Zadorica e a sua “Sina”: “o Rap ninguém me apresentou, ele aconteceu” – Entrevista
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Zadorica e a sua “Sina”: “o Rap ninguém me apresentou, ele aconteceu” – Entrevista 

Entrevistamos a Zadorica, MC e produtora que acaba de lançar o seu disco de estreia: “Sina”, para você saber melhor sua caminhada e ideias!

Zadorica

A agência entre formação pessoal e desenvolvimento artístico não opera por causalidades, a todo um trabalho de “reflexão” – flexionar para dentro – e de condições de produção e expressão, que são muito diversos em cada caso. Neste sentido, é sempre interessante descobrir processos pessoais de artistas que estão iniciando sua carreira profissional. 

O disco de estreia da Zadorica, “Sina”, que resenhei recentemente por aqui, é uma das excelentes novidades de 2025, podendo receber realmente o nome de revelação. Uma cantora, compositora, MC e por fim beatmaker – nessa ordem – que conseguiu lançar um disco onde mesmo que de modo cifrado, carrega as suas vivências mais pessoais. Porém, essas mesmas vivências são automaticamente ligadas ao conjunto da sociedade, se tornando fruto do socius, filtrado, elaborado e expresso através da Isadora. 

De Isadora até Zadorica, dores, alegrias, cheiros de casa limpa, incêndios, ENEM, freestyle no intervalo do trabalho, muita coragem migratória, nos concederam “Sina”. Seu disco, com o de muitos outros artistas da nossa cultura Hip-Hop, traz essas marcas hieroglifadas em ritmo e poesia. Sugiro, que o leitor leia a entrevista com atenção e se disponha a re-ouvir o “Sina”, depois e ou ouça pela primeira vez, tendo essas histórias que tão generosamente, a artista nos contou.   

Oganpazan – Salve Zadorica, gostaria de começar perguntando qual a sua primeira lembrança musical e quando e qual música ou artista te tocou de modo que você quis começar a fazer música também?

Zadorica – Minha primeira lembrança musical são os CDs que minha mãe colocava no radinho de casa para passar roupas no domingo. Morávamos no fundo de uma funilaria, uma casa simples, construída pelo meu tio, dono do terreno, e meu pai biológico. O chão era ardósia verde, minha mãe teve muita vivência de faxineira, usava muitos truques das casas de madame pra deixar o chão bem encerado. Quando meu pai saía pra beber a casa ficava numa paz danada, ela gostava de ouvir Djavan, Elis Regina, Ana Carolina, Milton, Seu Jorge…
Eu tinha uns 5 ou 6 anos, ficava no chão prestando atenção, sentindo o cheiro gostoso daquela casa limpa. Elis Regina foi uma das primeiras mulheres que ouvi cantar, eu decorei o CD dela, era aquela da série Millenium século XX.

Com certeza ela foi minha maior inspiração, antes dela eu não sabia que mulher também podia cantar.
O ambiente da minha casa era muito violento, tive uma infância vulnerável, minha mãe me percebia muito enérgica e revoltada às vezes, foi então que teve a ideia de me colocar pra aprender piano com o filho da melhor amiga dela, ela percebeu meu interesse por música antes de mim, acreditou na força da arte como ferramenta de expressão. Eu nunca mais parei. 

Oganpazan – Seguindo essa linha, o que te motivou a querer começar a fazer música dentro da cultura Hip-Hop e como foi esse começo?

Zadorica – É engraçado responder isso porque eu sempre soube tantos gêneros musicais…
Aprendi moda de viola pra cantar com meu avô, me apaixonei por forró aos 8 anos, quando tinha apresentação ao vivo nos bares que minha tia me levava, eu pedia o microfone… mas o Rap ninguém me apresentou, ele aconteceu.
Minha irmã namorou um rapaz que tinha um Opala que só tocava Racionais, Sabotagem, 509-E…

Junto com isso eu vivi a onda do hiphop gringo, 50 cent, SnoopDog, 2pac. Nessa época, mais ou menos 2009, minha irmã me deu um telefone quebrado, mas a câmera funcionava, comecei a me gravar fazendo rap sozinha em casa, tentando rimar. Uma tia viu esses vídeos, gravou um monte de RAP em um MP3 e me deu de presente, nunca mais parei de ouvir Rap mas só em 2018 eu tive meu primeiro grupo de Rap Acústico,’Mahatma’, nos conhecemos em um cursinho popular de pré-vestibular, ia rolar um evento de apresentações artísticas,  eu escrevi sobre o incêndio que atingira o museu de arte nacional do Rio de Janeiro, a letra rodou na mão de uns meninos que eu nem conhecia direito, eles pediram para participar da letra, virou um boombap, formamos um grupo que a princípio era só pra se apresentar no cursinho, mas lotamos algumas casas de show em São José do Rio Preto, cantando músicas autorais e covers.

