A Diamba completa 20 anos de estrada com muita consistência e independência em um disco onde a qualidade nos faz perceber que ainda bate onda
Batizada com o nome da planta sagrada para a cultura rastafári, a Diamba pode hoje ser considerada um dos nossos monumentos – baiano e brasileiro – ao reggae jamaicano. São 20 anos desde sua fundação, completados esse ano e que com esse lançamento nos enche de alegria. Pois percebermos como é possível envelhecer com dignidade, sem se curvar ao star system. Duas décadas da mais pura sintonia com o seu público e porque não, amplo sucesso naquilo a que se propôs. Meu primeiro contato foi através de uma fitinha K7 gravada do clássico programa do saudoso Lino de Almeida e o seu formador Rasta Reggae. A apresentação ao vivo no Pelourinho trazia músicas que logo depois estariam presentes do debut da banda, o delicioso: Ninguém esta a Salvo de 2000. Mas foi o cover de Chant Down Babylon e a insana aceleração que os meninos – àquela altura eles eram – imprimiram para o clássico de Bob Marley, que mais me chamou a atenção.
De alguma forma aquela aceleração era pra mim mais verdadeira e expressava naquele momento mais do som da banda (sua novidade) do que as suas canções autorais. Devagarinho fui me inteirando do som deles, no recém-lançado primeiro disco, e depois em muitos shows. E uma das características que sempre me chamaram a atenção foi justamente aquela aceleração. Sempre com composições para cima, recheadas de positive vibrations com muito punch no ataque, fosse dos instrumentais, fosse das performances enérgicas do vocalista Duda. Composições maravilhosas e invulgares, com aquele apelo pop que contamina pra valer e fazem as canções durarem com frescor na nossa mente mesmo após duas décadas. E assim eles se mantiveram nos últimos 16 anos desde esses primeiros contatos. De lá pra cá, são 4 discos e dois DVD’s gravados de forma independente, a base de muita resistência e qualidade, conseguindo manter o mesmo frescor do inicio.
Em Setas Indicam A Direção, Duda (Voz), Renato Nunes (Baixo) e Tilson Santana (Teclado), acompanhados de excelentes músicos, apontam o norte do amor como alvo dessas setas musicais. São 10 as canções que nos são aqui apresentadas. As vibrações positivas cultivadas pelas composições, não se detém em jargões ou clichês. Como sempre diversos temas são abordados com leveza e belas imagens poéticas são produzidas. Todas ancoradas em metáforas da natureza e da vida nas cidades. Desde a bela canção In Flow e Foi, presente no primeiro disco (2000), onde os ventos que movem embarcações encontrava sua analogia com o sopro da própria vida. Vida essa que se manifestava através do cantar mais próprio. Essa qualidade permanece ao longo do disco, recheado com analogias desse calibre nas canções da banda. E Divino Cobertor segue essa deliciosa tradição mostrando-nos como nosso corpo pode ser entendido como um rádio e a necessidade de nos sintonizarmos internamente para seguirmos conectados com o sagrado.
Praiano sem ser pueril, o som da Diamba segue prestando suas homenagens a vida, ao amor e aquele sentimento de veraneio que muitas vezes nós moradores do litoral possuímos. Aqui esse sentimento é vivido e transmutado em arte pelo trabalho artístico da Diamba. Aditivo Natural e O Cometa são duas nessa pegada, deliciosas para embalar qualquer luar. Ou mesmo para reenergizar e aliviar as tensões em meio a um engarrafamento. Ainda seguindo a linha dos cânticos a vida, ao amor e a exaltação positiva temos A Vida É Bela Pra Quem Sabe Amar, canção que entrega o jogo do disco de cara. Mostrando um Duda que envelhece muito bem e desenvolve a extensão e precisão de sua voz na medida em que amadurece sua arte. As linhas bastante pronunciadas de baixo preenchendo de swingue e auxiliando os teclados que criam um clima maravilhoso para essa canção romântica. Sem pieguices, de melodia grudenta e muitos efeitos eletrônicos é um verdadeiro single em potencial. Daquelas músicas que podem perfilar durante toda uma tarde no repeat : “Se amar alguém é um cargo fatal, eu quero ser somente a morada do Amor.”
A substância feminina é a homenageada em Riska a Pista, porém de forma etérea utilizando com propriedade as ambiguidades. A composição não se fixa em nenhum ente, e talvez possamos identificar esse feminino justamente como o ser da própria música: “Swingue pelo piso já começa a se espalhar/ essa força toda que não para de dançar/ diga sentimento invade o peito e faz crescer/ a cidade toda que não para de doer”.
