Harmonize, último álbum de Hamilton de Holanda, expressa toda versatilidade e energia de um instrumentista sempre disposto a explorar novas possibilidades.
O Hamilton de Holanda é um ás de seu instrumento. Com um bandolim nos braços o carioca radicado em brasília extrai notas do instrumento com uma fluência raríssima. Em vários momentos ele nos faz questionar como é possível tira tantos sons e timbres harmônicos de um compacto exemplar de cordas como é seu bandolim.
Parece que ele possui aquela aura mágica de um grande camisa 9 que não se assusta quando vê o goleiro saindo do gol. As traves de 7 metros ficam até maiores para o craque, tamanha sua facilidade em harmonizar os ritmos brasileiros.
Dono de um repertório absolutamente rico e que conhece como poucos os vastos campos de nossa música, Hamilton continua extremamente prolífico. Sua última empreitada, o HH4 – grupo formado por ele, Thiago do Espírito Santo (baixo), Edu Ribeiro (bateria) e Daniel Santiago (violão) – mostra um músico vivendo um dos seus momentos mais confortáveis, criando música autoral com uma precisão e uma beleza capaz de inspirar músicos e não músicos na mesma proporção.
Com um quarteto de músicos soberbos, é nítido como “Harmonize” – seu trigésimo oitavo disco de estúdio – surge com uma banda capaz não só de acompanhar seu imprevisível fraseado, como também possui vasto repertório para adicionar outros elementos que façam o próprio Hamilton suar a camisa, se é que pode se dizer isso.
Mas o fato é um só, o HH4 é de longe um dos grupos mais completos da cena instrumental brasileira. O que o Thiago Espírito Santo faz no baixo (fretless ou com trastes) é brincadeira. O Edu Ribeiro fecha uma cozinha cavernosa com o Thiago, sempre acompanhando os ritmos dos mais quebrados com a mesma calma que meu avô vai pegar um copo de água para minha digníssima avó. No violão – ou na guitarra pensando no show ao vivo – Daniel Santiago serve como um porto seguro frente ao vasto campo harmônico que Milton dobra, desdobra e vira do avesso com uma naturalidade digna de deixar qualquer um perplexo.
O “Hamornize”, lançado em maio de 2019, foi não só um dos maiores registros lançados no país ano passado, como também é um dos grandes espetáculos – pensando no showzaço ao vivo – conduzido pelo quarteto. É notável como Hamilton encontrou instrumentistas tão habilidosos como ele próprio, pensando não só em qualidade técnica, mas interação e configuração de grupo também.
É uma formação muito acertada e que pela grande percepção musical do quarteto vê uma grande oportunidade para criar, improvisar e harmonizar passagens muito complexas e que passam longe de mero virtuosismo mecânico. Após alguns anos lendo e relendo compositores como Milton Nascimento e Jacob do Bandolim, Hamilton surge com um espetáculo digno de nota.
Em show realizado no SESC Pompéia, no dia 02 de fevereiro, ele e seu quarteto lotaram a comedoria do SESC numa noite cabulosamente chuvosa. Eu estava lá e afirmo: valeria a pena ter pego até chuva de granizo, tamanha a qualidade, beleza e sinceridade do espetáculo.
Recriando os 10 temas autorais que formam o excelente “Harmonize”, entre 8 faixas inéditas, Hamilton passeia por todas as referências que admira, além de conseguir criar um plano de fundo que consegue colocar o Arlindo Cruz e o Mestrinhos sob a mesma perspectiva.
É desafiador, mas extremamente recompensador assistir esse cidadão fazer música. Em temas como “Alô Arlindo” e “Samba Blues”, Hamilton mostra como esse disco está longe de ser um projeto solo. É um trabalho de banda mesmo, onde todos os integrantes conseguem espaço para acrescentar ritmos numa complexa cama harmônica que ela acompanha com uma facilidade que parece estar sempre um passo à frente.
Nos fones de ouvido o disco impressiona, mas ao vivo é notável como as composições parecem até maiores. Essa é uma das habilidades dos grandes compositores, a capacidade de criar algo que ao vivo parece até maior. O sentimento, o entrosamento simplesmente milimétrico e configuração do quarteto dão toda a liberdade que os 4 meliantes poderiam necessitar, mas o que fica é a paixão, o sorriso estampado no rosto e a valorização do cancioneiro popular.
Por pouco mais de 90 minutos, eu pude ver um espetáculo brilhante. Desde as luzes até o impecável palco do SESC Pompéia, o show do Harmonize é algo grandioso e que merece minuciosa atenção. Hamilton possui o repertório dos grandes baluartes da música brasileira debaixo dos dedos e assistir o maestro colocando esse rico repertório pra jogo – com músicos tão talentosos é de encher os olhos.
Ele valoriza a nossa história, mas sem apelar ao puro revisionismo. Não, longe disso, Hamilton está sempre praticando, compondo e viajando o mundo em busca de uma clara expansão, não só de conhecimento teórico correlacionado ao som, mas em termos de mentalidade, de consciência. É notável como ele valoriza o DNA nacional e está sempre em busca de novos sons… É uma missão que inspira e que nos faz pensar em como ele consegue subir ao palco e deixar sua plateia leve como uma pluma, noite após noite.
Eu tomei uma chuva memorável. Enquanto escrevo meu tênis respira por aparelhos no tanque, mas seria no mínimo absurdo mandar a conta para o Hamilton e seu trio de notáveis. Se precisar eu compro outro com gosto, por que se tem algo na vida que vale a pena é ver o que se passa na cabeça desse tal de Hamilton de Holanda.
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