Volta Seca foi o mais jovem dos cangaceiros do bando de Lampião, mas também carregava boa sensibilidade musical e nos deixou um disco!
Volta Seca, nosso primeiro “original gangsta” da música brasileira, gravou um disco em 1957, um copilado pouco comentado de músicas do então sucesso de público forró, gênero musical nordestino de imensa importância para nossa cultura. Um registro musical que é também um documento histórico, que nos dá a ver diversas nuances do cangaço e de seus participantes.
Antonio Alves de Souza ou Antonio dos Santos, não se tem confirmação do seu real nome de batismo, foi o destemido Volta Seca. Integrante do bando de Lampião, tendo se engajado no cangaço com a idade de 11, 12 ou 13 anos, também não se tem a idade exata confirmada. O certo é que os relatos o destacam como o mais jovem membro do bando de Virgulino e um dos mais temidos. Natural de Itabaina-SE, Volta Seca foi preso três vezes durante sua participação no cangaço, tendo fugido por duas vezes. Na primeira vez ao receber um “passeio experimental” não voltou mais, na segunda, saindo com um amigo pela porta da frente sem dar um tiro.
Preso pela última vez em 1944, o cangaceiro foi condenado inicialmente a 145 anos de sentença, que depois foi reduzido a 30 e por fim a 20 anos de prisão. Em 1954 Volta Seca recebeu o perdão do então presidente Getúlio Vargas e aí começa a história que nos importa aqui. Foi convidado pelo cineasta e diretor Lima Barreto para assistir e criticar o filme o Cangaceiro(1953) mediante o recebimento de um cachê. Tendo criticado veementemente a cena onde Lampião chicoteia um dos seus homens no rosto, algo segundo ele inadmissível no cangaço.
E foi graças a essas novas amizades que recebeu o convite que nos traz aqui. Pois em 1957 o cangaceiro na luta por se manter numa vida honesta, é convidado pela gravadora Todamérica a gravar um disco.
E é a partir desse acontecimento que temos hoje um excelente documento histórico/musical: Cantigas de Lampião apresentadas por Volta Seca (1957). No disco Volta Seca canta todas as músicas tendo acompanhamento e coro, com a regência do maestro Guio de Morais. São 8 músicas no total, com apresentação e descrição das músicas por Paulo Roberto.
Músicas belíssimas de amor como: “Se Eu Soubesse“, porque jagunço também ama:
Se eu soubesse que eu chorando/ Empato a tua viagem/ Meus olhos eram dois rios/ Que não te davam passagem.
Ou ainda em “Laranjeira” e sua bonita metáfora sobre o fenecer dos sentimentos e a natureza : Oh Laranjeira que não bota flor/ Mas bota um bacutinho que não tem amor/ Assim faz quem ama sem ser amado/ Amando sempre sendo desprezado.
Encontramos também o bom humor, algo que parece ser negado na imagem pueril e desumana que muitos ainda conservam dos cangaceiros, prova desse bom humor está em “Ia Pra Missa”. Onde a letra faz pouco caso do “macacos” (a policia que perseguia os bandos):
Ia pra missa, ia chorando/ E a policia vinha atrás acalentando/Oh deixa disso, deixa de brincadeira/ Mas a policia vem tomar uma carreira.
Enfim, apesar de apenas 8 músicas podemos perceber diversas nuances dessas cantigas que permeavam o dia a dia de luta em meio ao cangaço. Tendo a volante no encalço, os cangaceiros ajudaram a criar parte forte da identidade nordestina. Símbolos ambíguos de resistência.
Volta Seca trabalhou por vários anos na Estrada de ferro de Leopoldina, Minas Gerais onde morreu em 1997.
Fontes de pesquisa:
Forró em Vinil