Já foi dito que o poeta é a antena da raça e em outra parte a canção nos diz: “Se não tiver ninguém pra atrapalhar ela vence ela é dance ela não quer parar/ ela é parte da cidade que não vai doer/ ela é puro sentimento para transcender.” Música deliciosa, a nossa predileta até aqui, construída com a excelência dos teclados climatizando e também solando bonito. A guitarra contribui com um solo faceiro no final e a bateria segurando a onda com um pegada mega groovada! Poesia ímpar e que balança com aquele punch que citamos acima numa cadência deliciosa com alguma pitada de ragga, dancehall.
Talvez não seja errado dizer que a música da Diamba se concentra mais nos instintos do que propriamente em instituições. Ao invés de criticas sociais em escalas macroscópicas, ao longo de seus discos encontraremos mais criticas aos afetos empobrecedores da vida. Focando-se mais numa escala que poderíamos chamar de micro politica. Há sempre uma busca por exaltar sempre os afetos alegres como a coragem, alegria, harmonia. Esses como resultados da ligação com o divino na natureza e a fé no supremo, caso de Redentor e Vera. Ou buscando se situar na esfera dos sentimentos que muitas vezes obscurecem nossas ações e impedem a tomada de direções vitoriosas como em Coração Nayabingi.
Esse foco certamente não é menos potente e nos dá muito a pensar, seja na busca do auto conhecimento ou mesmo através de um aspecto mais coletivo. Na medida em que o individuo é com outros. A também a possibilidade de pensarmos que significa de fato diversão, qual deverá ser o significado do entreter-se. Em Vera podemos escutar: “Se acreditar no pensamento/ colher bons frutos do momento/ seja nesse ou noutro dia/ amar você na melodia/ vera/ que a música que vou tocar/ em transe você vai ouvir/ unindo o pensamento bom/ a dança é quem vai construir/ com todo sentimento oh oh.”
A critica social a violência urbana, ao aprisionamento em massa da população negra e pobre, as condições de moradia muitas vezes sub-humanas aparece em Calma Bomba. Onde talvez encontraremos o ponto em que uma das composições não se encontra na mesma qualidade de suas companheiras de disco. O disco fecha com Nova Tattoo, mais uma bela composição que clama pela paciência e pela segurança na remada coletiva. Remada como movimento ético que empreendemos ou que deveríamos empreender cotidianamente. Afinal estamos todos – enquanto sociedade – no mesmo barco e é justamente pela confusão de direções a se tomar, ou pela maldade sistemática, que impomos que alguns devam remar enquanto outros tomam sol no convés. Uma bela e certeira analogia como nosso cenário politico atual e desesperador.
É mais um disco onde a Diamba arranca com facilidade risos de felicidade e júbilo daqueles que apreciam a leveza como atributo primeiro da existência. O sorriso ainda estampa o rosto deste que vos escreve, mesmo após dezenas de audições. É dar o play e ser preenchido pela história vitoriosa dessa banda, assim como de suas músicas e da verdadeira vibração positiva. Existem mil formas de queimar a babilônia, invente a sua, pois a Diamba queima pela Alegria.
Enquanto banda os caras encontraram a harmonia coletiva necessária e tem se mantido numa direção musicalmente acertada nesses últimos 20 anos. Esse disco prova que ainda há muita lenha pra queimar e muita onda para emanar. Que venham mais e mais décadas de poesia e música reggae da melhor qualidade. Nos alegrando e nos mostrando a direção para novas e melhores vibrações positivas, para a busca de nossa harmonia com a terra e com os nossos irmãos.
Curta o disco novo no Spotify:
Ficha Técnica:
Eduardo Sepúlveda (Duda) – Voz
Tilson Santana – Piano, Orgão, Shynts e Vocal
Renato Nunes – Contrabaixo, Guitarra, Shynts e Vocal
Iuri Carvalho – Bateria e Vocal
André Lomi – Guitarras
Paulo Fael – Orgão, Shynts
Reman Buchegger – Guitarras
Djah Vincen7e – Percussão Nya e efeitos eletropercussivos
Participações especiais:
Karyne Rosselle – Backing Vocais (Exceto “A vida é bela pra quem sabe amar” e “Nova Tattoo”)
Ijahwell Inl (Moa Ambessa): Percussão Nya
Gel Fya: Backing Vocal em “Aditivo Natural”
Danilo
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