Lukas Kintê soltou um trabalho que reflete a força das ruas, e a sua disposição pra seguir firme rumo ao futuro: Esse Ano Eu Não Morro (2019)
https://www.youtube.com/watch?v=guRn3kqv4wU
Estamos acostumados com a novidade, hoje o comum é a vacuidade da rapidez em todos os campos, tendemos cada vez mais a fazer da memória uma faculdade escassa. Lukas Kintê está a vinte anos caminhando no rap, duas décadas a serviço do hip hop e agora solta uma mixtape, ancorando-se nessa vivência, que é para poucos, é para raros. Talvez, colocar um clipe lançado a 11 anos atrás para abrir a matéria sobre Esse Ano Eu Não Morro (2019) seja um ato temeroso contra o marketing, mas não é com isso que estamos preocupados.
Buscamos sempre situar o leitor dentro do contexto que leva-nos aos nossos objetos de analise, e no caso de Lukas Kintê, há toda uma história subterrânea que muitos de seus próprios conterrâneos desconhecem. Como dissemos acima, são muitos anos de caminhada, e é importante dizer, com excelentes serviçõs prestados a cena.
Com o Makonnen Tafari lançou em Primazia (2012), disco pouco conhecido por muitos dos novinhos que ora chegam na cena. Por muitos anos Kintê esteve com uma das bancas mais fortes e talentosas da cena soteropolitana: A Fraternidade Maus Elementos, que hoje está em stand by, com formação reduzida mas não menos forte. Com a Fraternidade – o Wu Tan-Clan de Salvador – Kintê esteve no excelente Eles Não Vão Perdoar (2015). Ainda no mesmo ano, o mano soltou um EP chamado Primeiro Episódio (2015), seu primeiro trabalho solo. Além disso, são diversas participações, singles e cyphers a compor esse grande curriculo, ou se se quiser, as cicatrizes dessa guerra!
Essa introdução nos serve para percebermos que não estamos diante de nenhum aventureiro atrás de hype, mas sim de um artista hip-hop que possui 20 anos de guerra na cena. Precisamos entender que as afirmações e as ideias presentes em Esse Ano Eu Não Morro (2019), não são meras figuras de linguagem, não são meros braggadocios, nem analogias criadas em pleno dominio da teoria. Kintê desenvolveu sua arte nas ruas da cidade, no enfrentamento de uma realidade duplamente dura, jovem negro periférico e rapper, e foi nessas batalhas onde ele forjou suas armas poéticas. O mano está de pé, e já avisou não sucumbirá facilmente.
Escutamos a certa altura: ” Morrer sem vencer é lamentável”, num áudio inserido ao final de uma das faixas de Esse Ano Eu Não Morro (2019). E em sua primeira mixtape depois de duas décadas de caminhada no cenário baiano, podemos perceber que aqui não se trata daquele vencer meritocrático. Aquela falsa oposição padronizada entre vencedores e loosers, mas sim de um manual para a guerra cotidiana que jovens negros enfrentam.
Diante do sistema genocida em que vivemos – esse dado assustador da realidade – num cenário onde a marginalização de jovens negros é somente um das fases de um desenho social de limpeza étnica, a mixtape em questão é uma afirmação política. Fugindo ou indo além de uma ego trip a favor de uma promoção de um outro incosnciente coletivo, quando Lukas Kintê nos canta ou rima Eu, ele fala nós.
Ao longo das nove faixas que compõe a mixtape, o rapper consegue caminhar por temas distintos, variando flows e batidas, agressivo na maior parte do tempo, mas ainda assim, encontrando espaço para o amor. Indo do bate cabeça até o TrapPagodão, o mc consegue mostrar toda a versatilidade e a força que suas ideias carregam. Em “Decanato de Leão” uma produção Trap pesadissima e meio arrastada – cortesia do Haggar – vemos Kintê rimar:
“Vaguei a meia noite, e tirei a valsa com a morte, beijei e senti a dama da noite, o gosto dela doce, percorre como cortasse a foice em nupcia, então me ame hoje.”
Há aqui talvez a alusão de um aprendizado principal que percorre todo o trabalho: um aprender a morrer, trabalho espiritual superior de todo ser humano, como caminho para o melhor viver. A morte, essa ameaça constante na vida dos jovens negros no Brasil, precisa ser entendida, seja no seu campo ontológico, o homem como um ser para a morte, mas sobretudo num enriquecimento da vida que ruma para o destino inevitável.
Os aspectos políticos e sociais, por que não históricos que empurram nossos jovens para as laranjadas, talvez sejam melhor evitados, através dessa consciência. O entendimento da vida como luta constante, a busca pelos prazeres mais efemêros de modo prudente, mas sobretudo a capacidade de construir um sentido para si mesmo. É a essas questões que Lukas Kintê alude quando afirma, “Esse ano eu não morro”.
Trabalhando com velhos aliados de caminhada como Victor Haggar (velho aliado na FME), responsável pelo maior número de produções da mixtape. Ainda temos Herick Soul, Kalibre e Denisson Formiga, assinando as outras produções; A mix e a master que ficaram o fino, são responsabildade do mano DJ Akani da Back To Back que foi responsavél pela captação de voz, junto com a Maximus.
Estamos diante de mais um trabalho de relevo a chegar nesse ano de 2019 no rap baiano, esperamos que conquiste mais ouvidos, pois não é pelo tempo dentro da guerra, mas pelo conhecimento adquirido e que através de muita luta, é agora compartilhado conosco, com muita generosidade. Aproveitem!
Danilo
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