La Lunna chega pesado demais em sua estreia, sim já chegou com um Ep de muita qualidade, com produção pesada e uma lírica direta e militante
La Lunna estreou a pouco no cenário do rap, porém já chegou com uma violência poética e demonstrando muita desenvoltura com a sonoridade Trap. Junte-se a isso, uma visão estética muito bem resolvida, um discurso intrincado que consegue aliar diversas bandeiras de luta pelas minorias. Foi minha parceira Mylena Bressy quem primeiro me mandou o link do clip “Sem Massagem” que ilustra muito bem o que a rapper de Vitória da Conquista busca conquistar com sua música.
Track escolhida como single do Ep que agora veio a luz, La Lunna é captada pelas lentes da Blasé Unity (responsável pela produção de alto nível) junto com outras manas nervosas prontas pro arregaço. E é exatamente essa postura de enfrentamento à opressão machista dentro do cenário rap, com espelho da opressão patriarcal de nossa sociedade, que a rapper do oeste da Bahia ilustra poeticamente.
Sendo assim, Girl Power é um Ep com 6 faixas e uma intro (Prod. Loro Vudu), contando com os beats de RB Alves, captação no Estúdio Drummond, Mix e Master ficaram a cargo de $antana e embalado pela arte de Ian Santiago. Um time que ajudou a artista a apresentar um disquinho muito redondo de cabo a rabo, apresentando toda a potência do rap feito no interior da Bahia. Dando vazão a expressão e ao conhecimento que La Lunna encontrou quando o rap lhe abraçou e apresentando sua arte da melhor forma possível.
Desde a excelente intro com colagens de diversos rap’s de minas do Brasil todo, o Ep exalta a luta e muita coletividade com discursos de alto nível, tudo isso no ritmo dos beats, no flow e na poesia de La Lunna. Jornalista formada pela UESB, a rapper alia muito bem conhecimento e técnica em suas faixas, junto a críticas muito bem elaboradas e fugindo sempre de clichês e palavras de ordem.
Prova disso é a primeira faixa do Ep, a pesada “Karma“, onde com muito ímpeto ela denuncia a “meritocracia machista” no rap. Aquele papo que já ouvimos mil vezes, de que a manas não possuem “técnica” suficiente. E a resposta vem em alto nível, com flow e lírica de ponta, mas principalmente muita qualidade crítica, abrindo mão de reflexões tanto de ordem semiótica quanto linguística, algo que pouca vezes vimos.
Como sempre acompanho e vou aprendendo nas postagens da jornalista e pensadora Nerie Bento, as dificuldades para as minas do rap produzirem são sempre infinitamente superiores ao que é sofrido pelos manos. E é nessa pegada que vem a faixa “No Corre”, onde a mc traz uma narrativa de suas correrias e da intenção de suas produções. Luta e empoderamento das mulheres negras, desde as que trabalham com a música, mas também com as ouvintes que estão em outros corres. Como La Lunna mesmo canta:
“Minha meta é sempre atirar minhas rimas pra bater certo em quem se identifica/ não importa o sentido que tu preferir/ o importante é a mensagem servir. Decidi ser livre escrevendo poesias/ tirando da mente o que eu sempre sentia/ sendo natural é o que importa/ rima nos transforma da noite pro dia.”
Pragmática que deveria atingir não apenas mulheres, negras ou brancas mas todos que precisam de força pra lutar e necessitam de uma fonte de onde retirar e atribuir sentido a sua luta e identificar os obstáculos que são seus. Respeitando e entendendo o lugar de fala e a intenção do discurso, deveríamos ser capazes de pensar a força desta e de outras mensagens localizadas. E transpo-las para todo e qualquer pensamento da Alteridade, da diferença, numa perspectiva de agregar os diferentes discursos contra a opressão.
Junto a dureza e a força do discurso contra o machismo La Lunna também exala feminilidade e independência. “Trap-Ar” é uma faixa que poetisa o respirar, cantar, trabalhar, compor, trepar, atos naturais mas nem por isso menos reprimidos. Palavras que mais do que demonstrar a ousadia da mana, deveria deixa-nos perplexos diante da forma como nossa sociedade tenta barrar e mesmo excluir todo e qualquer comportamento autônomo e livre por parte das mulheres.
Corpo e subjetividade moldados para a luta constante que o feminino encara dentro de uma sociedade patriarcal e racista. “Local de Fala”, versa sobre a solidão das mulheres negras numa sociedade que privilegia os estereótipos brancos como os únicos dignos de admiração e desejo, digamos mais duradouro. Debate espinhento dentro do movimento negro e que certamente não nos cabe aqui aprofundar em chave teórica.
