Os Passarinhos carcomidos do Orelha Seca
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Os Passarinhos carcomidos do Orelha Seca 

Orelha Seca, banda soteropolitana cheia de ódio desse mundo fabricado antes da gente nascer e onde a gente só se fode lança o Ep “Corvos, Abutres e Pardais”, que é pra você ter certeza que estão te fudendo, e não é de um jeito gostoso. 

Orelha Seca
Arte de capa do EP “Corvos, Abutres e Pardais”.

Tem umas semanas que vez por outra paro pra ouvir o novo Ep do Orelha Seca, o “Corvos, Abutres e Pardais”. A ideia era ser capturado, em algum momento, pela sonoridade de suas faixas. Ser, portanto, arremessado a alguma direção.

Não foi difícil. A qualidade técnica de gravação, produção e execução das músicas pela banda, conseguem tragar o ouvinte pra dentro de sua espiral imagética perturbadora. Passa a ser questão de tempo se deparar com o álbum a caminho, mesmo que te leve a lugar nenhum.

Numa dessas audições, perdido nesse turbilhão sonoro, acabei por me deparar com uma determinada impressão. A de que a sonoridade apresentada pelo Orelha Seca neste novo trampo, não lança mão das possibilidades de arranjos elaborados para as faixas Tampouco de recursos de linguagem como metáforas, que possam vir suavizar o impacto do que está inscrito no registro sonoro das faixas.

Não sei se dei uma de Chacrinha e confundi mais do que expliquei. Mas o que eu quero dizer é que o Orelha Seca nos apresenta, por meio de uma determinada articulação do som, a crueza de uma realidade sombria, dolorosa e de agonia intensa para a vasta maioria de seres humanos existente nessa terra plana do Jesus anglo saxão.

Essa massa humana é posta nessa condição existencial opressora por uma pequena parcela da população mundial detentora do poder econômico e político. A massa humana de trabalhadores e trabalhadora , drena de forma impiedosa e predatória sua energia.

Através da imposição de duras jornadas de trabalho, lhe privando do lazer e do tempo ocioso que poderia ser compartilhado com familiares e amigos. É obrigada a lidar diariamente com uma rotina, de cobrança incessante pelo cumprimento de metas, pelo aumento vertiginoso da produção e do lucro.

Vamos direto ao ponto. Pra parcela esmagadora da população mundial, composta por trabalhadores e trabalhadoras, ouvir músicas suaves, de sonoridade fofinha, tipo aquela faixa “Passarinhos”, cantada pelo Emicida e pela Vanessa da Mata, no álbum Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa apresenta uma realidade por eles desconhecidas. Afinal, refletem sonoramente uma realidade própria da classe média, da elite econômica brasileira, que vive como se estivessem num mundo dos Teletubbies, dos Ursinhos Carinhosos, mas sem o Coração Gelado.

Vejam, a questão aqui nesse tipo de música não é o conteúdo, mas a forma. Quer dizer, a música soa afável, inspira tranquilidade, paz e inocência. Não precisa perturbar demais o Tico e o Teco pra chegar à conclusão sobre a qual classe social essa realidade pertence. Daí, não adianta você fazer uma letra com crítica social ácida, pesada, porque esse conteúdo tem toda sua capacidade expressiva anulada pela forma.

Emicida e Vanessa da Mata nos oferecem a pílula azul, da realidade virtual (ideológica), da realidade que satisfaz quem vive bem, através do domínio da massa trabalhadora, ou do parasitismo desse domínio, cujas migalhas de seus ganhos deixam cair na boca da classe média.

Por isso mesmo, presa à ilusão de ser detentora de um poder e status, em posse apenas das elites econômicas de nosso país. Bandas como a Orelha Seca nos oferecem a pílula vermelha, que realça os contornos de uma realidade abissal, massacrante, encardida, suada, estéril e atormentadora.

Uma pena a indústria cultural, anabolizada pelas redes sociais, impedir que essa mensagem do underground chegue àqueles para os quais elas se destinam.

Certamente haveria um massa maior de pessoas indignadas, insatisfeitas com a vida de merda planejadas pra elas. Afinal de contas não estamos aqui pra sermos vitoriosos, senão para lutar e conseguir de alguma forma estabelecer algum sentido para essa existência fadada ao cansaço.

Agumas informações técnicas do Ep

Ano-2026

Gravado no Ruído Rosa em agosto de 2024

Arte da capa- Emerson Maia

Design- Fígado Efe

Gravador por Diego Pereira

Mixado Por Anderson Kabula

Produzido por Rodrigo Gagliano e Diego Pereira

créditos lançado em 31 de Janeiro de 2026

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