DJ Buck e o groove que fortalece os corre em ritmo Funky (2019), uma mixtape com múltiplas aplicações, mas que sempre é impulso para a vida!!
Elegância no groove, soul funk, r&b, pitadas da discomusic, variações sobre uma forma ancestral de fortalecer corpos e subjetividades, DJ Buck abre a sua fantástica caixa de ferramentas na composição da mixtape Funky (2019). O Dj oficial e artista do clã Soundfood Gang, que tem soltado literalmente uma pá de trampos esse ano, com lançamentos impactantes e inovadores, libertou um trabalho que resgata importantes conceitos da música preta: uma politica de potencialização da vida através da música!
Não que os outros trabalhos lançados pela SFG não tenham sido nessa pegada, mas é que aqui o resgate volta um pouco mais no passado. O balanço, elemento tão importante para a própria construção do rap em São Paulo, através dos históricos bailes que rolavam de meados dos anos 70 em diante, é aqui resgatado com muita qualidade. E nesse processo de resgate, o DJ Buck produz uma mixtape deliciosa para todos os admiradores do G-Funk.
Confesso que quase sempre escuto música pelas caminhadas, ônibus e metrôs através da cidade, de uma escola para outra. Vida de professor no Brasil, sabe como é, e foi num dia de muita correria que tive a experiência fundamental com o groove do DJ Buck. Utilizo sempre alguns estilos musicais para me fortalecer, tranquilizar, alegrar, escurecer e reforçar a revolta, enfim, em busca de certos afetos, sacamos um certo estilo, músico etc. Ora, religiosamente prefiro ouvir albuns desconhecidos pela manhã, sempre correndo o risco de estragar o começo do dia, mas assim procedo. Resolvi quebrar a regra.
Depois de 7 aulas seguidas, numa quinta feira, sempre passo em casa rapidinho para tirar um cochilo, tomar banho, comer algo e migrar rumo às turmas do noturno. Estamos chegando próximo ao fim do ano, uma última unidade letiva começa, e se você tem o minimo de noção do quão cansativo é trabalhar 32 horas semanais em sala de aula, além de todas as atividades extra sala, você sabe que é literalmente o fim de uma maratona. Nesse exato período o professor(a) começa a vislumbrar a linha de chegada e na linguagem do atletismo, dará um último sprint, naquele pique queniano de maratonismo.
Já tomado banho, na porta de casa dei o play no Funky. Se tem um estilo que me agrada particularmente é o soul, funk e a disco music, há anos pesquiso esses gêneros e sigo buscando. Quando o groove começou a ecoar nas orelhas, as passadas tiveram ínicio de modo mais firme. a timbragem, o beat, a música do ManoWill tudo nos capturou de prima, e fez com que o começo da viagem não pudesse ser melhor. O malandro sombrio imprime de saída a suavidade esperta de seu estilo, enquanto o DJ Buck dosa o groove necessário para abrir os trabalhos da mixtape numa pegada, vivência de vila.
A faixa seguinte é a nossa preferida por vários motivos, o teclado estilo Herbie Hancock, talvez uma das mais funkeadas da mix, mas sobretudo por uma sincronicidade entre a canção – imortal desde já para nós – e o momento em que estávamos ouvindo – que por sua vez se tornou uma experiência realmente marcante.
Ainda a caminho do ponto de ônibus já avistando os Orixás no Dique do Tororó, o que entrava pelos nossos ouvidos era ao mesmo tempo novo e muito velho, e por isso mesmo fazia total sentido. A faixa “Parado Ninguém Consegue Ficar“, traz o Matéria Prima cantando:
“Descendo a rua eu vou, pensando no próximo flow”.
A simplicidade desse verso, é daquelas que contém verdades dificilmente encontradas. E obviamente casou perfeitamente com a vibe necessária para o que era minha missão naquela e em várias outras noites da semana, do mês, do ano, da vida. Não é fácil sair de uma aula para outra, não é simples transmitir conteúdos iguais para turmas e pessoas diferentes. Aqui um mesmo problema pedagógico e estético, contidos num só verso. Talvez não seja um absurdo pensar que assim como um mc, assim como um saxofonista, um professor precisa encontrar o seu flow, e saber variá-lo de uma apresentação a outra. Mais uma track, mais uma aula, rumo ao fim do mundo, resistência para adiar o fim.
