Tony Allen & Thiago França em: A força do ritmo pelas mãos calejadas. Uma resenha da última apresentação do mestre nigeriano em São Paulo…
O que é o ritmo? O som é a maior referência para discutir esse tema, mas tentem ignorar as notas por um momento. Os seus passos na rua são um exemplo de ritmo. Sua respiração é outro. Todo corpo é um eterno estado de vibração livre que atua como um catalizador de reverberação de frequências.
É difícil dizer o que é o ritmo, no entanto é claro que ele está presente em qualquer circunstância. E é dessa maneira minuciosa que o groove se aproveitou disso tudo. Num contexto onde o ritmo se configura música, um grande elo para se compreender a ideia desse mantra de ondas é pensar na percussão.
Nana Vasconcelos disse uma vez que “o silêncio é a música mais difícil de fazer”. Essa ausência de notas confronta a música e desafia sua linguagem, pois questiona as referências audiovisuais, como numa sessão de Charles Chaplin. Uma vez que o ritmo se faz presente, a música é potencializada e se liberta, elevando o aspecto visual do som como uma ferramenta de contar histórias.
A partir desse momento, o ritmo, a percussão, começa a construir visões na sua mente, como se o Charles Chaplin estivesse tocando Afrobeat numa sessão particular dentro do seu cérebro. É muito interessante inverter esses cenários e ver como a música estimula e altera a percepção, mas é raro confrontar um som que consiga exemplificar essa odisseia, mas aí, eu vi o Tony Allen criando delírios transcendentais na bateria e tudo ficou mais claro.
Um dos pilares da música africana, o percussionista nigeriano Tony Oladipo Allen é um dos nomes que conseguiram se aproximar do sol para definir o estado de espírito do ritmo. Em suas mãos, a percussão desafia o lúdico, o espiritual e o imagético para mostrar o poder de conexão do Afrobeat à partir de dezenas de outras linguagens sonoras, como o Jazz, o Funk, os graves do Dub e o swing majestoso do R&B.
Com um show num formato desafiador para dizer o mínimo, o compositor autodidata fez um trabalho primoroso ao lado do saxofonista Thiago França. Nome conhecido da cena paulista, principalmente por seu trabalho no Metá Metá e na Espetacular Charanga do França, vale ressaltar que a dupla colabora desde 2013 – ano em que Thiago tocou na banda de Tony em sua última turnê no Brasil – até a realização desse show, durante a nona edição do Nublu Jazz Festival, que aconteceu entre os dias 21 e 23 de março no SESC Pompéia, em São Paulo.
Explorando uma dinâmica em duo, o show tomou forma com Tony Allen, do alto de seus 78 verões, mostrando uma perícia e um feeling estupendo na bateria. Com uma classe praticamente aristocrática, o músico natural de Lagos mostrou grande sutileza enquanto seguia intrincados arranjos com uma naturalidade e uma calma que explicam sua longevidade, após mais de 50 anos de carreira.
Em alguns momentos durante o set, Tony tocava com tanta leveza que cheguei a questionar sua idade. Vê-lo trabalhando é uma aula cósmica e suas mãos tocam a bateria com tanta facilidade que em alguns momentos parece que ele nem faz esforço.
Mas não se engane, isso é muito conhecimento técnico, estudo e sentimento. E não pense você que enquanto Tony mostrava os caminhos do ritmo, Thiago França estava fazendo sala na jam, muito pelo contrário.
Se desdobrando entre o sax alto, tenor e barítono, o músico mergulhou em vertiginosas improvisações. Desafiando o Jazz modal e a escola da música africana, Thiago entregou um blend riquíssimo e que conversou muito bem com as astutas linhas de Tony. Foi um espetáculo intenso, de grande troca com a plateia e que graças a essa dinâmica pode mostrar à plateia como o diretor criativo do Afrika 70 pensa o som e promove uma verdadeira alquimia com os ritmos.
Foram pouco mais de 90 minutos de som. Teve tema do “The Source” – último disco de Tony – liberado pelo Blue Note em 2017. Rolou alguns temas do Sambanzo, que é um dos projetos solos do Thiago França… Foi um grande momento. Quem estava com os olhos vidrados no palco acompanhou uma noite história.
Quando eles tocaram uma cantiga pra Oxum ficou claro como Tony, mesmo sem precisar, continua inabalável, em busca de novos sons. Foi uma honra observar o gênio trabalhando e mostrando que enquanto ele estiver em condições, seguirá expandindo a história do som, as nuances do groove e o futuro do ritmo.
AXÉ, e fique com um clássico do mestre:
Todas as fotos que ilustram essa matéria são de autoria de Guilherme Espir!
https://www.youtube.com/watch?v=XeckmmNPwc8
Sobre o Autor
Guilherme Espir segue imerso no groove – o tempo todo – a missão é sempre extrair visões derretidas do som, com o objetivo de apresentar cozinhas diferentes para ouvidos em busca de novas experiências sinestésicas.
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