Composto por beats do próprio Saggaz, TRASHRAP! reúne 11 músicas com feats do Matheus Coringa, DoisAs, VH, O Escrivão e Eko Napalm

Você já ouviu o rap feito em Goiás? O Brasil é um país de dimensões continentais e ainda assim, em todas as suas regiões há artistas do rap – beatmakers e MC’s – fazendo trabalhos de excelência e não, não são os nomes que você provavelmente está acostumado a ouvir. A experiência de ouvir artistas de diferentes cidades, estados e regiões nos mostra que qualidade e diversidade não é problema, porém, falta muita consciência local e regional por parte do público.
Mesmo em um estado com nomes como Gasper e Atentado Napalm, artista e grupo que possuem alcance nacional, que foram influentes para muito além do seu próprio estado, o público e a cadeia produtiva não se firmaram com uma agenda de shows sustentável. Problema que ocorre – arrisco a dizer – em todo o país. Pois, infelizmente o público é educado a consumir e valorizar apenas artistas que recebem aprovação do eixo, com raríssimas exceções.
Diretamente do estado de Goiás, no centro-oeste brasileiro, Sagaz & Dom Caseiro provam que a imensa qualidade goiana de fazer Rap como arte prossegue intacta. Com o lançamento pela Sujoground, o disco TRASHRAP! que também está disponível em sua forma física de CD, traz 32 minutos em 11 músicas e participações de nomes “locais” como VH, O Escrivão e Eko Napalm (Atentado Napalm) e os baianos Matheus Coringa e DoisAs.
Um dado importante, é que estamos diante de um disco de “dupla” forma rara no atual ecossistema de produção do rap nacional. Todos os beats são da lavra do Saggaz, que rima junto ao seu antigo parceiro Dam Caseiro. Os caras – Saggaz & Dam Caseiro – fazem parte de um coletivo de rap de Goiânia chamado WU-KAZULO com quem junto a Ras Tibuia, Yellow, Renedy e o Firezinbeats gravaram um excelente disco chamado “Os Sete Espadachins da Névoa”, lançado em 2018.
Em suas carreiras solo, Dam Caseiro lançou a Finitude Mixtape em 2020 com a parceria do VH, O Escrivão e Disco Inferno Vol. 1 no ano passado. O Saggaz eu conheci primeiro como beatmaker, somente a dois anos atrás, com o lançamento de Trópicos (2023) com o Galf AC. Fato é que o Saggaz já possui uma larga discografia entre discos, EP’s e mixtapes, e recentemente soltou os EP’s “Estadia” com o Benê e o Guimas Zo, e o solo “Diga Meu Nome”, disponível apenas no soundcloud.
A forte afinidade entre o Saggaz & Dam Caseiro gerou o TRASHRAP!, o nome inspirado em um verso presente no excelente disco Sombra, do Saggaz com o Chiarelli, que depois virou Ad Lib, e por fim se tornou o conceito do disco da dupla. E os caras tiveram a manha demais na composição das faixas, na escolha das participações, na seleção dos beats e na capa que, tudo junto apresenta um objeto estético que realmente entrega o que nomeia.
Há diversas formas de produzir o que comumente chamamos de rap sujo. Porém, por definição é a forma e o conteúdo que precisam – inseparavelmente – transmitir uma ambientação, ideias e imagens poéticas que produzam no ouvinte aquela cara de quem está diante de algo mal-cheiroso. De preferência, gerando o característico movimento involuntário do pescoço para frente e para trás, TRASHRAP! gabarita em todos esses quesitos e vai um pouco além.
Algo já anunciado na primeira faixa “Caçadores do Oblíquo”, o disco segue sendo torto o tempo todo ao longo das 11 músicas, em uma afirmação constante da estética proposta sem fugir um milímetro. A referida música de abertura, uma espécie de pregação pagã de afirmação ao desvio das normas clericais, traz o Saggaz & Dam Caseiro desfiando linhas que além da sujeira, apresenta ao ouvinte referências ao Mortal Kombat e apesar do chorume, palavras de uso incomum.
Longe de levar os pacientes ao decúbito, TRASHRAP! é convocação para uma marcha – anti marcial – rumo a outro horizonte. Bugando algoritmos, com uma lírica e uma rítmica cancerígena a ouvidos domesticados. O que é ressaltado na faixa seguinte: “Peso Morto”. Onde o beat mais reto é entortado pela força do ódio e a habilidade técnica no flow de Saggaz & Dam Caseiro, como dois escoceses tocam uma gaita de fole antes da batalha.
Para muito além de meramente cuspir barras, Saggaz & Dam Caseiro inoculam veneno em uma saliva sanguínea. Imagem interessante pois dá conta do esforço para seguir na linha mais underground, e ao mesmo tempo, recorda os “bons tempos” onde os poetas morriam de tuberculose. A terceira música “Bad Trip” segue nessa toada, onde ao não escolher falar de um tema coeso e construir os versos estilhaçados de sujeira, a dupla leva ao ouvinte algo que não é muito comum.