A força da impressão que essa música nos causou certamente é suficiente para que nós pudessemos dissertar durante muitas páginas, do quanto o groove africano em sua origem, e diaspórico em seu desenvolvimento guarda segredos para a vida. Esquecesse que corpos negros em movimento, seja lutando, seja nas ruas atrás da busca pela manutenção das necessidades cotidianas, seja dançando, guardam a arte em seu âmago. E daí é possível derivar toda uma estrátegia para resistir às opressões, prática que nossos ancestrais desenvolveram à excelência.
DJ Buck fez o mesmo com sua estréia em mixtape, com uma sonoridade que é impulso para viver, com a seleção de convidados para aplicar de modo cirúrgico mensagens necessárias para o nosso povo. A instrumental “Funklúdio” ainda embalava minhas impressões e a cabeça voava, quando o ônibus apontou na curva, subi, passei a catraca, tinha um lugar pra sentar. Nikito e Cab entram na faixa seguinte – “Não Te Acho em SP” – e a cabeça começa a perder o foco de qual flow seria necessário para a aula sobre desenvolvimento do capitalismo e começo já a programar a volta, quando encontrarei a preta na estação da Lapa. Ironicamente foi no metrô de Salvador, que nos encontramos.
Mas a mixtape segue e me afunda mais ainda nos pensamentos do que seria o fim dessa noite depois que eu chegasse em casa com a rainha, que não é uma “Poison Girl”, afinal, sabemos que a diferença entre o veneno e o remédio é a dosagem, e nós sabemos dosar. Essa faixa que tem o Avante Coletivo no comando da letra, é daquelas que nesse fim da noite vamos ouvir e dançar por muito tempo, juntinhos.
Na sequência uma das maiores revelações do rap nacional em 2019, o mineiro RT Mallone, reforça mais uma vez os pensamentos na minha rainha núbia e no quanto minha vida ganhou uma direção mais acertada depois de sua chegada. Aqui, é necessário pensar nas palavras do mano RT, e no quanto é necessário refletirmos as nossas relações com nossas mulheres pretas, no quanto é necessário, saudavél e revolucionário o amor preto. Corpos negros em movimento e juntos é sim uma necessidade, uma das ações necessárias para o combate ao auto-ódio, uma das estratégias do racismo contra o nosso povo.
O buzão já tinha dobrado o largo do Tamarineiro, quando a ´derradeira faixa começava, trazendo nILL e Isis Orbelli, duas vozes fantásticas do rap/r&b nacional, que juntos fecham com chave de ouro a mixtape com: “Te trouxe um Funky”.
A faixa é o fechamento perfeito pois consegue mesclar, aquilo que o próprio disco faz ao longo de suas faixas de modo sub-reptício, às ocultas entre os grooves, entre as músicas de amor e ou entre, em meio a exaltação da diversão. Acertadamente nILL rima sobre comunidade, auto reconhecimento, lazer, diversão, música preta, que são formas de combate ancestral ao racismo. Nos enganamos quando não reconhecemos que pretos juntos, dançando, se amando, trocando ideia, não é já e imediatamente política. Locais onde negros e negras possam trocar afetos e ideias, confraternizar e se divertir é já um local contra o sistema racista.
Desci do busu e entrei na escola, e já sabia que a alegria que me contaminava, a força que essa mixtape me imprimiu, seria a essência do flow que usaria naquela aula, para produzir uma análise critica ao capitalismo, mas não esquecer de reforçar algo que sempre fazemos, colocar o marcador racial como o primeiro dado de opressão em nosso país.
Segue o baile com o DJ Buck que soltou essa pedrada que não sai da nossa playlist e com certeza não sairá das nossas vidas nunca mais!
Danilo
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