Pipoquinha foi o convidado do Electric Hendrix Ensemble, Guilherme Espir esteve lá e bateu um papo com esse grande baixista!
Um dos conceitos básicos do cancioneiro Hendrixiano é a eletricidade. O cherokee estava tão imerso em sua própria psicodelia cósmica, que o poder do som se revelou tão poderoso quanto um culto espiritual. À partir do momento em que Jimi plugava sua Stratocaster, aqueles primeiros segundos de chiados e distorções eram o seu álibi para o que ele chamou de “Electric Church”.
Um conceito sonoro que enaltecia a força da combustão sonora entre um Wah-Wah, aquele bom e velho cabeçote Marshall e a plateia, a igreja eletrificada de Jimi – era uma crença do próprio Seattle boy – que buscava conectar o som a alma das pessoas.
O objetivo? Hendrix queria que elas despertassem. Por isso a eletricidade, as cacofonias de Fuzz e um trio que tocava num volume quase ensurdecedor. Jimi queria respostas e sua música era o dialeto universal que incitava as pessoas a pensarem, sempre com o objetivo de atingir um elevado estágio de consciência.
Essa filosofia é um das fundações criativas da Electric Hendrix Ensemble. Vale lembrar que o Oganpazan conversou com o guitarrista do grupo – e idealizador do projeto, Eder Martins – para entender um pouco mais sobre a música do octeto, mas não teve jeito, ainda era necessário ver a banda ao vivo para compreender toda a mística por trás de tanta improvisação.
O lugar escolhido foi o Jazz nos Fundos. Pra variar, a charmosa casa localizada no bairro de Pinheiros recebeu um show excelente, bem ali, na saudosa quarta-feira, dia 08 de maio, conhecida também como o meio da semana do groove. Mas não foi só o Electric Hendrix Ensemble que deixou a plateia catatônica, vale lembrar que o show do grupo sempre conta com uma participação especial, e o meliante escolhido pra somar na jam dessa vez foi o brilhante Michael Pipoquinha.
Músico de raro talento e grande capacidade técnica, o cearense natural de Limoeiro do Norte entrou de cabeça nas pirações da Ensemble e mostrou seu vasto repertório ao decorrer de um set composto por duas entradas. O espetáculo ainda contou com Richard Fermino na segunda parte do show, enquanto Pipoquinha levava Hendrix da Califórnia ao cangaço, explorando linhas extremamente ricas, harmônicas e que serviram como o plano de fundo ideal para explorar o rico universo paralelo de Hendrix.
Preenchendo o vácuo do groove em temas como “Foxy Lady”, “Little Wing” e “Them Changes”, Electric Hendrix Ensemble & Pipoquinha mostraram mais uma vez como a música do americano explode no Jazz, no Funk e nas brasilidades que formam o repertório dos tunados e autorais arranjos que desafiam a essência do guitarrista.
A música tomou tamanha proporção que nós tivemos que conversar com o Pipoquinha pra entender um pouco mais não só sobre Hendrix, mas também pra sacar um pouco mais sobre groove e o atual cenário da música brasileira.
Guilherme Espir: Pipoquinha, eu vejo você e o Pedro Martins hoje – olhando principalmente para o cenário de Jazz internacional – e parece que fora daqui a música de vocês é mais acolhida. Você tem colaborações com o Jacob Collier, tocou na Áustria, Letônia, Africa do Sul… O Pedro agora foi convidado a tocar no Crossroads com o Clapton. Como você enxerga esse fenômeno, pois pensando em música brasileira isso é algo recorrente, vale lembrar que nomes como Nana Vasconcelos, Airto Moreira, Moacir Santos e Dom Salvador tem mais reconhecimento fora do que no próprio pais.
Pipoquinha: É muito gratificante. Qualquer reconhecimento, não importa de onde ele venha. Qualquer reconhecimento é tipo o pagamento de todo o estudo que a gente tem. É onde nós somos pagos com o retorno, o carinho… Eu não me importo muito de onde vêm… É lógico que lá fora tem uma atenção cuidadosa e muito respeitosa, mas o importante é que esse respeito venha e isso me deixa muito feliz.
Espir: Eu assisto o vídeo do seu show com o Pedro Martins no 8° festival de Choro Jazz toda hora. Vocês pensam em levar essa química pro estúdio?
Pipoquinha: É mesmo? Então aqui vai uma notícia boa pra você: nós acabamos de ganhar o edital da Petrobrás.
Espir: Esse não o mesmo edital que o Amaro Freitas Ganhou?
Pipoquinha: Sim! Exato, o projeto é gravar disco e fazer uma turnê pelo Rio, Belo Horizonte, Brasília, São Paulo… Tem um estado que eu me esqueci, mas basicamente é isso. Esse ano a gente vai trabalhar bastante.
Espir: E sobre seu último disco, como que foi trabalhar ao lado do Yamandú e do Toninho Horta? Achei que o Lua foi um dos melhores discos de 2017, mas acho que a gravação não teve a devida atenção da mídia especializada brasileira.
