celebrando a resistência e a conquista de um lugar que já não precisa ser concedido por ninguém.

Guitarras, peso e coro: a estética sonora de Levante

Levante
Punhos cerrados contra o machismo. Da esquerda pra direita: Yasmin Amaral, Dani Albuquerque, Drenna, Ada Bellatrix e MC Taya.

Vamos agora falar da sonoridade que dá sustentação a essa letra. Musicalmente, “Levante” se constrói sobre uma base de rock garageiro, visceral e denso, marcada pelo peso das guitarras distorcidas e por uma dinâmica que privilegia a intensidade. A sonoridade da faixa acompanha seu caráter expansivo, alternando momentos de maior contenção com passagens de impacto, em uma construção que explora pausas, quebras e retomadas para ampliar a tensão dos arranjos.

As guitarras assumem papel central na arquitetura sonora da música, sustentando uma atmosfera pesada e direta, enquanto o andamento sugere uma espécie de marcha, conferindo à faixa uma pulsação firme e coletiva. Essa sensação é reforçada pela construção rítmica e pelo desenvolvimento gradual dos arranjos, que conduzem a música em direção aos seus momentos de maior intensidade.

Um dos elementos mais marcantes de “Levante” está no trabalho vocal. A presença de diferentes vozes amplia a textura da canção e cria contrastes entre interpretações individuais e momentos de canto coletivo. No refrão, as vozes se unem em coro, transformando a composição em um bloco sonoro de grande impacto. A multiplicidade vocal trazida por MC Taya, Dani Albuquerque, Drenna, Yasmin Amaral e Ada Bellatrix não tem a mera função de apresentar participações especiais, mas constitui um elemento estrutural do arranjo, expandindo a dimensão e a força da música.

A interpretação de Drenna também explora uma linha vocal diferente de trabalhos anteriores, com maior ênfase na expressividade e na intensidade. A voz assume diferentes níveis de tensão ao longo da faixa, acompanhando as mudanças de dinâmica e contribuindo para a construção de uma sonoridade que alterna peso, explosão e momentos de respiro.

Portanto, Levante é uma música elaborada a partir de contrastes. Isso pode ser percebido na relação entre densidade e abertura, individualidade e coro, contenção e explosão. As guitarras pesadas, o andamento pulsante e a construção vocal coletiva revelam uma aposta estética sonora direta e vigorosa, pensada para ganhar força tanto na experiência de audição quanto na dimensão física e energética do palco.

Ficha técnica

Artista: Drenna
Single: Levante
Álbum: Interregno – o mundo depois da certeza
Quarto single do álbum
Lançamento: 14 de agosto
Composição: Drenna
Participações: Dani Buarque, da banda The Mönic; Ada Bellatrix, da banda FLOR ET; MC Taya; Yasmin Amaral, da banda Eskröta
Produção: Jorge Guerreiro e Drenna
Gravação: Jorge Guerreiro
Mixagem: Jorge Guerreiro
Masterização: Alan Douches, West West Side Music
Músicos: Drenna, Milton Rock e Bruno Moraes
Estúdio: Melhor do Mundo Studios
Selo/distribuidora: Marã Música / ONErpm

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