Djonga levou seu filho Jorginho para conhecer a Cidade do Galo e mostra porque “Nossos menor vão ser atleticano”.
A ligação entre futebol e música no Brasil é de profunda intimidade. Desde os primórdios do esporte bretão em nosso país, músicas foram compostas descrevendo essa relação bem urdida pela via cultural. O caráter passional entre torcedor e seu time produz sentimento de tal grau de profundidade que lhe dá elementos decisivos para definir sua identidade. O atleticano conhece bem a intensidade desse sentimento, pois ele queima tão forte dentro de si que se faz constantemente presente à sua consciência. Tanto é assim que antes de tudo, aquilo que o norteia e permite que o atleticano tenha certeza de quem realmente é, reside no fato de ser atleticano.
Djonga ao nascer tinha um futuro incerto pela frente, uma estrada a ser trilhada como todos os mortais. Nada poderia revelar que teria uma carreira como rapper, que seria pai ou qualquer outra característica que definiria quem ele é. Apenas uma coisa já estava definida e viria a acompanhá-lo por toda vida, sem possibilidade de mudança, o fato de ser atleticano.
Durante a visita à Cidade do Galo Djonga descreveu sua memória mais viva de um jogo do Galo: ele ainda muito jovem nos braços do pai nas arquibancadas de cimento do verdadeiro Mineirão, na mais tenra idade, comemorando junto à Massa, numa explosão de sentimento em estado de pureza, com a racionalidade aprisionada, a ponto de seu pai o entregar nos braços de outro atleticano a fim de passar para outro lado da torcida sem preocupações nem temor de entregar seu filho a outra pessoa, pois este vestia o manto sagrado de listas alvinegras. Uma experiência única e determinante.
Djonga descreve essa memória com sorriso vibrante em seu rosto, enquanto segura no colo, Jorginho, seu filho. Claramente emocionado por estar transmitindo a seu rebento o legado que recebera de seu pai, o rapper anda pelo CT do Galo e vê “O lugar de onde saem nossos títulos e os melhores jogadores do Brasil”. A paternidade desperta novas emoções e sentimentos, coloca-nos diante de uma parte de nós mesmos até então desconhecida e nos mostra o quão altruístas podemos ser. Só a ligação pai e filho pode ser tão forte quanto a ligação entre o atleticano e o Galo.
Ambos os polos, Galo de um lado e paternidade de outro, marcam tão profundamente Djonga que influenciam sua música. No álbum O menino que queria ser deus (2018) o rapper remete a renovação atleticana por meio do surgimento de uma nova geração alvinegra no verso “Nossos menor vão ser Atleticano” da faixa 04 1010. Na faixa 06, Canção pro meu filho, Djonga fala das aflições, desafios e disposição para encarar a paternidade. Numa música de extrema leveza e profunda sentimentalidade.
Ao final do vídeo feito pela TV GALO, Djonga fala acerca do vínculo indissolúvel entre o Galo e a periferia, tal qual rola entre o rap e esta que é seu local de nascimento. A música da quebrada, o Galo, o verdadeiro time do povo, por mais que estejam tentando desfazer essa ligação e tirar o Galo e o rap da periferia, segue a luta pela permanência de ambos entre os seus. Há no rap a busca constante pela exaltação da cultura negra e a denúncia da opressão imposta àqueles que dela fazem parte. O futebol, esporte aqui no Brasil dominado por essa mesma cultura dentro e fora de campo torna próxima a relação entre estes diferentes campos socioculturais.
Quando sabemos a respeito de dados biográficos particulares do artista entendemos melhor sua música, sentimos-nos mais próximo tanto de sua arte quanto de sua pessoa. Djonga, dentre os rappers da nova geração, faz parte daquele grupo preocupado em construir algo consistente, que reflita sua personalidade real, sem a necessidade de emular uma persona.
Através de suas músicas, de suas entrevistas conhecemos a pessoa e não um personagem. Alguém que gosta de futebol como nós, que é atleticano como nós, que é da quebrada como nós, que tem uma posição política como a nossa, que luta contra a opressão como cada um de nós e quer a todo custo mostrar o resplendor de sua cultura. Aos artistas que criam a partir de suas vivências nossa saudação. Ao Djonga quero fazer coro e gritar: VAI PRA CIMA DELES GAAALLLOOOO!!!!!!!!!!
“Aqui é o Galo, o povo, o povo é atleticano, o povão mesmo, a favela … enfim, o Galo tem tudo a ver com isso, o rap tem tudo a ver com isso .”
Djonga
Carlim
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