A classe Stravinskiana do Fusion do Snarky Puppy
Uma das grandes sensações que a música contemporânea leva ao ouvinte de nova ou mesmo geração é o sentimento de novidade. É ótimo ouvir os clássicos, mas de alguma maneira nota-se uma distância por algo que você não viveu, característica que não afeta a apreciação, claro, mas que dependendo do disco, não pode ser sentido em sua totalidade.
Se você pegar um clássico dos anos 70, verás que seu pai vai ter considerações bem diferentes das suas, pois ao contrário do senhor, ele viveu aquilo. Você habita outro tempo/espaço e, mesmo crescendo ao som dos mesmos LP’s de seu velho, o impacto geracional muda a percepção.
É um ponto de vista que pode parecer estranho, mas que ao som de algumas trilhas pode parecer bastante simples. Creio que é um sentimento que só pode ser compreendido com lançamento, por isso que Sylva, novo disco da big band Snarky Puppy, cai como uma luva.
Depois do lançamento do segundo live em sequência (sucedendo We Like It Here de 2014), o combo chega com mais um respiro fresco de musicalidade para os novos tempos. O frenesi sonoro é potente, segue sublime (pra variar) e ainda aparece com a Metropole Orkest para dar um acabamento classe A.
Espero que a imensa lista de créditos consiga pelo menos dar uma pista para o nível de riqueza que Sylva lhe brindará. Além de ser o primeiro trabalho para a IMPULSE!, este é o quinto disco ao vivo do coletivo de fritadores do Brooklyn, dentro de uma discografia que ainda conta com três trabalhos de estúdio, sendo que já temos mais um agendado para 2016. Dito isso, só podemos concluir que ao vivo os caras são fantásticos e eles sabem disso.
Temos aqui apenas seis temas, mas não se engane, a grandeza é maior do que a lista dos músicos envolvidos e o projeto é absolutamente audacioso. Além de unir a Metropole Orkest, Sylva é um todo complexo de duas suítes, onde a primeira compreende as quatro primeiras faixas do disco e a segunda finaliza o mesmo com mais duas jam’s fracionadas.
Michael Leagues, o chefe dessa quadrilha do groove, sempre desejou fazer este trabalho. O maior problema, além de tempo, era conseguir um disco que não fizesse a banda perder sua característica principal: o feeling e o swing. Com a junção da música clássica, certas bandas alteram as bases criativas ligeiramente, justamente para se adequar ao novo ambiente, fator que pode ser um problema, pois algo pode se perder.
Mas depois de sonhar durante anos, o projeto finalmente saiu do papel e Michael conseguiu unir músicos que além do fator clássico no DNA, tivessem o pé na cozinha negra, um equilíbrio raro de se encontrar, mas que valeu toda a empreitada e justifica a beleza estonteante de um disco que está fazendo a cabeça do planeta desde o dia 26 de maio de 2015.
Para a abertura dos trabalhos temos Sintra, tema que pode soar estranho nas primeiras audições, mas que aqui evidencia um fantástico trabalho de cordas e sintetizadores, isso fora toda a experiência de uma banda que está no auge. Os interlúdios clássicos são entradas triunfais para que o funk anuncie sua presença e eletrifique todo o resto com Flight. Agora sim: Snarky Puppy is in the House.
Os arranjos com peso latino, ideias africanas, experimentações atuais e toda a sorte de pirotecnias, surgem com muitos timbres diferentes. São dezenas de instrumentos, incontáveis detalhes e um trabalho que é um primor justamente por conseguir mostrar tanto sem pecar por excessos.
Notamos a atenção em passagem. Belos arranjos para o time de metais em Atchafalaya e uma síntese de toda essa união com o equilíbrio homérico entre o funk, jazz, R&B, groove e música erudita ao som de The Curtain. Quinze magníficos minutos que encerram a primeira cartada-suite.
Esse trabalho comprova duas coisas importantíssimas:
1) Existem grandes mentes trabalhando dentro da cena atual.
