A cena hip-hop soteropolitana cresce e se fortalece a cada dia. Grupos novos surgem apresentando o rap com sotaque, cores, sabores e sons baianos. Eventos acontecem regularmente na cidade, seja na periferia ou em locais que fazem parte do circuito turístico da cidade, caso onde se encaixa o Pelourinho.
O Sarau da Onça no bairro de Sussuarana traz o som da comunidade muito bem representada pelos versos do grupo Os Agentes. No bairro dos Barris a loja AFREEKA faz sucesso fornecendo aos fãs do hip-hop álbuns de grupos locais e de todo Brasil, bem como artigos da cultura hip-hop que vão desde camisas até bonés e cordões de prata. No Pelô Rael e Emicida, já conhecidos no cenário nacional, compartilham o palco com bandas locais. Estão entre elas Vesus 2, Os Agentes e Opanijé…
Vamos trocar uma ideia sobre esse ultimo grupo.
Nessa efervescência de rimas e batidas surge talvez o álbum mais emblemático dos últimos anos do rap soteropolitano. Possui nome homônimo ao do grupo que o compôs: OPANIJÉ! O nome já diz muito sobre a sonoridade do grupo, pois opanijé é o toque e a dança de Omolu. Os ritmos do candomblé marcam a sonoridade do grupo, dando-lhe a identidade muitas vezes inalcançável à maior parte dos grupos de rap. Opanijé se sobressai por unir de forma orgânica a métrica das rimas do rap aos ritmos e batidas do candomblé. O grande feito do grupo está em fazer com que a multiplicidade de elementos presentes no som soe como algo homogêneo. A naturalidade com que as músicas se desenvolvem faz parecer que os ritmos e batidas do candomblé não tem outro objetivo senão dar aos MC´s o suporte necessário para cantarem suas rimas.
As vozes dão vazão a letras carregadas de relatos dos problemas sociais enfrentados pela comunidade negra, marginalizada e oprimida, mas há um diferencial. Refiro-me a referencia à religiosidade, costumes e problemas diretamente relacionados à cultura afro-baiana, ao cotidiano soteropolitano. Não seria nenhum exagero afirmar que mais do que músicas Opanijé traz consigo a espiritualidade dançante, festiva e vibrante do candomblé. Essa verve religiosa particular aos rituais do candomblé, é traduzida em todas as suas cores nos versos da música Deus que Dança: “Um deus que come, que canta e dança comigo”/ “Não acreidto num deus que não dance”.
Opanijé promove esse encontro festivo e intenso com toda a riqueza da celebração da vida. As rimas arrepiam por manifestarem essas forças naturais que governam o mundo e encontram nos orixás sua representação dentro da cultura negra, baiana. As letras procuram nos trazer de volta toda força simbólica, espiritual e sentimental da nossa ancestralidade africana.
O álbum conta com a participação especial de vários músicos, nativos de Salvador em sua maioria. Talvez a expressão participação especial não faça justiça à presença desses nomes no álbum. Isso porque o trabalho de arranjo feito para orientar a utilização desses elementos sonoros, exteriores ao grupo na composição final das músicas, foi impecável.
Na ficha técnica do álbum podemos conferir as músicas que tem a colaboração de músicos convidados pelo Opanijé. Com destaque para a participação da Orkestra Rumpilezz, do percussionista Gabi Guedes, do saxofonista Latieres Leite e da cantora Ellen Oléria. O critério usado para destacar estes músicos consistiu na pouca relação, ao menos em tese, do estilo musical de cada um com a sonoridade do rap.
Gravadora: Garimpo Musical
produzido por ANDRE T
produção executiva SORAIA OLIVEIRA
gravado, mixado e masterizado por ANDRE T no ESTÚDIO T, Salvador, Bahia, no período de junho de 2011 a agosto de 2013
Data de Lançamento: novembro de 2013
Membros: Lázaro Erê (MC), Rone DumDum (MC) e Chiba D (DJ)
Participações: Heider Soundcista (faixa 1 Encruzilhada), G.O.G, Aspri e Gomez (Faixa 4 Sangue de Angola), Orquestra Rumpilezz (faixa 6 Deus que Dança), Ellen Orélia (faixa 7 Aqui Onde Estão), Sereno Loquaz (faixa 12 Vamuinvadir), Gomez e X do Câmbio Negro (faixa 14 O que E u Quiser)
Carlim
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