Zadorica
Zadorica com seu primeiro grupo de rap acústico

Depois que cada um passou no seu próprio curso de faculdade o grupo se desfez naturalmente, segui fazendo barzinhos com voz e violão, queria ganhar dinheiro, fiz lançamentos solos mais puxados pro R&B, MPB, com outro nome artístico, deixei de me identificar comigo mesma, com minhas músicas, em como me apresentava pra sociedade. Me assumi mulher lésbica, passei um bom tempo sem lançar me entendendo e retorno em 2025 com um disco produzido por mim, contando minha historia, fortacelendo narrativas que precisam ser discutidas, direitos nossos que precisam ser exercidos e principalmente exercendo função social enquanto artista, coisa que só agora entendo que é inegociável pra mim. A arte, independente do gênero, precisa ser ferramenta de transformação, a música me salvou, trouxe calma e disciplina para que eu pudesse me manter firme mesmo em um núcleo familiar violento. O Rap me traz significado, maneiras de denunciar nossas realidades e curar feridas. 

Oganpazan – Você é do interior de São Paulo, certo? Como e porque você se mudou pro Rio e como foi a sua ambientação e começo de produção artística aí?

Zadorica Zadorica – Sim, São José do Rio Peto é uma cidade da ponta do estado de SP, quase fazendo divisa com Minas Gerais. Vim pro Rio com minha cachorra, fiquei 15 dias na casa de um conhecido até achar uma casa só pra mim, fui muito bem recebida na comunidade do Catrambi, Zona Norte, onde moro até hoje há quase 3 anos. Me mudei porque queria mais oportunidades na múscia, Rio Preto não recebe música autoral muito bem, a adaptação no início foi bem complicada, sozinha, sem dinheiro sobrando em outro estado é sempre mais difícil mas eu tive a sorte de encontrar a minha esposa, a partir daí tudo fluiu com mais tranquilidade com essa rede de apoio.

Oganpazan – Hoje temos muitas pessoas LGBTQIA+ e mulheres assumindo as produções de beat no rap brasileiro, como você começou a produzir e quais foram suas principais inspirações?

Zadorica – Comecei a produzir para me emancipar de homens produtores, baratear custos, descobrir o meu som fazendo ele, descobrir mais das minhas influências, pesquisar mais, descobrir artistas únicos que não estão sendo recomendados pelo spotify. Iza Sabino é uma mulher que me inspirou muito a produzir, mas gostaria de ter sido mais inspirada por mulheres produtoras, esse é um movimento que me parece ainda inicial. Agora me pergunto o porque não fiz antes se me sinto tão capaz após concluir um álbum lindo, será que foi porque não vi tantos espelhos disso? estava no lugar errado?

Oganpazan – Você sempre escreveu letras pessoais e políticas? Conta para gente como foi o seus começos nos versos. 

Zadorica – Nem sempre. Sou compositora e já escrevi pagode, sertanejo, forró… Nesse caminho, acabei me perdendo um pouco da minha trajetória. Interpretei músicas que eu mesma escrevi, mas que não eram para mim. Até chegar a maturidade de perceber isso, vivi alguns descaminhos que, no fim, viraram caminhos. Foi importante passar por tudo.

O mais curioso é que minha primeira letra de rap, lá em 2018 com o grupo Mahatma, já era pessoal e muito política. A partir dali, com estudo, leitura e a consciência de que minha própria existência já era um ato político, comecei a me observar mais e a observar pessoas que vivem realidades parecidas com a minha. Volto a escrever, mas agora com a certeza de que é para mim.

Oganpazan – Como eu já te falei, o seu som me chegou via o Rômulo Boca, diretamente lá do Ceará e não por parceiros seus ou pessoas cariocas. Você possui uma rede de alianças com outros artistas e produtores no Rio? Quem são. onde vivem, como se alimentam?