Um apuro da forma, versos intrincados, onde diversas referências são misturadas para criticar a política, a hipocrisia dos valores, sacudindo o social com o seu próprio esgoto. Foda-se o cristianismo, mas Jesus não merecia a cruz, é tipo isso… No final das contas, a bad trip é emanada do estado capitalista, não do uso de alguma droga maluca. A droga maluca é exatamente o TRASHRAP! e sua capacidade de clareza em meio ao caos.
Antes de serem oradores alvos da morte, Saggaz & Dam Caseiro encarnam seus próprios traumas, o que em tempo de elogio acrítico à terapia é desde já um movimento no mínimo ousado. Pois, sob certa linha de análise a terapia está bastante interessada – a depender da linha terapêutica – em adequar e encerrar no indivíduo, as causas de suas neuroses. Em “Obscuros da Anedota” a dupla procede intencionalmente por uma ligação “esquiza” dos seus traumas e lembranças de infância, a uma implosão da família em favor da sabotagem ativa das linhas de produção capitalistas.
São os pressupostos escondidos das piadas que muitos acreditam e incorporam como verdades da sua própria vida, que são colocados em recipientes de plástico e derretidos com os 11 ácidos presentes em TRASHRAP!. Sem nenhum pudor, os “Rottweilers Sem Coleira” abocanham o pedaço que lhes cabe. Eu tô falando pouco dos beats, mas é porque o disco, seduz a atenção do ouvinte para entender melhor, do que se trata esse chorume. Esse fedor, não faz com que os excelentes beats do Saggaz seja algo menor no trabalho, mas antes, tão bem colocados que são meros condutores rítmicos a substância poética que atravessa o disco.
Apesar do cinismo dos vencedores e de seus lambe botas, perceber que possuem artistas que externam o tédio e a mortificação que se revela no sucesso, não é romantização da pobreza, mas antes, realismo. Bicho, quem é o insano que vai rimar “Rumpelstiltskin”? será mesmo que alguém que busca isso, está meramente desdenhando porque quer comprar o sucesso? Estamos diante de desertores, reais.
O “Show de Truman” traz o feat do “Mao-Tse Coringa”, líder da Sujoground, azedando o leite com Saggaz & Dam Caseiro. Talvez a faixa menos oblíqua do disco, por possuir um sentido forte nomeado no título, os caras juntos mostram o quanto o jogo da música comercial no rap brasileiro, é facilmente detectável para quem tem mais de dois neurônios. E enquanto estou escrevendo essas linhas, geral está no Xwitter discutindo se o Skepta é rap ou não é… Só pra termos uma noção.

Um dos drumless presentes no disco, “Meu Último Adlib” é aquele momento que percebemos que quanto mais dixavamos TRASHRAP! mais chapamos, cada pega te joga para um lugar diferente. O mano VH Escrivão é o convidado em “O Farol”, que traz:
“Cansei de esperar o Sol/ Já não me convém/ Tô parado num farol/ Hoje nada bem”
Apesar de nada bem, Saggaz & Dam Caseiro seguem querendo ver o gelo enxuto, ao som de harpas no beat. Desejos confessados que não precisam de uma escuta especializada para entendermos que esse farol não é de localização, mas de clareza diante da estrada da arte. Mesmo que os neurônios estejam cada vez mais incinerados, porque sobretudo se entendeu que a utopia é para frente, o tempo não volta. Não haverá um nova Golden Era, ela é, ontem, hoje e sempre.
A dupla Saggaz & Dam Caseiro convidaram o Rato Nato dazarea 075 para comporem juntos “Patas de Coelho”, que certamente DoisAs degustou como uma boa larica e uma boa Heineken, porque “skolbeats toma pega”. Aliança dos que não prestam pra início de conversa, clã da “Sujoground”, seu elemento distintivo. E o disco fecha com a participação do mano Eko Napalm que “destreinado” constroi uma referência que precisamos encontrar, como o bêbado sempre encontra a volta para casa.
Dos fliperamas dos anos 90 aos emuladores e o Playstation 5, a ponte entre a sujeira e qualidade, os aspectos mais incisivos da tradição goiana e nacional, está em excelentes mãos com Saggaz & Dam Caseiro. Um disco que está longe da quântica de Schrödinger, aqui todas as vezes que abrir a caixa a sujeira vai estar lá, e estará espalhada pela capital e pela região metropolitana, pelo estado de Goiás e pelo Brasil.
-Saggaz & Dam Caseiro espalhando a sujeira por toda a casa em TRASHRAP!
Por Danilo Cruz
Danilo
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