Pipoquinha: Cara, foi um sonho realizado. Foi um disco que eu já queria há algum tempo… É o segundo também. Foi um disco produzido com o Sandro Haick também, grande músico.
Espir: Você tem gravações com ele também né?
Pipoquinha: Sim, a gente gravou o “Nosso Mundo” em 2017. O disco foi produzido pelo Arthur Maia.
Mas voltando, algumas composições desse disco são antigas. É um trabalho dedicado pra minha filha também e o resultado final foi uma fotografia bem linda.
Espir: O Jazz hoje está vivendo um contexto moderno muito interessante, principalmente no cenário de UK e EUA. São dezenas de músicos extremamente jovens como você, fundindo diversos elementos modernos, ignorando convenções e criando coisas de fato muito originais. Como que você enxerga esse atual momento de efervescência no estilo?
Pipoquinha: Eu acho muito massa, velho, muito massa. Tem vários caras, muitos gêneros e diversas maneiras de tocar nesse atual momento. Tem uns músicos levando a coisa pra uns compassos meio doidos que eu adoro.
Espir: Tem Thundercat, Avishai Cohen…
Pipoquinha: Tem muita galera dessa nova safra. O Avishai é dessa lado Jazz, mas a música acaba indo mais pro lado da terra dele (Israel) né. Tem o Vijay Iyer, pianista e maestro que eu gosto pra caramba… O Kurt Rosenwinkel (guitarrista) que já não é mais tão novo assim, mas faz um som muito moderno.
A Genivieve Artadi, cantora, tem um som muito massa, alternativo e louco. Puxa para o Jazz, para o Pop e é uma mistura, vai cada vez misturando mais e eu gosto disso.
Espir: A galera está criando sem pensar nessas questões estéticas né? Isso que eu acho que é o principal.
Pipoquinha: Exato, estava até conversando disso com o Pedro (Martins) sobre isso. Ele disse pra mim: “o cara perguntou sobre o meu som e eu não soube responder”. Por que eu penso, não é Jazz, não é Rock, não é Pop… É difícil definir.
Espir: Olhando para o Brasil, o que você acha que falta pra gente conseguir abrir mais espaço pra músicos como você? Principalmente pensando numa cena que mantenha a galera rodando e etc.
Pipoquinha: Acho que falta mudar a cabeça das pessoas. Se a cabeça das pessoas mudassem pra alguns tipos de sons… Não só aquilo que é confortável pra elas. É aquela questão de se acostumar com uma música e só ouvir o que é cômodo.
Se abrisse mais a mente das pessoas seria o ideal.
Espir: O público acaba sendo mais resistente ao novo.
Pipoquinha: Sim, definitivamente, tem um pouco disso também.
Espir: E agora falando sobre ritmo, harmonia. Como você acha que a música brasileira influencia o trabalho de diversos grupos estrangeiros, como o Snarky Puppy, por exemplo? Na última tour deles no Brasil o Carlos Malta subiu no palco com ele ao lado do PRD Mais e era nítido como, principalmente em termos de ritmo, os brasileiros ainda estão bem na frente da galera.
Pipoquinha: O Carlos Malta gravou com eles né.
Espir: O disco do PRD saiu pelo selo do Michael League, o GroundUp.
Pipoquinha: É no mundo todo, né cara. Ninguém vai tocar Salsa igual um cubano. Ninguém vai tocar música africana como um africano. Nem Jazz como um americano… O sotaque deles né, é diferente.
Eles tocam bonito, é massa também, mas tem uma particularidade por que é o ritmo do lugar é o sangue. Todo lugar tem e no Brasil isso não é diferente.
Espir: E sobre a cena atual de instrumentistas brasileiro. Que nomes você recomendaria pra galera pesquisar e ir atrás dos shows?
Pipoquinha: Tem vários. Thiago do Espírito Santo, falando de baixista… Falando da galera que está lançando disco agora, tem muita gente. Tem o Ebinho Cardoso que é um baixista amigo meu que está morando em Boston. O Pedro Martins que está com um trabalho lindo, cantando, o André Marques que acabou de lançar um disco que eu inclusive gravei. O Márcio Bahia, baterista e percussionista que tocou o Hermeto e o pianista Salomão Soares.
Espir: Pra fechar, Pipoquinha, muito obrigado pela atenção. Eu como um apaixonado por Groove, sempre faço esse questionamento quando tenho a oportunidade, por isso, queria saber como você definiria o groove?
Pipoquinha: O groove é coração, bicho. Coração, sangue, tudo que envolve o que você está sentindo, tudo que envolve alma. Você estuda pra fazer um groove, ok, estuda muito, mas o groove mesmo está dentro de cada um.
– Electric Hendrix Ensemble convida Pipoquinha
Por Guilherme Espir do Macrocefalia Musical
Fotos de Welder Rodrigues
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