Zadorica – Algumas alianças são recentes, outras ainda frágeis. Mas eu tenho sorte: recebo o apoio necessário pra continuar trabalhando. A Maria, que é produtora cultural e grande amiga; O Tom, que é MC, mestre de cerimônia, cria das batalhas; O DogCaos, que é MC de longa caminhada. E como sempre, mulheres amigas do rap que se fortalecem na cena como a GZI, MC, compositora, cantora e atriz, também são pilares nessa minha jornada. Além de fortalecerem meu corre, me inspiram.

O rap ainda é um espaço dominado por homens cis. E eu, como uma mulher sapatão desfem que não está aqui pra cantar só o refrão melódico, sei que vou sentir as consequências de não estar na line, não entrar no feat, não ser compartilhada pela rede de apoio da panela. O discurso de coletividade alcança muitos homens do gênero, mas quase nunca chega até mim. Ainda.

Oganpazan – Seus trampos só começaram a vir à tona agora em 2025 né, porque essa “demora”?

Zadorica – Acho que só agora é a hora mesmo, só agora tenho orgulho do que faço, só agora entendo os meus motivos e minhas necessidades. Agora eu dei função para minhas letras. 

Capa do disco “Sina” da Zadorica. Ilustração do @davinci_mp4

Oganpazan – “Sina” é um álbum muito político sem ser panfletário. De certa forma, me parece que você utilizou esse disco para se afirmar esteticamente, suas visões políticas, postura ética, sua história pessoal e identidade, eu tô enganado?

Zadorica – Meu desejo foi construir algo que além de me representar, representasse uma classe, que falasse da perspectiva da angústia para encontrar o ouvinte através da dor, do esgotamento em comum. Vivemos no país que os mais velhos não gostam de falar de política e que boa parte das pessoas pobres votaram na direita, o discurso rebuscado nas letras é lindo mas não é capaz de atingir e indignar a classe trabalhadora se temos 3 pessoas analfabetas a cada 10 brasileiros.
A estética veio com esse combo, primeiro eu sou ferramenta, depois eu vejo se a caixa que vão me guardar é bonita. Gosto mesmo é de ser útil. 

Oganpazan –  Você produziu todos os beats mas teve participação de músicos né? Fala pra gente como se deu a produção musical do disco. 

Zadorica – O disco foi um acidente de trabalho, eu estava estudando produção musical e o Dudu, músico, produtor musical e amigo do meu antigo emprego disse que eu me tornaria uma produtora. Me apoiou, gravou instrumentos para Mandinga e Sina do Trabalhador.  A partir daí, comecei a me virar com tudo, quando estava na quarta faixa percebi que era um disco. 

Algumas faixas foram escritas no transporte, outras eu fiz partes de free no fechamento da cafeteria que trabalhei. Sentava, anotava, cantarolava o flow, esses eram os dias que vencia a angústia, a preocupação de não estar criando.

Oganpazan – Sobrou alguma coisa da Zadorica, menina do interior vivendo no Rio de Janeiro? Quais as mudanças e permanências entre uma e outra?

Zadorica – E como sobrou, agora eu falo com ‘x’ só pra não pagar mais caro. Zadorica é meu apelido de infância, trazer ele de volta faz eu me lembrar mais de mim. Fui menina piveta, aprendi a guiar trator, minha brincadeira foi barro, riacho, estilingue, cavalo. A água da minha avó era da bica, o quintal da minha tia era forrado da parreira da uva… Isso ninguém toma, a única coisa que muda é que adulto precisa fazer dinheiro e ser artista é querer curar uma angústia infinita. Ela nunca sara e eu nunca deixo de ser artista.

Oganpazan – Pra finalizar mana, o que será a auto estima do trabalhador? 

Zadorica – Meu amigo Danilo, tem autoestima melhor que ter dinheiro para pagar as contas e ainda sobrar pra passear? Poder presentear quem você ama, comprar a roupa que precisa, tomar sua cerveja em paz… O dinheiro, a moradia, a alimentação garantida traz tranquilidade, a autoestima está ligada a estabilidade e dignidade do trabalhador. Ainda estamos lutando pelo básico, mas a sina do trabalhador há de ser a autoestima. Tenho fé.

-Zadorica e a sua “Sina”: “o Rap ninguém me apresentou, ele aconteceu” – Entrevista

Por Danilo Cruz 

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