Primeio disco do MC baiano Baby Venas escurecendo tudo, sua qualidade, suas visões reais da rua expostas em Vivências do Bairro!

Ver um jovem negro driblar todas as investidas que o estado lhe reserva ao retirar-lhe oportunidades dentro da sociedade, é uma das forças do hip-hop. Que oportuniza que todas as violências, frustrações e injustiças se transformem em arte, combativa, divertida, transformadora de outras tantas realidades. O MC baiano Baby Venas é uma prova viva dessa cultura e um multiplicador da resistência real que o rap consegue imprimir nos espíritos mais aguerridos!
Nos últimos dois anos, Baby Venas tem corrido a milhão, desenvolvido sua arte e produzido em excelente qualidade, cada vez mais incisivo, mais lapidado, melodiosamente pesado. Vinculado ao trap, o artista baiano não se rende às fórmulas fáceis, rimando groselha ou desfilando rimas aprazíveis sobre uma realidade cor de rosa, onde tudo é festa, sexo e lean. Pelo contrário, desde seu primeiro EP Aldeia Hits (2018), que contou com as participações de Suja dFato e do Shook, é a denúncia do genocidio negro, da violência policial, da guerra às drogas que vitima anualmente milhares de jovens negros nessa Salvador que não salva nada, que tem dado a tônica do seu trabalho.
De modo independente, sem investidores, o MC vem ao longo desses últimos dois anos soltando uma série de singles pesados, de vídeo clipes bem produzidos, que inscreveram seu nome com força no cenário trap local. Trabalhando com outras figuras locais e contemporâneas suas, recentemente o mano lançou um feat internacional, que tivemos a oportunidade de noticiar aqui. No último dia 21/11, lançou seu primeiro disco Vivências do Bairro (2020) e o resultado vocês precisam conferir. Nos últimos anos, no Brasil com a popularização do rap, pudemos presenciar um fenômeno de crescente apropriação cultural por parte da branquitude nacional!
Em Vivência do Bairro (2020), Venas nos mostra uma dupla luta enfrentada por artistas negros independentes dentro da cena do rap nacional. Precisa-se fugir das violências do estado genocida brasileiro, e ao mesmo tempo enfrentar a sujeira que o rap game impõem. Sujeira essa que coloca de lado artistas verdadeiramente originais e que apresentam vivências reais, elevando uma pá de rappers de plásticos e muitos deles brancos. Com a popularização da internet e com as redes sociais dirigindo a percepção de um público preguiçoso e muitas vezes – para o bem e para o mal – infanto juvenil, o virtual e todas as suas ilusões – pose e capital – é quem determina o fake game.
Além disso, é preciso lembrar o fato de que Baby Venas é um artista baiano, periférico e negro, marcadores impeditivos para que o eixo – que determina o game – o reconheça. Fruto de uma das cenas pioneiras do trap nacional, em um cenário rico de talentos, ainda assim Baby Venas tem feito seu nome, com legitimidade, pelas ruas de Salcity e Vivências do Bairro (2020) marca de vez essa posição. Contando com 7 faixas, o disco traz as produções de Lucas Estrela, VG e Coelho Beats.
E nesse aspecto das produções, a diversidade de produtores encontra na seleção operada pelo MC uma coesão sonora que atravessa todo o disco sem muitas variações. Essa escolha confere ao disco, uma certa mansidão, um certo tom calmo, bem controlado, com os flows do Venas passeando por entre os beats, com uma narrativa muito forte. Um estética que fornece a audição um sentido muito potente, ao tratar de temas tão caros a negritude!
A conquista da dignidade, a superação dos obstáculos, ideias de progresso, a denuncia do racismo, amor, a busca pelo progresso dos ceros e da família. A riqueza de experiências retiradas da própria caminhada, estão muito vivas em Vivência do Bairro (2020) e tudo isso é embalado numa musicalidade muito bem feita, bem desenvolvida. O disco traz também muitas participações, Dactes em “Bem” que apresenta seu flow característico e que tem alcançado excelente projeção. Os companheiros desde os tempos da Lápide Rec: Shook Mc e Murilo Chester colam na pesada “Refrões”.
Ainda temos o SlumStar no feat, com a realista “Você não é Bandido” que trata dos ‘posers” que podem ostentar malandragem de dentro dos playgrounds. Fechando os trabalhos “Sujo”, com Kasper nomeando o comandante do genocídio na Bahia: Rui Corta, enquanto Bizzah dá a letra do rolê real do centro da cidade, onde playboy também não atravessa! Baby Venas lançou um disco viciante, que reuni e materializa em maior proporção o que ele já vinha afirmando nos singles.
Escutem que tá muito bom!
-Vivências do Bairro (2020), Baby Venas estréia em disco…
Por Danilo Cruz
Danilo
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