O coletivo Tomanacara reuniu no Buck Porão alguns representantes da cena punk/hardcore soteropolitana, para junto com os paulistas da Sweet Suburbia agitar a noite do Pelourinho.
Sou aquele tipo de pessoa marcada pelo stigma do deixe tudo para o último minuto. Há momentos que até esse limite final é extrapolado. Exemplo disso é o texto que escrevo sobre uma festa que aconteceu na segunda metade de junho. Não podia deixar passar em branco esse evento que reuniu sob a égide do lema faça você mesmo bandas importantes do atual cenário underground baiano mais um convidado vindo direto de São Paulo.
O evento Tomanacara apresenta: Sweet Suburbia foi organizado pelo coletivo Tomanacara e aconteceu no Buck Porão, bar que se tornou o principal fomentador da cena underground soteropolitana, sempre promovendo eventos para os mais diversos segmentos artísticos de Salvador. Não há na capital baiana local mais apropriado para acolher shows punks/hardcore que o Buck Porão. Paredes pixadas com frases de conteúdo político, versos poéticos, além da atmosfera pesada característica de um porão, associadas aos sons produzidos e que reverberaram por toda noite do dia 17 de junho, levou as pessoas que por lá passaram à insanidade.
Apesar de comungarem de um paradigma sonoro em comum as bandas que passaram pelo Buck Porão naquela noite possuem suas particularidades, mostrando a diversidade existente no universo punk/hardcore. Cada qual agitou o público numa diferente intensidade, mas sempre num grau elevado, quem esteve presente sabe do que estou falando. Ninguém ficou parado durante os shows, o que seria impossível para alguém que curte um punk rock feito com vísceras e ira. Esses foram os elementos usados para ferver a noite de pessoas claramente sedentas de balançar seus corpos ao som de acordes simples, rápidos e distorcidos.
O aquecimento para os shows aconteceu durante um bate papo com o tema Futebol x Punk. Guilherme Miranda do site Expulsos de Campo foi convocado para mediar esse bate papo. Discutindo as relações possíveis entre o movimento punk e o futebol, melhor, entender como a postura punk pode contribuir para a articulação de um movimento que reflita o que se tornou o futebol moderno. O lema “Não ao Futebol Moderno e os Clubes de Aluguel” dá a tônica da linha de debate construída, bem como aponta para a transformação por completo do futebol em mero produto de consumo. Claro, houve o lado descontraído, onde a resenha teve seu papel desempenhado. Impossível não haver zoação numa sala com torcedores de difernetes times de futebol.
À banda Lardy foi dada a dura missão, e ao mesmo tempo distinta honraria, de iniciar a celebração. As pessoas ainda estavam chegando. Dispersas, faltavas algo que lhes conectasse com a atmosfera ao redor e lhes fizessem perceber a loucura que estava por vir. As caixas de som começaram a zumbizar enquanto punhos rápidos batiam cordas, deslizavam em busca dos acordes, martelavam tambores convocando ao festejo, empunhavam o microfone emitindo sons que aos poucos enfeitiçaram os presentes que agora como público, mexiam-se freneticamente, numa agitação quase convulsiva. Lardy cumpriu bem seu papel de mestre de cerimônia. Lincaram as pessoas à festa e prepararam o terreno para que as próximas bandas pudessem levar a euforia a um grau mais elevado na medida que se substituíam no palco ao longo da noite.
Clima gerado, química estabelecida, foi a vez da Antiporcos conduzir a festa. Sua marca foi impressa na noite e no público, que cedeu às investidas do frenético, seco e direto como um soco na boca do estômago. A intensidade com que a banda no atingiu foi como jogar gasolina na fogueira. Casa em chamas, chegou a hora de passar o galão de gasolina para os próximos incendiários.
A terceira banda da noite veio de São Paulo. Um dos pontos fortes desse tipo de evento está na troca de informações entre as bandas e a interação que permite entre todos os que se envolvem. Sejam membros das bandas ou parte do público. Receber bem convidados, amigos queridos, exige certo cuidado. Assim o coletivo Tomanacara amistosamente dedicou o evento à Sweet Suburbia. Os paulistas mostraram seu punk rock avassalador num show explosivo e carregado de interatividade. Pudemos sentir a doçura suburbana da terra da garoa, mas a rigor, o que veio à tona mesmo foi a rebeldia elétrica e a pedrada sonora que embalam os subúrbios paulistanos. Os caras mostraram se sentir em casa oferecendo uma performance contagiada pela troca de energia com o público que contava com os membros das demais bandas. Ao final de sua apresentação externaram a emoção de estarem tocando no Nordeste e ressaltaram a importância da troca de informação e ajuda mútua entre bandas do Norte/Nordeste com o Sudeste do país e vice versa.
Em seguida foi a vez da Ivan Motosserra empunhar seus instrumentos e assumir a direção para conduzir o público por mais uma viagem alucinante. O power trio baiano meteu o pé na porta sem cerimonias e preencheu todo ambiente com seu som caótico, nutrido de psicodelia, distorção, suavidade em alguns momentos e brutalidade em muitos outros. Embora seja uma banda interessada em desenvolver sua sonoridade na esfera instrumental, revestida de agressividade e timbres os mais diversos, o show contou com algumas músicas vocais e ao menos dois covers, um do Cramps, outro dos Ramones. Bandas que nitidamente influenciam a banda.
https://www.youtube.com/watch?v=qeXMsU-cegs&feature=youtu.be
The Pivos veio numa missão difícil, tocar após a Ivan Motosserra e antes da The Honkers. Os caras não sentiram o peso da responsabilidade e fizeram um show impactante numa pegada ininterrupta sessada apenas ao tocar do último acorde.
https://www.youtube.com/watch?v=dhDUFUwHoV4
O encerramento da noitada barulhosa não poderia ser feito por outra banda senão os The Honkers. Para quem já esteve em algum show dos caras sabe que o nível de insanidade emitido pelo som da banda é altíssimo. A radiação presente na música dos Honkers opera uma transformação radical na personalidade de Sputter, seu vocalista. Quando os acordes da primeira música foram tocados o Mr. Hyde escondido nas sombras do inconsciente de Sputter acorda, eis o anúncio do pandemônio.
A performance espontaneamente estimulada no vocalista pelo som, indica o descontrole de Sputter que convoca o público a se despir seguindo seu exemplo. Rapidamente aquele mar de insanidade se espalha por todo Buck Porão e uma horda de caras seminus surge dançando como nossos ancestrais primitivos ao redor da fogueira comemorando o sucesso da caçada.
Quando o show dos Honkers terminou o transe a que todos nós fomos conduzidos no início da noite, quando os caras da Lardy subiram ao palco, foi suspenso e voltamos mais uma vez à monotonia do que convencionamos chamar de realidade. Cansados, conscientes novamente, porém satisfeitos à maneira de dois amantes após uma noite de muita troca de fluídos, suspiros, gritos e orgasmos!
Acesse a página do Tomanacara no facebook.
Acesse o canal de Gorinez Vídeo no youtoube. Todos os vídeos foram retirados deste canal!
Foto usada em destaque: Jam Martins
Os vídeos das bandas The Pivos e Ivan Motosserra foram gravados por Joaquim Fauro.
Os vídeos das bandas Antiporcos, Lardy, Sweet Suburbia e The Honkers foram gravados por Gorinez.
Carlim
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