2) O Snarky Puppy atingiu um ponto onde os caras não se limitam, gostam de fritar, mas podem fazer qualquer coisa.
E se você duvida, basta sacar a repagina de Gretel e cair no olho do furacão dos improvisos ácidos em The Clearing, a maior passagem instrumental do disco e talvez a mais inspirada. São quase vinte minutos de trocação. É fantástico, nada se perdeu, a energia e o tesão seguem no talo, agora com ainda mais classe!
Por Guilherme Espir – frita neurônios no Macrocefalia Musical.
***
Track List:
”Sintra”
”Flight”
”Atchafalaya”
”The Curtain”
”Gretel”
”The Clearing”
Matérias Relacionadas
Assine a nossa Newsletter
*Conteúdo exclusivo direto no seu e-mail
No ar!
NEGGS & YANGPRJ, arte e cultura Hip-Hop piauiense expandidas e renovadas, e agora?
Após 3 discos lançados, NEGGS & YANGPRJ expandiram e renovaram a arte e a cultura Hip-Hop piauiense, “Libertador part. II, o fim de um ciclo! Em seu último movimento, a dupla de artistas piauienses NEGGS & YANGPRJ, lançou o disco “Libertador part. II”, no final…
NEGGS & YANGPRJ, qualidade violenta e a renovação do Rap feito no Piauí – PT. I
Uma dupla que vem se desenvolvendo junto, o MC NEGGS e o produtor YANGPRJ lançaram três discos que já são marcos da renovação do rap no Piauí! Os últimos três discos da dupla NEGGS & YANGPRJ, MC e produtor piauienses são frutos históricos e excelentes…
TIPOLAZVEGAZH, mixtape de estreia do Vandal completa 10 anos de seu lançamento – Artigo
TIPOLAZVEGAZH, a mixtape de estreia do Vandal, marcou a história do rap no Brasil, antecipando sonoridades e revelando um MC único “UH TEMPUH PASSAH EH EUH KIH FIKOH EMOCIONADUH” Vandal Há 10 anos, Vandal lançava sua mixtape de estreia TIPOLAZVEGAZH, fruto de uma movimentação coletiva…
Xico Doidx, diretamente de BellHell, lançou o seu disco de estreia: SobreViver.
Uma estreia em disco depois de 15 anos de caminhada, Xico Doidx lançou o disco SobreViver, contando com a produção do OnçaBeat Ouvir Xico Doidx e o seu álbum de estreia “SobreViver”, que conta com a produção do OnçaBeat é um exercício de capturar criticamente…
Zadorica e a sua “Sina”: “o Rap ninguém me apresentou, ele aconteceu” – Entrevista
Entrevistamos a Zadorica, MC e produtora que acaba de lançar o seu disco de estreia: “Sina”, para você saber melhor sua caminhada e ideias! A agência entre formação pessoal e desenvolvimento artístico não opera por causalidades, a todo um trabalho de “reflexão” – flexionar para…
Tigran Hamasyan: folclore, erudição e improviso – o escape para encontrar a liberdade musical
Tigran Hamasyan é um pianista armênio, que conseguiu atenção mundial quando sua interessantíssima visão sobre música folclórica, clássica e improvisação começou a receber atenção do público e das grandes gravadoras. Sempre registrando projetos por selos proeminentes, principalmente do mercado europeu e norte-americano (como Nonesuch Records…
A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim”
Com dois discos lançados em 2025, o rondoniense kami lauan chega com “tTrazedor de Notícia Ruim”, um disco fora da curva! kami lauan e o seu disco “tTrazedor de Notícia Ruim” é um acontecimento para o rap nacional em 2025. Se você acompanha de fato…
“Tertúlia” de Galf AC & DJ EB, lírico e rítmico, a música e a poesia Rap – Entrevista!
Com muitas participações, Tertúlia de Galf AC & DJ EB é um disco raiz do rap nacional com uma roupagem atual e consistente! Um dos grandes discos do ano até aqui, “Tertúlia” contém 11 músicas e diversas participações de nomes como Rodrigo Ogi, Ravi Lobo,…