Nos impressiona a quantidade de camadas de interpretação e temas que a rapper consegue inserir em tão poucas faixas e de durações relativamente curtas. La Lunna alia como pouc@s a força do discurso com muita coerência e uma técnica muito bem construída. Técnicas que vão dos seus elementos de composição passando pela versatilidade melodica até a diversificação de flows. Uma lírica combativa, que encontrou nos beats do RB Alves o par perfeito. Se é verdade que representatividade importa é necessário ressaltar que em arte, a qualidade artística deve estar em pé de igualdade com o discurso e com a figura e isso La Lunna traz de tonelada!
E finalizando o disco a artista simplesmente bagaça demais, Skkkrrrrrr, com uma trapzeira cheia de conteúdo e num speed flow delicioso e mais importante de tudo: audível. Talvez mais do que audível, Girl Power, é a chave final da voz coletiva das minas negras no game. Um delicioso contraponto a uma pá de mc branco, vazios de conteúdo e que rimam a velocidade da luz, porém nessa velocidade: somem. Skrrrrrr.
Um grande Ep, que infelizmente não tenho visto ser compartilhado pelas minas e nem pelos manos em timelines. Dê uma oportunidade e deem o play nessa maravilha diretamente do interior da Bahia pro mundo e entrem no jogo da La Lunna. Vamos aprender que o jogo deve ser contra opressão, algo que deveria ser universal no rap.
Ficha técnica
Produção musical: La Lunna
Instrumental: RB Alves/ @rbalvesofficial
Captação: Estúdio Drummond
Mixagem e Masterização: $antana/ @rielgabb
Capa e Arte: Ian Santiago/ @blaseunity
Danilo
Matérias Relacionadas
Assine a nossa Newsletter
*Conteúdo exclusivo direto no seu e-mail
No ar!
NEGGS & YANGPRJ, arte e cultura Hip-Hop piauiense expandidas e renovadas, e agora?
Após 3 discos lançados, NEGGS & YANGPRJ expandiram e renovaram a arte e a cultura Hip-Hop piauiense, “Libertador part. II, o fim de um ciclo! Em seu último movimento, a dupla de artistas piauienses NEGGS & YANGPRJ, lançou o disco “Libertador part. II”, no final…
NEGGS & YANGPRJ, qualidade violenta e a renovação do Rap feito no Piauí – PT. I
Uma dupla que vem se desenvolvendo junto, o MC NEGGS e o produtor YANGPRJ lançaram três discos que já são marcos da renovação do rap no Piauí! Os últimos três discos da dupla NEGGS & YANGPRJ, MC e produtor piauienses são frutos históricos e excelentes…
TIPOLAZVEGAZH, mixtape de estreia do Vandal completa 10 anos de seu lançamento – Artigo
TIPOLAZVEGAZH, a mixtape de estreia do Vandal, marcou a história do rap no Brasil, antecipando sonoridades e revelando um MC único “UH TEMPUH PASSAH EH EUH KIH FIKOH EMOCIONADUH” Vandal Há 10 anos, Vandal lançava sua mixtape de estreia TIPOLAZVEGAZH, fruto de uma movimentação coletiva…
Xico Doidx, diretamente de BellHell, lançou o seu disco de estreia: SobreViver.
Uma estreia em disco depois de 15 anos de caminhada, Xico Doidx lançou o disco SobreViver, contando com a produção do OnçaBeat Ouvir Xico Doidx e o seu álbum de estreia “SobreViver”, que conta com a produção do OnçaBeat é um exercício de capturar criticamente…
Zadorica e a sua “Sina”: “o Rap ninguém me apresentou, ele aconteceu” – Entrevista
Entrevistamos a Zadorica, MC e produtora que acaba de lançar o seu disco de estreia: “Sina”, para você saber melhor sua caminhada e ideias! A agência entre formação pessoal e desenvolvimento artístico não opera por causalidades, a todo um trabalho de “reflexão” – flexionar para…
Tigran Hamasyan: folclore, erudição e improviso – o escape para encontrar a liberdade musical
Tigran Hamasyan é um pianista armênio, que conseguiu atenção mundial quando sua interessantíssima visão sobre música folclórica, clássica e improvisação começou a receber atenção do público e das grandes gravadoras. Sempre registrando projetos por selos proeminentes, principalmente do mercado europeu e norte-americano (como Nonesuch Records…
A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim”
Com dois discos lançados em 2025, o rondoniense kami lauan chega com “tTrazedor de Notícia Ruim”, um disco fora da curva! kami lauan e o seu disco “tTrazedor de Notícia Ruim” é um acontecimento para o rap nacional em 2025. Se você acompanha de fato…
“Tertúlia” de Galf AC & DJ EB, lírico e rítmico, a música e a poesia Rap – Entrevista!
Com muitas participações, Tertúlia de Galf AC & DJ EB é um disco raiz do rap nacional com uma roupagem atual e consistente! Um dos grandes discos do ano até aqui, “Tertúlia” contém 11 músicas e diversas participações de nomes como Rodrigo Ogi, Ravi Lobo,…
