Após um hiato de três anos os Bombay Groovy lançam uma pedrada dupla, os singles Saturnalia e Devi, numa articulação material/transcendental estonteante.
A presença da sitara chama atenção de imediato quando você bota uma música da Bombay Groovy pra rolar. O instrumento indiano nos atrai por si só graças ao timbre característico, que não tem similaridade com nenhum outro pertencente à cultura ocidental. Mas o que me deixou espantado de verdade e seduzido foi o modo como a sitara é tocada por Rod Bourganos. Ele a toca como se empunhasse uma guitarra, ressignificando o instrumento, que passa a sintetizar ocidente e oriente em sua sonoridade.
Conheci a Bombay Groovy em 2015 através de uma matéria publicada aqui no Oganpazan por Danilo Cruz sobre o clipe da faixa Le Bateau d’Orphey. Duas músicas da Bombay moldaram minha percepção sobre a sonoridade da banda, a primeira foi a já citada acima, a segunda, ainda mais marcante, foi Jacarta Samba. Ambas fazem parte do álbum homônimo da banda lançado em 2014.
A primeira chamou-me a atenção pela mudança que ocorre no meio da música, quando deixa de seguir uma linha densa e arrastada, que a mim lembrou muito estruturas da sonoridade do Black Sabbath original, para cair num swing conduzido por uma presença percussiva marcante. Já Jakarta Samba a causa foi a cadencia do samba impressa nessa faixa, que encaixou perfeitamente, resultando em efeito bastante natural.
Existe uma síntese na sonoridade da Bombay Groovy resultante da articulação entre groove, swing, com peso, intensidade e estruturas ritímicas e melódicas arrastadas. Isso permite muitas variações ao longo de uma mesma faixa, levando a uma complexidade com ares de simplicidade, responsável por cativar e prender o ouvinte ao longo de toda duração das faixas, por mais extensas que sejam.
Conseguem evitar o tédio que muitas vezes o virtuosismo solitário causa. Essa fuga ocorre justamente pelas variações melódicas e ritmicas, mas também pelas variações de intensidade dos períodos musicais. Temos aqui um progressivo brasileiro legítimo sob forte influencia oriental e de múltiplas referências musicais que vão de muitas vertentes do rock como o hardrock, o progressivo, e a psicodelia até vertentes jazzisticas como o fusion, o jazz rock e o free jazz.
Tudo isso está muito bem distribuído nos singles Saturnália e Devi lançados pela banda na última quarta feria dia 20 de março. O primeiro single pauta-se nas vertentes jazzísticas citadas, dando enfase nas pausas bruscas marcadas pelo órgão que cortam a melodia principal. Como dito anteriormente, muitas variações são feitas ao longo dessa faixa, permitindo-nos reconhecer elementos de correntes musicais as mais diversas.
Em Devi a tônica recai sobre a sitar que na sua execução se baseia nos ragas, fazendo sobressair o elemento musical marcante da banda. O protagonismo desse instrumento nessa faixa imprime o sentimento orientalista e desperta nossa atenção devido ao timbre peculiar sem referências na música ocidental. A cadência acentuada posta pelos instrumentos percussivos nos coloca em movimento, exigindo de nosso corpo uma resposta imediata à música.
As faixas se antagonizam conceitualmente ligando oriente e ocidente também nessa esfera. Isso porque Saturnália “(…) revisita as dionisíacas celebrações romanas do solstício de inverno em honra ao Deus Saturno, correspondente ao Titã Kronos (pai de Zeus, Hades e Poseidon) na religião dos gregos antigos (…)” enquanto Devi resgata a tradição oriental fazendo “(…) uma ode ao texto védico Devi Mahatmya que cultua o sagrado feminino através das histórias de Durga e suas diversas facetas. A faixa busca, em especial, narrar de forma épica o episódio final da batalha em que Durga se transforma em Kali Ma para destruir o traiçoeiro exercito de Raktabija”.
Toda obra da Bombay Groovy está permeada por um jogo de dualidades, forças contrárias e complementares sempre em conflito, resultando num microuniverso sonoro bastante próprio, fecundo e diverso. Ouçam Saturnália, ouçam Devi e procurem os álbuns da banda e sintonizem-se à energia vital encarnada na música!
Fazem parte da Bombay Groovy:
Rod Bourganos (sitar indiano, guitarra elétrica, craviola, banjo, theremin)
Jimmy Pappon (órgão hammond, clavinete, piano elétrico)
Leonardo Nascimento (bateria e percussão)
Otavio Cintra (Baixo)
Carlim
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